terça-feira, abril 26

....

- abaixa essa faca!
Ela grita.
Não abaixo.
Vou matá-la.
Irei matar ela.
- abaixa essa faca!
Eu grito.
Não abaixa.
Vai me matar.
irá matar-me.

Um duelo acontece em cima cama. Tento fazê-la sangrar. Ela tenta arrancar meu olho. Ela linda assim agressiva. Minha vontade é abaixar a faca, que me fure, mas se aproxime. Vem mais perto. Pode furar à vontade. Depois largar minha carcaça. Mas só fica mais perto.
O motivo, é algum. Não sei ao certo. Ela só grita pra que eu abaixe a faca. Eu grito o mesmo. Mas queria perguntar por que? Porque tanto ódio entre nós? Nem sei quem é você.
Ela avança. Eu desvio. Rasgo sua perna. Dói mais em mim que nela. Uma coxa daquelas com uma cicatriz é algo que destrói um cara.

Ouço som de alguém tocando órgão.
O instrumento, não a genitália.
Na verdade é um teclado com efeito.
Tipo aquele do stranglers.
Essa luta está cada vez mais estranha. Ela consegue cortar meu braço. Dói mais em mim que nela. Sinto vontade de chorar.
Pior que uma bela perna com cicatriz é seu braço sangrando. Não sou corajoso. Devia ter abaixado...


Desmaiei.
Acordei com ela limpando meu braço. Costurado de alguma forma. O cara ainda toca órgão. Ela vê que eu acordei e sorri. Ela é linda assim risonha.
Ela fala.
- eu não acho que ele vai parar hoje.
- mas já passou das dez... não é obrigado?
- essa sua casa é meio suja...
- se você quiser varrer...
Ela pega a vassoura e começa a varrer. Não corrijo. Essa não é minha casa. Nem a dela pelo visto. Na verdade não sei bem o que faço aqui. Não lembro como cheguei. Não sei como vou sair. Ela termina de varrer.
Senta na minha frente.
- porque você não abaixou?
- a gente erra às vezes
- eu errei várias...
- você me acertou uma facada...
- eu acerto algumas...
Nós rimos. Pergunto como ficou a perna. Não quero saber como vim parar aqui. Só quero vê-la rindo, irritada também é bonita. Talvez mais. Ela podia se irritar com músico que é vizinho.
Mas nada.
Ela não diz mais nada.
Só me olha.
Olhos verdes capazes de fazer você arrancar todos os dentes da boca usando um martelo.
O som fica só numa nota,
Uma nota capaz de fazer você arrancar as suas bolas com os dentes.

Isso me muda. O olho. A nota. Lembro da dor que ela me causou. A odeio. Nem sei quem ela é.

Meu braço está bem.
Ou só melhor.
Me levanto. Ela me acompanha com os olhos.
Ela pede com os olhos que eu abaixe a faca.
Não abaixo.
 Atravesso sua barriga.
Agora vou atrás do tocador de órgão.
 A mesma nota ainda toca. Vai ser por pouco tempo.

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