quinta-feira, maio 23

TODAS AS VISITAS AO PLANETA TERRA SÃO DECEPCIONANTES


(é uma peça, feita para ser interpretada com dois atores ou mais. o cenário deve ser composto por uma cadeira de rodinhas e giratória e uma cama de casal com manchas de suor onde cada um deita. as cenas ocorrem intercalando-se entre essas duas partes, a escolha deve ser do diretor, que também decide (trabalhando junto com os atores) como preencher os espaços em brancos [ ] com grunhidos ou ações, ou ainda gestos obscenos e gratuitos. a platéia não deve se envolvida em nenhuma circunstância. os personagens nunca devem ter os nomes ditos em voz alta. e de preferência as alterações no enredo devem ser nulas)


1.
A- você ta morto pra mim.
D- impossível.
A- porque?
D- porque se eu tivesse morto pra você, você ficaria falando de como eu era uma boa pessoa, perdoaria meus erros, e talvez até chorasse porque você ia ter a certeza de que nunca mais ia me ver, e ia refletir sobre a sua própria mortalidade, talvez se encontrasse espiritualmente, tivesse visões comigo, essas merdas todas que as pessoas fazem.
A- ...
D- viu, eu não to morto pra você.porque você me odeia, e ninguém odeia os mortos.
A- mas que merda, então você ta vivo pra mim, mas um vivo que eu quero distância.
D- isso eu sei por isso to empacotando as coisas.
A- empacotando? quem empacota alguma coisa?
D- chama isso de como quiser, eu só vim pegar o que é meu.
A- e se eu não quiser te dar.
D- daí você vai criar um laço desnecessário entre a gente, eu vou ter que te ver para pedir minhas coisas de volta e você vai ter que olhar pra elas e lembrar de mim, essa porra toda.
A- eu posso jogar fora, por fogo, dar pro mendigo.
D- ou você pode me devolver porque é meu e todo mundo fica feliz.
A- eu não fico feliz.
D- você nunca vai ser feliz.
W- ninguém nunca vai, ninguém quer.
A- como ninguém quer?
D- sem querer, a gente acaba fugindo disso, porque intistivamente sabemos que a felicidade é estupidez e sem graça.
W- você devia procurar ajuda.
A- ele procura, vai no terapeuta duas vezes por semana né?
D-
A- às vezes ele finge que gosta de parecer louco e coisa e tal, mas é só fingimento, uma tentativa desesperada de achar o lugar no mundo.
W- e aí ele se gruda nessas coisinhas como falar demais, querer pegar as coisas de volta, objeto, objeto, objeto, no fundo você é que nem um psicopata dono de banco que só quer ter ter e ter.
D-
D- acho que eu volto mais tarde.
A- nem volta.
D- eu preciso das minhas coisas.
F- e vocês ficam mudando de assunto só pra deixar ele perdido, vocês sabem que ele não consegue acompanhar muito barulho ao mesmo tempo sem ter uma crise nervosa. é sádico da parte de vocês.
W- se ele não aguenta muito barulho devia não ter vindo pro mundo.
A- ou se matado.
D- se eu me matasse você ia ter uma desculpa pra ficar chorando, e me perdoar. eu não quero isso. prefiro ficar vivo e odiado. e fodasse minhas coisas. da pro mendigo. da pra ele.
F- vou te levar pra casa.




2.
T- você chegou cedo.
D- é que não queria ficar em casa.
T- porque?
D- quando eu fico por lá eu sinto que eu tenho que fazer alguma coisa, mas não consigo fazer nada porque ninguém ta me vendo então sinto que eu sou livre pra fazer  o que eu quiser, que é nada, mas daí, por algum motivo, sinto que estou enganando a mim mesmo e que eu devia fazer alguma coisa.
T- e aí que você faz?
D- venho pra cá.
T-
T- aqui você se sente melhor que em casa?
D-
D- não. não é isso
D- é mais que..
T-
D- é mais que aqui eu posso fingir que to fazendo alguma coisa.
T- fingir? pra quem?
D-
D- pra mim eu acho... pros outros...
T- pra você ou pros outros?
D- pros dois, eu acho. pra mim porque é pros outros por tabela, porque eu me prendo a essa ideia de que os outros me acham meio inútil. tipo, como se eu não fizesse nada pra eles, e por isso eles me rejeitassem da sociedade. algo como ser... um aleijado? um tipo de cara que vive da carência deles.
T
T-
T- e você se vê assim?
D- foi o que eu disse né? você por exemplo. você fala com as pessoas, bota as emoções delas em uma planilha, diagnostíca alguma desordem psicológica ali, um distúrbio emocional aqui, aí você fala um pouco mais, receita um ou outro remédio. as pessoas ficam bem e aí você fica realizado, todo mundo cumpre seu papel na sociedade e fica tudo bem. TUDO. e aí, eu vejo vocês, e eu me vejo, e vejo vocês me vendo, e percebo que eu to fora desse jogo, porque eu não sou capaz de fazer nada.
T-
T- e que você acha que você pode começar a fazer para "entrar nesse jogo"?
D-
D- eu acredito que nada... porque também não gosto dos jogadores...
T- da humanidade você diz?
D- é... acho que é isso... não as pessoas... mas o contexto geral do jogo...
T- você diz que quem aceita isso é meio merda?
D- eu não disse isso.
T- você insinuou. você insinuou que eu sou um deles, e que sou meio merda, e que meu trabalho não é nada demais a não ser fazer outros jogadores continuarem jogando um jogo de merda, que eu só anestesio eles pra que eles não percebam. e que por algum caralho de motivo você tem uma percepção mais elevada que a de todo mundo e por isso você não ta afim de jogar?
D-
T-
D- porra, não sei.
T- você é um cusão, um babaca. é só isso.você não quer jogar porque tem medo de perder.
D- não precisa chorar.
T-
D- quer um abraço?
T-


3.
E- eu não acho que alguém consiga fazer isso. mesmo tendo visto o vídeo.
I- eu não acho que você devia duvidar do talento das pessoas.
G- eu não acho que eu sou um estuprador em potencial, mesmo sendo homem.
F- vocês vão todos por aí?
I- pra onde mais alguém podia ir?
G- eu não tenho pra onde ir.
I- você tem alguma opção?
F- eu acho que vocês só deviam ficar. eu gosto de vocês.
E- a gente não gosta dele. ele não é normal.
G- eu não sou normal, mas ele me enche de medo e de dúvidas.
I- ninguém gosta desse tipo de cara, que fala demais, e vive dentro de si mesmo.
F- eu gosto.
E- não gosta.
I- ninguém gosta.
G- nem eu gosto.
F-
F- tá, mas eu amo. e todo mundo ama esse tipo de cara que vive dentro de si, ainda mais quando é bonito.
E- ele não é bonito.
I- ele é estranho.
G- ele é louco.
I- só mais meia hora.
F-
D- às vezes eu acho que eu vivi alguma coisa. e eu tenho toda a lembrança construída pra mim. e eu lembro das sensações, das roupas que eu tava usando, e de tudo, mas aí eu percebo que meu rosto não era meu, é do macaulay culkin e que todo mundo tem voz na versão hebert richards, e aí eu percebo que eu não vivi aquilo. não pessoalmente, mas vivi via tv. só que aquilo é real, e eu era o macaulay, que aquilo não era entretenimento, era minha vida mesmo. e aí que parte de mim que sobra?
E- ele ta falando sozinho?
D- quem sou eu?
G- você ainda é puta?
E- você vai viver com esse cara?
D- que parte de mim é real?
F- você tem que julgar tanto?
I- quem te contou sobre eu ser puta?
D- eu começo quando a TV desliga ou quando ela liga? qual parte de mim é mais real?
I- que merda. como você sabe?
E- ele não vai te fazer bem.
F- quem vai?
G- eu topo te dar um dinheiro.
D- eu não tenho como saber. por isso nunca desligo a tv. tenho medo de deixar de existir.
E- porra, saí dessa.
I- quanto? quanto você me dá pra eu te chupar?
F- eu contei, mas todo mundo sabia.
E- ele vai te foder.
G- cem reais, se eu comer seu cu.
D- eu quero existir pra sempre.
I- você é um merda.
E- sai dessa loucura.
F- deixa minha vida em paz.
D- às vezes eu acho que eu sou um personagem de desenho que escapou da tv.
E- você chamou por companhia.
G- 200 se você fizer aquilo do video.
D- isso explicaria um monte de coisa.
I- vamo embora. mas é a última vez que você vai me ver na vida.
D- tipo, isso aqui não tem como ser meu lugar. ou sou um desenho, ou uns aliens me esqueceram aqui.
G- eu nunca gostei de falar com você mesmo.
E- eu vou com eles.
F-
D- é impossível eu ser humano.
F-
D-
F-
D- desculpa.
F-



4.
W- você ta se sentindo bem?
F- você tem fogo?
W- aqui
F-
W- e aí, como você ta?
F- sabe que é a primeira vez que me perguntam isso desde.
W- e justamente eu né.
F- é uma puta loucura isso tudo.
W-
F- tipo. não que eu não queira estar nessa loucura. eu acho que gosto muito disso. mas às vezes me assusta. me assusta mais por gostar de estar por perto, de ver o que vai acontecer a seguir. é como se eu tivesse assistindo ao datena e ele mostrasse imagens de mim morta e eu não conseguisse mudar de canal. uma fascinação desse tipo. e me faz bem. de um modo geral.
W- mas é foda né.
F- você ta tentando comigo o mesmo que fez com ela?
W- eu não to tentando nada. eu só to nessa porra toda, sem querer e vocês ainda querem apontar dedo. como se isso fosse uma disputa.
F-
W-
F- vou só pegar as coisas e ir.
W- fodasse.


5.
D- então é meio-dia. faltam só doze horas pra ser um novo dia. e é hoje faz doze horas. e é tudo simétrico. mas é tudo falso. então, porque você não para de raspar embaixo do braço? eu gosto de pelos lá.
F-
D- sério. acho mais feminino que essa coisa raspada. meio ninfeta, meio barba por fazer.
F- você é um psicopata.
D- e você uma moralista.
F- que você tem a ver com meu braço?
D- tudo. eu amo seu braço. eu quero ele pra mim. eu quero tirar ele de você
F- para com essa porra.
D- (parado)
F- você ta falando agora como se fosse um defensor da natureza humana. mas tudo em você é falso. é como se você emulasse um comportamento. imitasse um personagem ali outro ali e ficasse escondendo quem você é de verdade. qual sua verdadeira natureza. é como se eu nunca soubesse o que esperar de você. e sim, parece ótimo, quando se é entretenimento, mas eu to tentando fazer essa porra ficar real. eu to tentando te conhecer. então para. para.
D-
F-
D- é que
F-
D- é que
F-
D- eu não lembro quem sou eu.
F-
D-
F- vai se foder.
D- eu já to. to fodido pra caralho. mas vou deixar de ser quando mudar de personagem. meu próximo vai ser um cara rico, um cara foda, um babaca feliz. uma porra dessas. daí vou ser fodido. vou ser fodedor. vou foder buceta com mais pelo que essa porra toda raspada que você tem.
F- você é um cusão.
D- foi o diagnóstico do terapeuta.
F- para.
D- eu não consigo.
F- vai embora.
D- eu não quero.
F- então eu vou.
D- eu não me importo.
F-
D- e agora é meio dia e meia, não é simétrico. mas parece. só seria meio dia e meia de verdade se o dia tivesse 25 horas. e ninguém pensa nisso. ninguém sabe do que ta falando a maior parte do tempo quando respondem aquela pergunta: que horas são? que dia é hoje? quem é você? qual o seu nome? quem são seus pais? quantos anos você tem? pra quem é esse presente? qual o sentido da vida? porque você ta fedendo tanto? isso é sangue na sua jaqueta?


6.
E- hey, pixies.
I- eu não gosto de pixies.
F- todo mundo gosta de pixies.
I- eu acho uma merda.
E- ela não gosta porque o vocalista é gordinho.
I- não. não é por isso. eu só acho uma merda mesmo.
F- você não devia ser tão lipofóbica.
E- isso existe?
I- eu não sou isso.
F- você não é nada.
I- eu sou puta, e você é o que?
F-
F- eu sou idiota pra caralho.
I-
E- eu sou fã de pixies mesmo ele sendo gordinho.
I-
I- você já ta pegando o jeito dele.
F-
F- foi mal.
E- parece que se espalha né. ele trás a loucura como se fosse um vírus.
F- não..
I- é sim... quando eu to perto dele eu começo a sentir umas coisas estranhas, vontade de pular da janela, quebrar espelho, vomitar sangue, brigar com gente.
E- isso. naquela festa eu quase enfiei uma faca no cachorro, e quando percebi eu senti isso porque uma frase dele ficou repetindo na minha cabeça.
F- não..
I- sim. aquelas frases que ele diz olhando pro nada, mas sabendo que a gente ta ouvindo, e mesmo que a gente tente fugir entra na cabeça.
E- era algo sobre ele ter visto um cara se alimentar de si mesmo. começando pelo pé. e ele ficou só assistindo. daí ele virou pra mim e disse: você faria o que? o que a gente pode fazer por esse mundo que ta se devorando vivo.
I- e aí veem aquela vontade de destruir. destruir qualquer coisa.
F- não...
I- você ta em negação.
F- não...
E- eu acho que eu não gosto de pixies na verdade.
I- viu. é uma merda.
F-
E- e você?
F-


7-
T- para com essa cadeira.
D-
T- para.
D- eu tenho ouvido bastante isso.
T- da menina que você ta morando?
D- de todo mundo. todo mundo quer que eu pare. eu sei disso. eu preciso parar. é só parede ou poste que vem a seguir. mas no fundo to cagando pra isso e não vou parar. vou continuar correndo pra ouvir os gritos de desespero. sabe aqueles? quando o carrinho de bebê atravessa uma avenida movimentada?
T-
T- você acha que essa é uma boa escolha?
D-
D- qual escolha é?
T-
D- parar ia ser uma merda.
T- para com essa cadeira.
D-
T- por favor.
D-
T- eu não vou ser sua parede.
D-
T- para!
D-
T- PARA!
T-
D-
D- você é um cusão também.
T- vai a merda.
D- vou mas vou levar todo mundo junto.
T- frase de babaca. pretensioso. você acha que é muita coisa, mas é só um moleque metido a mau.
D- porra.
T-
D- você devia me ajudar.
T- você devia sair daqui.
D- você vai chorar de novo?
T- vai a merda.
D- você chora muito. quem fodeu você?
T-


8.
G- e ela nunca mais falou comigo mesmo.
D- ela é puta.
G- ela é minha.
D- você é pobre. ela é cara.
G- você tem algum dinheiro?
D- a gente não é amigo.
G- você tem algum amigo?
D- pra que? eu já gasto dinheiro suficiente com o terapeuta.
G- às vezes eu tenho a impressão de que todo mundo vai no terapeuta pelo menos uma vez por mês.
D- você ta certo.
G-
D- é bom?
G- o que?
D- estar certo, ter a razão, fazer sentido.
G- acho que não. é meio solitário.
D- é meio solitário o oposto também.
G- às vezes eu acho que qualquer opção é solidão.
D-
G- ela faz igual ao vídeo.
D- ela é puta.
G- isso não importa.
D- é claro que importa. é isso que ela é, você ama ela e agora diz que ela não importa?
G- você ta só distorcendo.
D- eu to falando a verdade.  ela é puta, e isso tem que importar. se não importasse você não queria ver ela de novo.
G- é estranho.
D- o que?
G- o jeito que você consegue fazer sentido.
D- é solitário.
G- estranho e solitário.
D-
G-
D- e aí?
G- eu vou mandar um e-mail pra ela.
D- não vai funcionar.
G- eu vou na casa dela.
D- ela não quer te ver.
G- eu vou dizer que tenho dinheiro.
D- ela não vai acreditar.
G- que eu posso fazer então?
D-
D-
D- me ouvir.
G-
G-
G-
D- eu ligo. eu chamo. eu ofereço dinheiro. eu fodo ela. você assiste dentro do armário. você descobre se importa ou não ela ser puta. e se você ainda quiser eu te dou

dinheiro pra você sair com ela.
G-
D-
G- você é cruel.
D- eu só quero saber se é igual ao vídeo.
G- eu não tenho nenhum dinheiro.
D- eu tenho uma proposta e nenhum apreço pelos seus sentimentos.
G-
D- vou ligar.
G-



9.
F- eu não tenho coragem de ir pra casa.
E- a casa é sua.
F- fodasse. lá tudo parece horrível. eu sinto que se eu entrar lá eu não vou sobreviver.
E- ele te dominou né?
A- eu devia ter avisado.
F- vocês avisaram.
A- você devia ter ouvido.
F- eu não entendo.
E- ninguém entende.
W- é só isso que ele oferece.
E- ele nunca foi a mesma pessoa com ninguém.
F- nem com ele mesmo.
W- nem com aquele terapeuta.
E- às vezes acho que todo mundo é que nem ele, e ele só é uma versão exagerada.
F- você ta defendendo ele?
E- não.
A- ela só ta dizendo que ele é pior ainda por mostrar a verdade assim pra a gente.
W- como se fosse inatingível.
F- eu já vi ele chorar.
E- todo mundo já viu.
A- é falso.
W- parece que é um choro calculado.
E- parece que ele ta atuando.
F- ele tá sempre atuando.
E- ele acha que isso é um jogo.
W- ele tem mais é que se foder.
F- vocês me ajudam a expulsar ele da minha casa?
E-
W-
A-
F-
F- a casa é minha.
W- acho que é uma boa.
A- você só quer comer ela.
E- eu só quero ferrar com ele.
A- ta, eu quero ele morto.
F- às vezes eu acho que ele quer ele morto.
E- pelo menos temos alguma coisa em comum.



10.
D- começou muito antes de eu ou você existirmos. começou muito antes de a gente conseguir caminhar sob a terra. começou antes de existir água. complexos moleculares de

vida baseada em  carbono. começou antes de qualquer coisa começar. começou porque alguma coisa tinha que começar. e aí começou e ta correndo sem parar.
I-
D- é idiota né. quando a gente vê ele correndo assim, com lágrimas nos olhos, tropeça e para.
I-
D- ele saiu correndo mas desceu de elevador, pra correr de novo, e tropeçar bem quando a gente ta olhando pela janela.
I-
D- ele tropeçou porque olhou pra trás.
I-
D- ele olhou porque ele queria que você gritasse por ele.
I-
D- você não gritou porque ele começou a correr antes que você pudesse entender.
I-
D- você não entendeu porque você já presumiu que todo cara é um caralho ambulante. meio sexista pra uma riot grrl não?
I-
D- você presumiu isso porque é puta. porque quer ser puta. porque não conseguiu perceber que te oferecer dinheiro foi o único jeito que ele conseguiu pra se aproximar

de você.
I-
D- e ele tava errado. é bem diferente do que no vídeo.
I-
D- você nem se importa se ele se machucou né?
I-
D- porque você ta chorando? o que é que vocês tem com essa mania de chorar?
I-
D- você nem vai me contar a sua história triste?
I-
D- diz aí, quem é que te fodeu primeiro?


11.
A- a verdade é que ele não tá morto pra mim.
F- e essa é a parte foda.
A- não.
A- o foda é que mesmo depois de morto ele não vai estar morto pra mim.
A- mesmo que ele leve todas as coisas dele. mesmo que ele queime junto com todas as lembranças. tem algo na minha cabeça. alguma coisa que ele operou lá dentro,

implantou com mensagens subliminares, com a escolha de palavras. tem alguma coisa que me mudou pra sempre. que eu nunca vou me ver livre. que talvez me leve a loucura.
F- você devia ir ver alguém.
W- ela vê.
E- ele tem esse controle.
W- você nunca trepou com ele, porque você age como se ele tivesse te destruído também?
F- ele enlouqueceu ela também.
E- ele me fodeu.
F-
A-
E- na última festa.
A-
F-
W-
E- no banheiro.
F-
W-
A-
E- por isso eu queria ir embora. ele me fodeu como eu sempre quis ser fodida. como eu nunca pensei em ser fodida. ele me fodeu e fodeu com todo meu cérebro. enquanto ele metia ele cantava uma música do roy orbison. ele não pediu licença nem nada. ele chegou cantando quando eu esqueci a porta aberta e tava mijando. ele chegou cantando pos o pau pra fora me virou e entrou. sem pedir licença. sem bater na porta. e eu gostei.
F-
W-
A-
E- quem não gosta de roy orbison?
F- e aí fica aquele eco dentro de você. aquilo indo e voltando de formas distorcidas. se misturando com imagens da infância. da TV. de letras de música. se misturando com sua vida e tudo virando falso. tudo mudando. tudo parecendo novo.
E-
W- e assim a gente enlouquece.
A- cada vez mais. quanto maior a distância mais próxima dele me sinto.
F- às vezes eu acho que ele é deus.
E-
A- eu tenho certeza.
W-


12.
T- deve ser bom ser você.
D- deve ser bom ser você.
T- você faz o que quiser, porque se recusa a entrar no jogo.
D- você faz o que quiser, porque você regula o jogo.
T- você sabe que não é um jogo de verdade.
D- você sabe que é um jogo de verdade.
T- você é louco.
D- por isso eu faço terapia.
T- você me enlouqueceu.
D- você devia procurar alguém.
T- porque você ta sentado na minha mesa?
D- porque você acha que você tem uma mesa? porque você acha que você tem alguma coisa? quem você pensa que é?
T- eu que tenho que fazer as perguntas.
D- pra quem? que respostas você consegue?
T- pra quem não consegue se fazer as perguntas certas, eu faço as pessoas se enxergarem com mais clareza. eu salvo vidas todo dia.
D- você só põe elas de volta no jogo. você é um cusão.
T-
D- você tem algum diagnóstico?
T-
D- você quer comer sua mãe?
T-
D- quando eu digo palíndromo qual a primeira palavra que vem na sua cabeça?
T-
D- como foi sua infância?
T-
D- o quê você vê aqui?
T-
D- tem alguma coisa que eu posso fazer por você?



13.
D- o mundo em silêncio é mais confortável. quando todos ficam pensando antes de falar e ninguém diz nada. quando algo acontece e é tão surpreendente que todo mundo na rua só consegue ficar olhando em silêncio. quietos. por alguns segundos.
D- essa é toda paz que você consegue.
D- e aí eles voltam a falar, a gritar, a perguntar o que ta acontecendo.
D- nessas horas você só consegue acelerar e torcer pra bater o mais depressa o possível.
D- mas sempre corre risco de você se chocar contra uma fábrica de travesseiros.


14.
I- pra mim ele já tava morto.
A- pra mim ele sempre esteve.
F- pra mim ele nunca existiu.
W- pra mim ele não importa.
E- pra mim ele já tinha ido embora faz tempo.
G- pra mim ele foi inventado por nós.
T- pra mim ele apontou uma arma, roubou meu carro e fugiu com todo meu dinheiro.
D-
D-
D-
D- pra mim o final não é importante.

Um comentário:

  1. Você está sabendo do coletivo À Margem do Infinito? Você deveria mandar e-mail e participar! seus textos são incríveis! acho que tem tudo a ver com o projeto. Seriam bons curta metragens...

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=n84gMpI70uI

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