quinta-feira, março 3

Por um punhado de vida (Remix)

O telefone chama, uma, duas, três, várias vezes... Ninguém atende. Secretária eletrônica . Uma voz feminina deixa um recado; “Dani, por que você foi embora cedo ontem? Seu celular está fora de área... Ninguém te vê desde que você deixou a festa correndo. Eu tava de carona contigo.... Por que você faz isso? (choramingos) Eu fico preocupada. Me liga.”
Daniel, RG: 39.400.191-4, acende um cigarro, bebe um gole dum copo de alguma coisa. Não tem mais dinheiro. Não tem ânimo pra ligar pra aquela voz metálica e melosa. Não tem muita coisa.
Imerso nessa pose clichê e melancólica liga a TV. Um desenho pornô. Desses japoneses. Um garota peituda sendo estuprada por cipós com formas de caralho. Um loira de uniforme espacial dando pra um robô enquanto a nave circula saturno. Lembra-se de Goya, Saturno devorando os filhos. Saturno, no caso era o deus, não o planeta. Ou seriam deuses os planetas? Saturno então é um deus esperto, não criou vida, não criou problemas. Saturno devorou sua criação.
Ele precisava devorar suas crias também, não os filhos, mas a vida que criou. Oh, ta melancólico demais, meio louco, não precisa disso.  Levanta. Cansou daquela merda melancólica.
Olha pro lado, vê um chapéu de cowboy, não sabe de onde veio, não sabe quem é o dono, mete o chapéu na cabeça e termina seu cigarro enquanto abre a janela pra ver se já é dia.
O sol está lá. Fazendo que sempre fez. O sol é um deus também?
Hora de comprar pão.


Daniel, CPF: 353.108.420-59, entra na padaria. Um novo cigarro no canto da boca, chapéu na cabeça. Marlboro-man.  Precisa arrumar um cavalo. Pede um leite. Se é pra ser clichê melhor apelar. Depois uísque! Ouviu uma voz: “Dan!? Quê cê faz aqui meu velho? Sumiu ontem. O Pedro disse que você quebrou o nariz dele? O pessoal anda falando que você enlouqueceu.... Porra... Haha.. Não posso mijar um segundo, que você me apronta.” Quem falou foi Marcos, RG: 40.303.322-x, cara egoísta, gordo, ciumento, sente ódio mortal por qualquer um que olhe sua namorada, admira D, a partir de agora só D, admira qualquer um que aja com segurança. Nosso herói o despreza.
Bebeu o leite. Disse que tudo era verdade.
por que?
me deu vontade.
não pode cara 
não? Cansei daquilo. Resolvi vazar. O Pedro queria conversar. Quebrei uma garrafa na cara dele.
Mas o pessoal vai ficar maior puto contigo. A jú ta te procurando adoidada. E esse chapéu? Vou ligar pra ela. 
O caubói saca a arma. Mais rápido que a sinapse do balofo. De onde veio a arma? Como ele sabia que tinha uma?
 Na padaria todos ficam em silêncio olhando uma arma que não sabem ser verdadeira ou não. Testas suando. Com o cigarro no canto da boca o caubói diz faz o antigo amigo pagar a conta e comprar uns maços de cigarro, marlboro vermelho só. Que nem o cara do comercial. Os dois saem. D com a arma colada nas costas do gordinho e enfiando os maços no bolso do jeans.
eu sou seu amigo cara. Só quero te ajudar.
 vai ajudar a sua alma não apodrecer! Me dá sua carteira.
A padaria ainda paralisada.  O gordinho cumprindo as ordens. O caubói põe fogo no RG, no CPF. Deixa a fogueira na calçada. Manda Marcos correr quando está a uma boa distância, 39.400.191.-4 grita: “ Comi sua namorada otário!” Depois vê o, agora, ex-amigo tropeçando rolando rua abaixo. Menos um, pensa.

D, o incendiário de carteiras- talvez viu isso num filme, não sabe-  quando criança brincava de homem da marlboro no braço do sofá. 
D, nascido em quatro de julho de 1989 acha que sua vida é um emaranhado de clichês.
D, fugiu de uma festa ontem e hoje virou caubói, não sabe onde arrumou a arma.

Vai até um parque e fica sentado num balanço. Chapéu abaixado fazendo sombra nos olhos. Ouve as crianças brincando. Ouve os adultos fofocando. Hoje é domingo? Esses caras não trabalham? 
D não trabalhava. Não do jeito comum. Ele trabalhava prum site de desenhos pornôs. Fazia animações dos Simpsons transando, ou os jetsons n suruba, qualquer coisa que um punheteiro tenha visto quando criança Daniel desenhou. Nada daqueles japoneses. Não era seu estilo. Maldita concorrência.
Betty e Vilma se pegando depois o Dino participando. Os Smurffs numa poli-penetration na smurfete. Ele era o responsável por acabar com a infância de alguns. Talvez alguns desses pais, que passeiam com os filhos enquanto fofocam, já tenham visto, talvez sejam grandes fãs de desenhos eróticos. Um tem cara de que adorou ver a Margarida dar pro Pateta. O Pateta era bem dotado. 
Se continuar no ramo estragará a infância do menino que balança ao seu lado.  
Mais cedo ou mais tarde a infância acaba fodida. 
o quê?- pergunta o guri, D pensou alto.
nada.
cê falô palavra feia.
e você é um merdinha. Pra sempre vai ser, até o dia que você desistir.
O garoto abre uma boca do tamanho de uma vala. Que criança covarde. Outras teriam-lhe chutado a canela. Mostrado o dedo proibido. Esse guri loirinho com cara de viado vai chorar pra mãe
MANHÊÊ... O xerife ta falando palavra feia!!!
Daniel ouve uma música de duelo. Esse playground é grande demais pra nós dois. O maldito chamou reforços. Covarde!
O caubói bate em retirada. É preciso saber quando fugir. Talvez voltasse e reconquistasse o parquinho.

D, RG: Inexistente, prefere ser chamado de Will Kid, o gatilho mais rápido do subcontinente.
D, CPF: Perdido, se sente bêbado enquanto corre. Continua de chapéu, mas perdeu sua estrela.

Will Kid entra em casa. Pela TV descobre que são duas horas. Ouve os recados- é fã de secretárias eletrônicas, odeia celulares, talvez seja o único cara de cidade a usar uma- sem interesse. Ju está preocupada. Deve achar que os Índios pegaram sua diligência. 
Mesmo odiando tem um celular que ganhou da namorada,  53 ligações perdidas. Um dia serão achadas. O celular voa pela janela, a secretária em seguida. 
A Ju é um pé no saco. Grudenta, melosa, carente, problemas com pai, fala arrastado, deixa as vogais mais longas do que são e, portanto, qualquer conversa mais longa que deveria ser. ela pensa que Will trabalha em escritório. O antigo Daniel, atual Will, tem milhões de desenhos dela dando para o Picachu, e pros tartarugas ninjas. 
A campainha toca.
Dani!! Dani!... To te vendo... Dani abre amoor.
Will não atende. Ela chama pelo nome errado, Daniel está morto, não tem mais RG.Ele acende um cigarro. Ela ameaça chorar. Ele abre. Ela o abraça.
aiiiii queriido. Achei que você tava doenteee. Que você tem amoooor? Saiu da festaaa Daanii. Você brigoou?
Como ele odeia aquelas vogais alongadas, ela era gostosa, ok. Mas não vale a pena. Não mesmo.
eu não sou o Daniel, sou Will, o gatilho mais rápido do submundo.
por que você não me atendeuu? E esse chapéu? Amooor, você tá beeem?
Will pensa que com um tiro acabava com a namorada. Mas ela pode ter trazido reforços. Ju o beija insistentemente apesar das poucas reações do caubói. Ele senta no sofá e liga a TV. O mesmo pornô japonês. Ela ao seu lado lambe a orelha e diz que está se excitando. Põe a mão no pau dele. Beijinhos no pescoço. O caubói monta o resto da tarde. 

Juliana Gonçalves Speer, RG 35.044.393-2, descendente de alemães nazistas fugidos da guerra. nasceu primeiro em santa Catarina, viveu dois anos na Austrália, perdeu a virgindade prum americano que filmou e pôs num site pornô. Gemia muito. Voltou pro Brasil.
Juliana G. Speer, loira, ariana, se não fosse peloo Gonçalves poderia ser da juventude hitlerista, patricinha histérica. Faz faculdade de alguma coisa que Will não sabe o que é,  acordou no sofá casa vazia. Um bilhete colado na TV, nas pernas de uma estudante que precisa ser disciplinada.

Ju.
Quero que você se foda. Sou um caubói solitário. Você é uma fresca e seu cu muito largo. Minha cabeça está em parafuso. Fugi já que é mais fácil que conversar contigo, choro me incomoda e você chora demais, todos choram demais. Minha cabeça está muito confusa. As idéias vem voando e não sei onde vai dar. Preciso livrar o playground da ditadura do garoto chorão. Preciso de um marlboro vermelho. Se quiser dar pra mim não arraste as vogais. Ou volte a dar pros cangurus surfistas. Ah, comi a namorada do gordinho e quebrei o nariz do Pedro. Você dava pro Pedro também? Foda-se...
Foda-se.
Will the Kid

Desenhado no bilhete um cartum dum canguru nazista metendo no cu da Ju

Juliana G. SS, Conta corrente: 43 4333. 903 Ag: 88, fã de Paris Hilton, Britney e Lady Gaga, neta favorita do vovô - primo distante do “bom nazista”- filha favorita de papai, abandonada pelo namorado “excêntrico”. Chora vendo o anime pornô. Não consegue ficar com raiva. Se sente humilhada, rejeitada, um pouco de orgulho ferido. Confere as mensagens do celular e começa a responder.
Campainha. Fade-out

Will volta ao parque. Se ontem era domingo, hoje é um dia depois Já tinha começado um novo dia?
O garoto chorão não estava lá. O caubói sentou em seu lugar. Acendeu um cigarro. Sorriu pela vitória. Esse playground tem um novo dono. Sua alegria dura pouco. Ouve uma moto parar depois escuta a voz de Pedro.
filho da puta!!

Pedro, Orkut profile: 103705042809336891838, teve o nariz quebrado por uma garrafa que ficou inteira, sofre de gases, torce pra um time do Rio e nunca foi pro Rio, mas usa o sotaque. É um cara sentimental, ou que leva seus sentimentos muito a sério. Tentou ser amigo de Daniel, agora só tem raiva daquele lunático. Pedro não sabe que Daniel está morto. 
Desce da moto. Tem um pedaço de pau não mão. Aonde ele arrumou isso? Avança xingando a mãe do caubói.
A arma sacada paralisa o inimigo. Esse veio sem reforços, um duelo justo. Pedro, com o nariz quebrado se ajoelha. pede por perdão. Não quer morrer. Will the kid pede a chave do cavalo.
 cavalo?
 é cavalo. Você sabe. Ele relincha quando para. Você tava montado nele. 
 a... moto?
Chacoalha a arma.
me dá a porra da rédea!
Entrega. Will pede a carteira.
Mais uma fogueira. Menos uma vida. Pedro não reage, apenas chora e balbucia “não atira...”

Will, o gatilho mais rápido dos subterrâneos, monta no cavalo que finalmente arrumou.
Will, nosso herói, acende um cigarro como o cara do comercial.
Will, a criança, grita que a arma é falsa.
Na verdade não sabe, pode ser de verdade ou ser falsa de verdade. Pelo retrovisor vê outro chorão correndo a trás da moto e tropeçando na guia do parquinho. Pedro peida no chão, talvez se caga.
Will pensa que realmente tem muitas lagrimas rolando por nada.
Cow-boy?
Garoto vaca?
Vaqueiro?
Sabe que tem um cavalo de aço. Galopa pela cidade. Dentro da lei. Não quer cartazes de procurado por aí. 
Tem também um chapéu, uma pistola e umas roupas na mochila. Ele não precisa de mais nada. 

Tinha um bom emprego, fácil e rentável. Pornô sempre faz sucesso. Desenhos também. Os dois então... Conseguiu isso no segundo ano de faculdade, estudava artes, faculdade pública, entrou logo após o colégio, era inteligente e desenhava bem, precisava de dinheiro e conheceu um cara que tinha o site, mas não tinha talento.
 Um dia resolveu largar sua vida, devorar tudo que criou. Estava numa festa. O papo chato, cheio de gente fingindo ser mais do que é. A namorada dando prum cara num banheiro. Um cara escroto, metido a hooligan inglês, umas costeletas enormes na bochecha. Sobrancelhas bem feitas. Cabelo bem cortado. Roupas limpas. 
Um cara durão não usa roupas limpas e o cabelo nunca é bem cortado, ou penteado.
Todos eram assim. Ou metidos a gringos, ou a qualquer outra coisa. Daniel sabia que não se encaixava com eles, que era a piada daquela turma. O namorado esquisito. Daniel tinha que entregar uma animação de dois cowboys gays. Um pornô barra pesada, encomenda de um velho bizarro.
Os caubóis lembraram a infância de Daniel. Na festa resolveu roubar uma garrafa de alguma coisa. Ia embora. Pedro tentou impedir. Não se impede um cara de bode a curtir um bode. Pedro quebrou o nariz. Daniel morreu. Nasceu Will.
Will acelera o cavalo para longe.

O gordo que tocou a campanhia, tem os joelhos ralados. Ju não atende, mas ele entra.
Gordo. RG: Em cinzas. Ciumento, irritante, arrogante. Já chamara Marcos, Hoje não sabe, não tem documentos que comprovem o seu nome Ju olha a cara rechonchuda, sempre foi com a cara dele.“ o Dani enoouqueceuuu” diz chorando. “ E aacho que ta mee deixando louucaa”. Mostra o bilhete pra ele.
Silêncio. Só soluços vão e voltam, como ondas. O gordo lê, está sentado. Na TV uma animação ocidental, personagens do mundo infantil se comem mutuamente. Sooby doo mete na Vilma, Leroy é chupado pela Dafne, o Mickey chupa a Mônica, o Zé colméia caga no Pernalonga. A Betty Boop é fodida por Fred, Speed Racer, Squartle, Bulbassauro e gato Félix. Uma foda de toda infância. Diferentes traços tendo orgasmos em conjunto. 
Isso me deu um tesão da porra.- fala o gordo depois de ler a carta de despedida.
Ju, cai de boca.
Na TV os créditos são: 

“Will, cartoons porn corporation” 
“desenhos de:  Daniel Santos”

A moto o leva até o deserto. Se tornará invencível, se tornará criança. É o que espera Will, the Kid.

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