Entra esse cara. Carrega uns papéis nos braços e um buquê de cravos. A casa é meio escura e há um barulho de teclas vindo do lugar pra onde esse cara se vira. É uma escritora. Uma grande escritora que mora nos arredores da cidade. Ele a lê desde os quinze. É fâ. “Crescendo no escuro” foi o livro que mudou sua vida. Finalmente a conhecerá. A testa sua.
Só admira mais que ela os papéis que carrega. Dois contos, uma meia dúzia de poemas, e um texto confessional. É, ele se considera um escritor dos bons, e trabalhou muito naqueles textos. Tem certeza que ela vai gostar.
Entra no quarto. Ela mal tira os olhos da tecla e diz:
- você não bateu.
- desculpa...é...é... É que eu... Fui entrando... Não sabia o que fazer.
Ela acende um cigarro. Olha pra ele. Olha pra flores.
- são pra mim? Deixa ali.. - aponta pra uma mesa.
- é.. Sabe sou um grande f.. admirador do seu trabalho.
- então me leia.. E me deixa em paz...
- você não entendeu... Queria que você lesse...
Ele empurra os papéis. Sem vontade ela lê por debaixo dos óculos. Olha pra cara dele. Plano detalhe da mão amassando os papéis.
-isso é um plágio do meu conto “ a cortesã”
Olha mais um.
- esse poema é um lixo.
Outro.
- isso é tão mal escrito, que parece que uma criança recortou palavras de um dicionário e colou.
O último.
- é lixo... Tudo lixo... E você me fez perder tempo....
Ela joga as folhas. O trabalho de uma vida numa lixeira suja e cheia de cinzas de cigarro. O cara se esforça pra não chorar.
- sai daqui.. Me deixa a flor... Continue me lendo...
Quem ela pensa que é? Se pergunta. Nem de longe é parecida com o que escreve. Ela é cruel. Arrogante. Um misto de desapontamento e orgulho ferido tomam conta de seu cérebro. Se aproxima mais da mesa. Pega um peso de papel. Encara a velha. Agora é só uma velha fedendo a gatos. Uma velha maluca e sádica.
- você não reconheceria um bom escritor nem se ele cagasse poemas na sua cabeça.
A velha acende um cigarro.
- essa frase é boa. Se você escrevesse ela já teria uma boa frase.
O peso de papel voa contra o crânio velho. A grande escritora cai desmaiada ou morta no chão. O cara continua golpeando até conseguir ver miolos saindo de dentro do cabelo branco-avermelhado.
Fuma um cigarro enquanto olha pra defunta. Não sabe o que fazer. Sabe que ela não tem parentes. Ninguém que a visite constantemente. Só uns fãs otários, que nem ele. Ou pelo menos é o que tava escrito na orelha de um dos livros, “ A maior porra da sua vida”, R$35,40 na livraria em frente ao ponto de ônibus.
Que fazer?
Um barulho de água fervendo.
Uma idéia amadurecendo.
Um facão cortando a carne de sessenta e poucos anos.
Carne humana fervendo na panela.
O cara jantando o cadáver da grande escritora e guardando o que sobrou na geladeira.
Agora ele tinha um plano. Tomaria a identidade dela. Se transformaria na grande escritora. Como o lobo mau fez com a vovó. Seria ela até o fim da carreira dela. Os outros aplaudiriam.
Diriam que finalmente ela amadureceu. Se tornou uma escritora digna, decente, respeitada. Seria reconhecida por todos, e quando chegasse ao ápice se revelaria a todos e seria aplaudido.
a velha se arrependeria pra sempre.
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