quinta-feira, julho 19

relatório #1


destruído pela limpeza
com sua boneca estripada,
contempla o chão. sente o gosto de merda. de merda.
"você vai morrer em breve" está escrito no horóscopo. ninguém dizia nada a respeito. e ele estava lá. limpo e destruido. dor interna sem emoção. contemplando o horóscopo do dia.
gosto de merda, dor interna, previsão certa.

-não tem muita coisa no mundo não é mesmo?
-não, não tem, e o que tem é bem chato.
-que a gente pode fazer então?
-que tal se fossemos pescar que nem quando você era pequeno?
-a gente nunca pescou e eu ainda sou pequeno.
-eu sei,
-o relatório médico, você leu?
-de trás pra fente.
-era bonito né? o que dizia.
-eu pensei em fazer um poema com ele.
-que nem quando eu era pequeno e você fazia relatórios com meus poemas médicos?
-sim, mas você ainda é pequeno e vai ser pra sempre, porque seu tumor furou seu intestino.

-é uma merda né?
-das grandes.
merda interna certa. merda mata. internado. e limpo.
-foi a mangueira na verdade... eu te disse né?
-sim... foi a mangueira... não foi você....
-quer que conte uma história?
-não
olha para o canto onde está o jornal. ele olha mas não vê nada.

-é chato né?
-ter que morrer?
-é...
-e ficar vivo também...
-é...

a boneca estripada não pensa em nada e não está morta porque não estava viva. e a boneca não tem nada, ela é saudável. ela já teve alta e não vai crescer.

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