quinta-feira, outubro 20

Smell like teen spirit

- você sente esse cheiro? De podre? De velho? Vem de você?
- AH, cheira nada. Você inventa essas coisa pra me enrolar, menino.
- é sério. Tá meio insuportável- cheira o velho, pelado, deitado, safado.- se pá nem é você.
- deve ser o lençol, ou alguma coisa lá fora.
O velho está nervoso, moleque de catorze anos é muito abusado, melhor um mais novo, doze anos, sardas, cabelinho nos olhos. Esse serve, se virar o cu e parar de falar.
- se for o lençol sua porra apodreceu.
O menino senta na beirada da cama, longe do velho, na verdade não queria trabalhar hoje, mas pagando bem...
- minha porra tá bem, vaza daqui se não for dar, manda seu irmão mais novo vir aqui.
-não vazo sem dinheiro.
- então cala a boca com o meu caralho.
- nem chupo até descobrir de onde vem o cheiro.
Os dois incomodados, um com o cheiro, outro com a demora. Farejando o ar, tentando encontrar o que fazia feder tão podre, o que atrapalhava aquele menino de cumprir o trabalho.
- sinto nada.
-porra, tá calor, vou abrir a janela, aí você enfia.
Abre ela, o fedor aumenta, um golpe só. O quintal é cheio de cadáveres.
- melhor?
- CARALHO (vomita) PORRA (vomita) tá... (DESMAIA)
O corpinho caído, o velho sorrindo, michê abusado, clichê e viado. O velho enfia, enfia no corpo desmaiado, depois vai matar. Costume, força do hábito. Mata enforcado, com as mãos enrugadas. Quebra o pescoço menor de idade.
O foda é que o quintal fede. Fede a podre. Fede a velho. Fede a fedelho morto. Quintal-cemitério, do velho devorador de criancinhas, futura lenda do bairro. História de dar medo. Cantiga de ninar.
Por enquanto pra evitar o cheiro, só comprar “bom ar”

Um comentário: