Abri meus olhos, e chacoalhei a cabeça para me livrar dos últimos restos de sonhos. Observei que ao lado da cama, no chão, havia um par de luvas pretas, luvas femininas. Quem era a dona daquelas luvas? Por que eu sinto que a amo? Não conseguia lembrar o seu rosto Em minha cabeça vinham imagens de nós dois, ela arrancando as luvas e arranhando minhas costas... Sem rosto, sem nome.. Será que eu já a conheço? Espero não ter trepado com ninguém do trabalho. Sentia uma enorme vontade de conhecê-la, desvendá-la. Quis buscar minha amada pela casa. A mulher que eu amo não tem nome e suas unhas rasgam minhas costas. Coloquei as luvas. Nas mãos dela ficam melhores, com certeza, mas assim posso sentir como ela sente. Alisei meu corpo como queria que ela alisasse. Tive uma ereção. Então comecei a procurá-la o quarto.. –Que quarto é esse? Que casa é essa? Será a dela? Que eu nunca estive aqui, isso é certo. Preciso foder.Levantei-me tentando buscar algum rastro da minha amada. Entrei em uma sala, que tinha TV com poucas polegadas e um sofá marrom de aspecto sujo. No sofá encontrei um vestido preto. Dela certamente, o vestido da mulher que eu amo. Cherei-o. Um vestido que tem um corpo. O corpo dela. Do corpo eu lembrava. Do rosto não. Me lembro de despir o corpo naquele sofá. Lembro de ter possuído o corpo no chão da sala. Não consigo lembrar o rosto, nem o nome, nem o resto. Vejo uma camisinha usada jogada no chão, isso me da à certeza de ter transado com a mulher que amo, cujo corpo perfeito não tem rosto, e nem vestido. Uma vontade de vestir o vestido me possuiu, porque senti que assim estaria perto dela. E ao perceber o quão fria estava a casa, resolvi usar a temperatura como desculpa para mim.
Travestido de negro, como uma viúva, eu continuei andando por aquela estranha casa, que era bela e decadente. Uma provável casa respeitável em outros tempos. Mas hoje era um acumulo de poeira, móveis velhos, e habitat da minha paixão sem rosto. Cheguei a uma sala de jantar com uma mesa velha e de cor verde, em cima da mesa encontrei louças quebradas e uma garrafa de vinho pela metade. Peguei uma taça caída no chão, e estava manchado com um batom, tão preto quanto o vestido e as luvas. Bebi um gole do resto do vinho da taça manchada, mas já era puro vinagre, então cuspi tudo no chão não varrido. Nos pratos havia um resto de comida que não ousei tocar. Será que ela cozinhou para mim? Ela é maravilhosa, pena que não tenha rosto.
Minhas lembranças do jantar vinham em flashes. Suas belas luvas pegando na taça e sugerindo um brinde. A sua forma de cruzar a pernas, que permite minha visão de sua calcinha também preta. -Meu Deus! Amo uma mulher sem rosto nem nome! E amo-a Por ela não ter identidade. Esse é meu fetiche!
No instante dessa conclusão ouvi, vindo do corredor, um barulho de chuveiro sendo fechado, que até aquele momento, não o havia escutado aberto. Curioso, e ao mesmo tempo com medo a possibilidade de desvendar o rosto da minha amada, fui em direção ao barulho, não sem antes pegar uma garrafa de vinho (que ainda era vinho e não vinagre), vestir uma meia arrastão, e calçar um par de botas pretas que estavam pela cozinha. Por algum motivo minha vontade de me travestir era enorme. E eu tinha parado de fazer isso com 12 anos. E assim, vestido como minha amada se vestiu para mim, quis que ela me visse.
Com minhas bolas e meu pênis espremidos pela meia, e o apertado vestido juntando minhas pernas , me esforçava para não rebolar muito enquanto andava dando longas goladas no vinho. O que me rendeu um ar ainda mais feminino, pois minha boca ficou vermelha. Quando faltavam alguns passos para eu chegar ao banheiro, a porta se abre e de dentro sai aquele corpo perfeito, cujo rosto era só um borrão, enrolado em uma toalha surpreendentemente rosa, eu fitei aqueles pés sem botas, as canelas e as coxas sem meias, e todo resto até chegar nos ombros, lá parei. Não queria olhar seu rosto e destruir minha paixão, que era pelo mistério e não pela mulher. Não resisti e subi meu olhar direto para os olhos dela. Seus olhos me encararam assustados, provavelmente espantados com o meu traje. Seu olhar era mais provocante e intenso do que todas as discórdias do mundo. E seu sorriso despertou um caos em cada fibra do meu ser.
-Por que essas roupas? Disse ela
-Porque eu não lembrava seu rosto. Respondi secamente para não transparecer meu medo.
-hahaha você está Ótimo.
-Você devia usar mais saias vermelhas, e mais largas. Esse vestido é muito justo.
Ela me encarava e isso ia me irritando. Aquele olhar doce e revelado. Seus lábios carnudos e tão sem mistério. Quando não amo alguém que me ama, o único sentimento que minha alma revela é ódio. Sinto ódio de quem me ama errado. Assim como todos sentem. E isso é oque eu sentia naquele momento. Queria destruir seu rosto e apagar a lembrança dele da minha memória para voltar amar aquele corpo cuja dona é secreta. Esse era meu fetiche: mistérios, segredos, essa era minha paixão.
Ela fixou os olhos nos meus, e seus lábios sem se mexer deslizaram palavras aos meus ouvidos:
-Agora que se lembrou do rosto, que tal lembrar outras partes?
E soltou a toalha e eu pude ver o corpo que eu havia possuído na noite passada, o corpo que se não tivesse rosto, nem belo nem feio, mas rosto nenhum, eu amaria para sempre. Tentei me prender àquela visão mas só senti náuseas pois lembrava que o corpo agora tinha dona. Não era mais meu. Só pude balbuciar umas palavras:
-Vou comprar cigarros. Falei com a certeza de não voltar mais
-Pelo menos deixa eu te maquiar primeiro... Suplicou com a voz tremula de quem sabe que será abandonada.
-Depois. Pensei em perguntar o nome dela. Mas isso estragaria ainda mais meu romance.
Virei às costas, soltei a garrafa de vinho, e fui em direção a saída, que eu sabia instintivamente, por que nunca havia estado, e nem saído daquele lugar. De vestido ganhei a rua, e só um pensamento me passava pela cabeça: chegar a minha casa, e me masturbar pensando naquele sorriso.
Valete.
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