sexta-feira, janeiro 20

nada demais.

Voz em off: eu não tenho história nenhuma pra contar. Sou só mais um cara. Um cara, caralho! Um cara-caralho sem história nenhuma. Não é que eu não esteja vivo, é só que não tem nada de interessante de verdade em mim.  Então nem sei porque você tá escutando.
Bom, nasci da puta-que-me -pariu para o mundo em um dia qualquer... e parece que não chovia mas fazia frio.
Como disse, nada demais, mas o suficiente prum cara se orgulhar. Ter nascido.
Depois que você nasce você precisa chorar, então eu chorei. Chorei até ter poder pra gritar, chorei até poder gritar MERDA! PORRA! FILHO DAPUTA! E coisas assim. Aí consegui fazer os outros chorarem
Na cena uma criança corre por um parque, acende um cigarro, da uns tapas na cabeça do amigo. Filme antigo, talvez super8, ou vhs mesmo.
Um homem e uma mulher na cama, um olha pro outro
Ela: e pra onde você vai agora?
- pro inferno, provavelmente.
- sei... você tem coragem mesmo?
- é a única chance...
Ela acende um cigarro e solta uma lágrima pelo olho esquerdo. Limpa com a palma da mão.
- e se você não chegar até lá?
- tanto faz... ninguém vai sentir falta...
- eu vou...
- você é ninguém.
Voz em off (masculina):
Eu queria mudar meu nome. Ele nunca foi muito sonoro. Ziiip. Ou algo do tipo. Algo que um protagonista da sessão da tarde usasse. Mas não, tenho um nome não sonoro porque sou um cara-caralho-comum, por isso não consegui nada na vida, mesmo depois de aprender a xingar e fazer os outros chorarem.
O cara de antes anda na rua fumando um cigarro de terno e óculos escuros. A rua é daquelas do centro, com loja de um-nove-nove, churros num canto, casquinha em outro, gente passando e fazendo o sinal-da-cruz, gente passando e querendo brigar.
- ei
Diz a velha
- você não é o filho dela?
A velha assustada, tem os olhos arregalados, é como se a cada segundo o medo aumentasse.
- não. eu sou o filho de todos.
- você acredita em deus?
- eu to bem perto de descobrir.
A velha faz o sinal da cruz.
-ela era bruxa! Vampira!
Ele desce, não se importa. Acostumou.
Voz em off?
Meu lance era ser rockstar ter menina pagando peitinho. Gente histérica. Autógrafo.  Mas porra! é  brasil século vinte e um e meio. Não tenho como ser mau e famoso no país do futebol. Então escolhi ser ninguém.
Volta a cena, garota chorando. Voz dele diz: você é ninguém.
Ele anda pela rua. A velha ainda está ajoelhada com um terço na mão.
Reza.
Ele acende mais um cigarro. Tem que chegar no inferno (essa é a voz do narrador, não confunda com a voz em off). Tem um puta caminho pela frente.
Senta no ponto de ônibus.
Alguém se afasta. Fumaça incomoda.
Ele não se importa.
Tem uma criança brincando com alguma coisa na rua. Tem um cara coçando o saco. Tem um monte de coisa acontecendo. Tem donas de casa sendo assassinadas, gente bem vestida roubando dinheiro, tem empresas falindo, tem gente sendo destruída o tempo inteiro. Mas nem dá pra mostrar tudo o busão chegou. Ele escolhe deixar a metade não fumada do cigarro no chão
De vez em quando é bom fazer alguém pensar que tem sorte.
Off: pra ir pro inferno é preciso passar por vários lugares, ter um poeta de guia, ou simplesmente prestar atenção suficiente ao redor. É só olhar pro lado. O inferno tá aqui.
Mas foda-se. Eu menti pra ela. E menti pra vocês, não desisti de ser rockstar, to aqui treinando a pose, vê a mão segurando o óculos? A cara apoiada na janela? quero que as pessoas me vejam e entendam pra que eu vim.
(desconhecido, veste roupas desconhecidas idade: desconhecida ) : por que esse mau humor?
Ziip: eu tô bem cara... ou não te interessa...
O estranho dá um soco na cara de ziip.
Tudo bem.
Ele está acostumado.
Voz em off feminina: não que eu goste dele de verdade, ele não tem nada de especial, é um cara comum. Mas sei lá, a companhia é o que eu gosto. Ele me faz bem até um certo ponto. Não sei porque tá afim de fugir.
Tem polaroids espalhadas pelo chão. A menina-ninguém mexe nelas. Ninguém conhecido nas fotos.
Ziip, rockstar, assassino de aluguel, ninguém em especial, ninguém é especial.
Ele desceu do busão e olha pra cima. Não chove. O estranho conseguiu quebrar os óculos escuros. O estranho não apanhou mas foi expulso do ônibus.
Voz em off masculina: tá na hora de dar um fim nisso. Não que eu não aguente mais, só tô meio cansado. Talvez dormir ajude, mas já cansei de dormir também.
O cenário é um bairro periférico, daqueles com praças e postos de saúde. Os dois com cara de empoeirados.  Uma criança corre pela rua.
Voz em off feminina: eu sei que sou ninguém, só não queria ouvir isso dele.
Voz em off masculina: eu nasci da puta que me pariu pra ser ninguém, eu nasci pra ser um cara-caralho, mas cansei de usar o pau.
Voz em off infantil (sem sexo definido): a intenção é acabar a história por mais que ela possa render, a gente só tá de saco cheio.
Ziip acende um cigarro, óculos escuros quebrados, terno empoeirado, ele está no meio da rua de braços abertos, não tem certeza se existiu, mas tem certeza que não vai ter essa chance, a criança parou e fez uma arma com os dedos.
Som de tiro com a boca.
Buracos ensanguentados no terno.
Não tem nada de especial nisso. É só um caminho novo pro inferno.

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