quarta-feira, dezembro 12


"belo poema em prosa, uma pena não ter entregado o trabalho que realmente valia sua nota"



“O  INFERNO É O PÃO DE CADA DIA”
Diz o outdoor, em cima da frase crianças sorridentes e multiétnicas.
O carro acelera.
A música aumenta.
Buddy holly canta pela quinta ou sexta vez a mesma frase.
Everyday it's a-gettin' closer
Goin' faster than a roller coaster
- Ele morreu aos 23. VINTE E TRÊS. Sabe o que dizem né? Sobre gente com talento que morre cedo. Vendeu a alma. Mas com buddy a parada é diferente. Ele  era um profeta. A PORRA DUM PROFETA!
O cara diz isso enquanto acelera. Diz pra si mesmo já que a garota no banco do carona só consegue escutar o próprio choro e a voz de buddy holly cantando.
- ele tá prevendo o próprio fim e o do mundo. O fim de tudo sacou?
O cara está armado e agita a cada palavra.
Ela em posição fetal não usa cinto de segurança.
Buddy holly no repeat geme: he-ei-hey
-          Canta!
O choro diminui e com os olhos ela pergunta o que?
Repeat:
- canta!
O choro acaba. Mas ela se mantem em silêncio.
Freia.
A garota bate a cabeça no porta-luvas, rasga a testa, ele encosta a arma no corte recém-nascido.
- CANTA!
Sem saber a letra ela canta. Inventa palavras para impedir o tiro. Inventa uma língua para enganar a morte.
O carro volta a correr.
 “O INFERNO É CONTINUAR EM PÉ”
Diz um novo outdoor, enquanto um papai-noel bebe uma coca-cola.
- as coisas ficam cada vez mais estranhas quanto mais você conhece. E o  ponto limite. Aquele que te faz querer explodir tudo é saber o que vai acontecer. Ninguém consegue viver normalmente sabendo o que vai acontecer. Por isso caras saem por aí atirando nas pessoas. Por que são caras que viram um pedaço, ou tudo do futuro. Esses caras são heróis. Você tem que fazer as visões acabarem de alguma forma.
Everdei itzza guerin fést
- você já entrou naquela paranoia de ver mensagens satânicas em tudo? É tipo assim. Só que pior. De rótulo de maionese à documentário da Discovery. Tudo aquilo tem uma mensagem que te faria dar um tiro na cabeça sem pensar. E aí você tem que escolher: ou você enlouqueceu ou foi o mundo. E eu não vou aceitar essa culpa. ENTENDEU? Não vou.
Fora de ritmo e gritando ela ainda canta. Cada fim de música revela o mesmo começo. Um cachorro correndo atrás do rabo. Uma cobra se devorando. Um símbolo de infinito.
Uma luz vermelha avisa que a gasolina está acabando.
No outdoor o bambi atira no hortelino troca-letras.
“O INFERNO É QUANDO NADA E TUDO É COMO O ESPERADO”
O cara fuma o último cigarro e pensa em fuzilamentos e campos de concentração.
A garota soluça e canta.
- se ver um posto avisa.
Cigarro pela metade.
Love like yours will surely come my way.
-Ali.- essa é a primeira palavra não inventada que ela usa.
Posto amarelo. Um defeito no letreiro forma um trocadilho infantil.
HELL
- de filme da Disney a logomarcas. Tudo isso te enlouquece.
Ele sai do carro. Atira a bituca acesa perto da bomba de gasolina e nada explode.
-pode fugir se quiser. Mas acho que sou sua melhor opção.
Ela está sentada agora. Olha para frente e acerta todas palavras. Não há lágrimas, não há soluço, só a música perfeitamente executada, seguindo o próprio rabo, com o mesmo começo depois do mesmo fim.
O outdoor em frente é preto com letras em vermelho, parece um anúncio de filme b.
“O INFERNO É AQUI E AGORA”
O cara aparece com um frentista que é a cara do buddy holly e um maço novo, marca: inferno.
- seiscentos e sessenta e seis quilômetros, você não acha que já rodou demais?
-enche o tanque...
Ela canta com mais volume que a música. Se não fosse pelo instrumental introdutório, pareceria à capela.
- você me parece muito assustado para um cara que tem uma arma.
- você muito pouco pra alguém que não tem.
-eu tenho uma coisa melhor.
- enche o tanque e não o saco.
O cara acende o primeiro cigarro do maço novo. A primeira tragada sempre o faz pensar em execuções. No fundo, todo cigarro é o último.
- eu posso te dar toda gasolina do posto que não vai mudar nada. você não tem pra onde ir e nem como escapar, você só vai ficar voltando aqui pra continuar seguindo pela mesma estrada, os mesmo 666km eternos.
Nas lentes do grosso óculos do buddy holly o car vê seu rosto se desfazer. Entrando em decomposição aceleradamente até sobrar apenas o crânio branco.
-é um circulo, e você está preso nele.
Every day, it’s a getting closer...
Em círculo como uma música no repeat. Um cachorro comendo o próprio rabo.
- você achou que tinha entendido tudo né? Que era melhor que os outros. Que um garota e um carro podiam te salvar né? Na verdade você não viu nem metade. Eu te dei uma gota da realidade e você quase se cagou.
Buddy-frentista gargalha.
O cara encara a arma. Está apavorado pra alguém armado.
A garota silencia enquanto a mesma faixa se transfere.
A brasa queima os dedos e caem numa poça de gasolina.
Enquanto o fogo começa um tiro na cabeça dela.
Enquanto buddy se diverte um tiro na própria cabeça.
Tudo acontece como o previsto.
....
....
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“O INFERNO É O PÃO DE CADA DIA”
Diz o outdoor, em cima da frase crianças sorridentes e multiétnicas.
O carro acelera.
A música aumenta.
Buddy holly canta pela quinta ou sexta vez a mesma frase.
Everyday it's a-gettin' closer
Goin' faster than a roller coaster….

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