-Imagina se você tá cagando na hora que explode uma bomba atômica. Na sua cidade, só que meio longe, pra que fique sua sombra. Que nem aquele cara do trem em Hiroshima. Você lá, sentado pra sempre, com a mão enfiada no cu. O mundo inteiro olhando depois. Tentando entender o que você estava fazendo. Porque você estava fazendo. As pessoas sempre buscam explicações.
Até mesmo pros próprios atos.
Por isso cartas de suicídio. Ninguém aceita se matar sem dar explicações.
Ninguém quer aceitar o acaso.
É isso que ele diz com uma arma aponta uma arma pro cara chorando.
A cena: um cara de firma, desses que tomam chope, veem futebol e falam no Nextel, ajoelhado com uma arma apontada na cabeça. O cara que aponta a arma não está com as roupas combinando, não está com o cabelo bem cortado.
- você me entende?
- não sei... diz o chorão.
- é simples, as coisas acontecem, e a humanidade não está pronta pra isso, por isso causa e efeito, explicações, inconsciente coletivo, freud.... sabe esse papo todo? Destino? Horóscopo? Deus? Ninguém consegue aceitar que as coisas simplesmente acontecem.
- mas porque eu?
- por nada... é isso que tô te dizendo caralho!... você tá meio distraído né? Bom... de qualquer forma daqui a pouco você não vai se importar... só as outras pessoas vão.. elas vão olhar seu cérebro sujando o caminho e vão se perguntar, “porque?” e elas não vão ter respostas.
A arma é engatilhada. Tudo está pronto pro ato final o cara da firma não chora mais. O cara da arma ainda aponta. O cara da firma tem uma iluminação. Uma última chance, precisa perguntar.
- então por que você se explicou?
- é que eu também sou humano.
Um sorriso. Dois olhos arregalados. Um tiro. Um corpo. Algumas perguntas sem resposta.
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