quarta-feira, agosto 17

Aquilo que acontece quando você olha direito.


Não está mais tudo do mesmo jeito. Nada continua o mesmo.
Atravessa a rua. Não olha pros dois lados, o nariz sangra. Tem algo de errado no mundo, algo inexplicável.
Senta. É algum tipo de boteco, daqueles que tem velhos o tempo inteiro, na esquina de um bairro pequeno.
O nariz ainda sangra.
- quer papel?
A garota, possivelmente a garçonete, ou algo próximo a isso. Ela viu a hemorragia e resolveu mostrar preocupação. Tem algo errado com ela, algo indizível.
No bar tem caras estranhamente vestidos, como se fossem personagens de uma sessão da tarde infantil. Figurantes de novela tosca.
Ele só faz que não com a cabeça e usa o dedo pra esconder o sangue.
- cerveja?
Sempre prestativa, como se realmente quisesse trabalhar numa quarta à tarde.
Isso era estranhamente incomum.
Ele resolveu aceitar pra ser deixado em paz.
O sangue escorria pelos dedos, tinha algo de estranho nesse sangramento.  Já é estranho um boteco ter garçonete, ainda mais bonita. Tudo aquilo só piorava a situação. E aqueles figurantes mal vestidos fumando cigarros e comentando sobre carros.
As conversas pareciam elaboradas demais para serem reais.
Os gestos muito pensados..
Chega a cerveja. O copo cheio. Como um comercial de TV. Nada de cerveja choca, ou quente, no ponto.
Ele bebe um gole pra mostrar pra garçonete que realmente queria, quando põe o copo de volta na mesa percebe que a cerveja já esta vermelha.
O sangue é vermelho demais pra ser real.

Um velho puxa a cadeira e se senta.
- você entendeu?
- sim...
- é esquisito no começo... mas depois você se acostuma... é só não chamar atenção demais...
- você também sabe?  E os outros?
- só eu pelo que eu saiba... aconteceu o mesmo com o meu nariz sabe... faz tempo... quis mostrar pros outros, mas isso só aumentava o sangue... só sangra quando você percebe...
- então é isso? Só sobreviver?
- é... e sabendo disso você é um pouco melhor que a maioria...
- e não tem pílula azul? Poder de voar? Perigo eminente?
- eu sei lá! Se tem não me contaram... fiz o que foi melhor... quando os figurantes falam comigo finjo que estou na história... não posso falar muito... só quando encontro alguém com o nariz assim...
-já encontrou outros?
- você é o primeiro...

O velho já tinha saído. o cara do nariz está olhando pro sangue do copo. Fingir ser figurante também, não devia ser a única opção. Coisa estúpida.
Ele olha diretamente pra câmera e diz:
Eu sei que você está aí.
A cabeça explode  como uma cena de filme B. e ninguém entende nada.  E ninguém comenta nada, só um cara percebe uma pequena hemorragia no nariz.

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