Um cara e uma garota. Sentados numa sala. Um apartamento no centro talvez. Não dá pra perceber. Estão quietos, cada um assistindo a lenta fumaça de seu próprio cigarro subir ao céu. Ele resolve falar.
- to pensando em comprar um rifle..
- pra que?
- sei lá, sempre bom ter um rifle, não é?
- se você for caçador...
- eu podia ser um caçador, você acha que não?
- você é só um bêbado metido a machão que quer ter uma arma...
- eu podia caçar lá no zoológico
- caçar animal preso?
- não, eu primeiro solto todos, depois caço.
- e aí vão te prender por soltar animais presos.
- mas, vão me prender por matar os animais de qualquer forma né?
- isso é...
...
- sabe você podia fazer igual aquele escritor...
- aquele que atirou na própria cabeça?
- não esse, esse é o que lutava boxe... Tô falando daquele que atirou no Shakespeare.. E na mulher...
- há, nunca li... Mas eu atiro em você ou no Shakespeare?
- não em mim, no copo da minha cabeça... Ele matou ela por que errou...
Ela sai e volta com um copo e uma moeda.
- toma, tenta...
Ele mira. Não pode errar. Ela poderia se machucar. Se ela se machucasse ela saberia que ele a ama. Não pode. Tem que deixar ela sem ferimentos. Pelo menos até conseguir o rifle. Aí o copo explodiria em cima da cabeça dela, uma chuva de caco de vidros cortaria seu rosto. Ele seria considerado a melhor mira da região. Melhor até que aquela mina do oeste americano. Aquela que acertava moedas no alto. Talvez ela fosse meio apache.
- o Shakespeare foi por querer?
- era uma foto, algo do tipo...manda logo...
Se concentra. Olha a moeda. O copo. Vê o copo crescer. Mantém o copo na mira. Com uma boa força, não a maior possível, atira a moeda.
Uma explosão. O copo inteiro em uma cabeça meio estourada. Ela está morta. Que nem a mina do cara que matou o Shakespeare. Morta por uma moeda. Ela agora sabe que era real. Machucou pra valer. Abraça o cadáver. Um rasgo de cofrinho na testa. O cérebro espalhado pela nuca e pela parede. Sangue em todo sofá.
Ele chora.
Devia ter atirado no Shakespeare, ou na própria cabeça. Ou no zoológico.... É, o zoológico era uma boa...
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