quarta-feira, março 16

bumerangue.

Ele entra na casa. Senta no sofá. Abre uma cerveja. Ela aparece depois. Cabelo caído na cara. É bonita demais pra ele, mesmo assim se beijam. É um beijo automático. Se encaram por alguns segundos. Quem quebra o silêncio é ele.
- então você voltou.
- você sabe que eu sempre volto.
- você é tipo um bumerangue...
- eu tive um bumerangue uma vez... Ele nunca voltava... Eu dizia pro meu pai que estava quebrado... Meu falava que eu lançava errado, mas ele também não conseguia fazer voltar...
- acho que só australiano consegue fazer funcionar, pra caçar canguru..
- é meio inútil né?
- o que?
- caçar com bumerangue, sei lá... Parece difícil... Por que eles não usam arco e flecha..
- o Pernalonga conseguia caçar de boa...
- você vê muito desenho...
- é...
Ela vai até a geladeira. Pega uma cerveja. Senta na mesma pose que ele. Os dois dão um gole sincronizado. Ela olha pra TV, olha pro relógio, olha pro teto.
- sabe.. Às vezes eu me sentia como o meu bumerangue...
- australiana?
- inútil...
Silencio. A luz vai diminuindo. Eles dão mais dois goles sincronizados. Na TV uma série de barulhos incompreendidos..
- eu sempre preferi estilingues...
- eu só tinha meu bumerangue, e meu pai que não sabia lançar...
Silencio de novo. Agora só a luz azul da TV ilumina os rostos. Ele feio, bruto, barrigudo. Ela bonita demais pra qualquer um. Um belo casal.
- você sempre vai voltar?
- a não ser que você me lance errado.
Plano detalhe, é o olho dele. Uma lágrima desce silenciosa pela pele azul-TV. Mais um gole sincronizado. Essa será uma boa noite. E se ela se for, talvez ela volte, como um bumerangue lançado pelo Pernalonga..

Um comentário:

  1. "Australiana?" Você faria uma pergunt desse tipo e daria um risadinha ainda. rs.

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