quarta-feira, julho 27

a arte de calar a boca.

-Sou escritor tá ligado?
Ele me diz.
Estamos num bar, um lugar moderno. Não sei o que faço aqui. Não sei o que faço em qualquer lugar.
Ele eu nem sei quem é. Talvez seja só uma alucinação, nem sei a diferença entre minhas alucinações e as pessoas.
De qualquer forma estou nesse sofá e esse cara falando comigo.
- já li o que você escreve, mas sei lá... você lê clarice?
Não respondo. Ou respondo com o silêncio que serve melhor tanto como escudo tanto como ofensa.
- você podia explorar mais seus sentimentos. Tentar chocar menos. Ser meio Rimbaud. Pelo menos eu sou assim.
Escolho o silêncio como melhor resposta, de novo.
- você também usa muito ponto final. Pouca maiúscula. É como se você escrevesse bêbado.
Continuo quieto, mas reparo que ele usa uma jaqueta de couro. Boa sacada. Se eu fosse escritor usaria também. E seguiria os conselhos dele. É bacana ser um escritor de jaqueta de couro, vira  quase um rockstar.
- também você tem muito rancor, isso pode ofender alguém.
Resolvo falar, mas perco a vontade ao perceber que ele usa chapéu.
- faço haicais e sonetos também. Vi uns poemas seus, meio engraçados, meio tristes, você exagera nos dois.
O cara é uma garota agora. O que às vezes acontece quando se usa lsd nos anos dois mil, ou quando se vai num pico estranho.
- sabe, você é meio metido a machista, mas nem é nenhum bukowski. Você não é doce, é pagação. Sei lá porque continua.
É preciso de silêncio. Sou verborrágico demais às vezes, mas hoje percebi que o silêncio me salvaria.
Me mando de lá.
Não preciso de conselhos, eu sei que nunca escrevi nenhuma linha, eu sei que nenhuma palavra criticada foi minha. Sei que eles não iam entender, por isso nem fiz nada. Escolhi ficar quieto.  Escolhi me abster.  Pelo menos essa noite. Afinal, a pior conversa é aquela em que um cara começa com:
- sou escritor.
Depois disso, só ofereço o silêncio.

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