quinta-feira, junho 27

hambientes hinternos

01
TR090- eu odeio esse bairro.
HV091- essa rua é pior.
JE092- rua de gente fodida.
H- dessa porra de fusca morto na esquina.
T- de casqueiro implorando por comida.
J- rua fodida. fodida.
T-
H-
J-
T- eu odeio morar aqui
J- eu odeio morar.
H- eu me odeio.
T- eu odeio ficar vivo.
J- e ser morto é fodido.


02
XS090- se eu não sei o que eu quero como eu posso ser honesto comigo? como eu vou saber quem eu sou? o que eu quero devia definir quem eu sou, minha identidade. então não me conheço nem um pouco e nem sei se quero.
MH065- se você não quer porque ta se preocupando com isso?
X-porque me incomoda não saber nada de mim. e como vou saber o que eu quero se eu não sei quem eu sou?
MH065- você tá andando em círculos.
X- é que eu tentei mergulhar nessa espiral de autoconhecimento, achei que isso ia me colocar num grau superior ao resto da humanidade. e toda essa porra mudou muito o que eu sei de mim. eu vi coisas pra quais eu tentava desviar o olhar. eu vi um lado meu que ninguém conhecia e sabe o que eu descobri? que eu não me importo com nada disso. que não tem nenhuma vontade de fazer qualquer coisa. nenhum desejo real. nada.
M-
X-
M-
X-
M- e aí? aonde você quer chegar com esse papo todo?
X- você é orientadora profissional não é? quero que você me oriente. qualquer direção.  porque eu não me importo de verdade. e aí se você disser: faça isso pelo resto de sua vida. eu vou aceitar. eu vou me encaixar. eu vou parar de procurar respostas dentro de mim e vou me tornar um membro útil para a sociedade.
M-
M-
M- vai à merda.

03
T- tinha essa mina, e ela era retardada.
J- tipo de verdade?
H- down? ela era down?
T- não.  só idiota. ficava forçando a barra pra parecer profunda e sensível. tipo fingindo ser genial com papo sobre sol, pássaro, essas desculpas que as pessoas usam pra aplaudir umas às outras.
J- eu quase nunca sinto o sol, e quando sinto tudo que penso é melanoma.
H- eu estudava com uma down. acho que quase toda época de escola. ela sempre tava olhando pra mim.
T- e ela ficava falando sobre o sol, sobre um pássaro interno, preso na buceta dela. esse tipo de piração. e que o pássaro queria voar até o sol e ela ficava falando sem parar, empolgada com essas imagens infantis que a cabeça de retardada dela produzia. tipo impressionada com ela mesma e esperando aplausos meus.
H eu tinha uns onze (11) anos, ou menos, ou mais e uma calça de tactel azul, era norma da escola, calça de tactel, acho que era pra humilhar. fodasse. a parada é que eu tava imaginando a professora de ciências subir uma montanha pelada, e pegando um crânio de boi e erguendo no alto. e aí, e essa foi a primeira vez que me lembro de ligar isso ao sexo, meu pau ficou duro. tipo duro pra caralho.
J- minha professora de ciências era bem velha.
T- eu falei pra ela: então porque você não deixa seu passarinho voar. e aí a puta, retardada, fez. ela ficou lá pelada, arreganhada, gritando: voa! voa! de ponta cabeça, como se aquilo fosse mágico, transcedental, ou qualquer outra porra dessas.
J- você tava sem roupa também?
H- eu fiquei sentindo meu pau. porque eu não tava acreditando que era possível ele ficar daquele tamanho. e acho que eu tava naquilo a muito tempo, porque uma hora olhei pro lado e vi que a down tava olhando pra ele. pro meu pau. tipo fixamente. e eu me senti um tipo de tarado por downs, mesmo sendo a professora que causou a parada. e os olhos da down me encarando e eu não conseguindo amolecer.
T- eu fingi entrar na pira dela e comecei a tocar uma. de pé. bem perto da buceta voadora. não que eu tivesse com tesão mas senti que eu tinha que fazer alguma coisa. eu tinha que gozar naquilo. eu precisava estragar aquele pseudo-lirismo. você entende? eu acendi um cigarro depois que esporrei nela. e ela pirada: voa! voa! aí encarei aquilo. encarei aquela porra na buceta que nunca ia voar. encarei o sol. senti o calor e apaguei o cigarro no grelo dela. bem no grelo.
H- depois disso sempre que eu via a down lembrava da cena, e aquilo acabou virando minha fantasia pra punheta, e eu passava tardes me masturbando pra down. eu não conseguia lembrar o que aconteceu depois dela ver então eu ficava pondo novas histórias. a down eu a professora e a cabeça do boi no topo da montanha. as duas achando meu pau gigantesco. e sempre que eu encontrava ela na escola eu ficava me sentindo culpado por isso. paranóico mesmo. aquilo só não era errado dentro do meu quarto. e eu comecei a ter ideias só com a down. torcia pra ela errar o banheiro e entrar quando eu tivesse usando. e eu ia passar chantilly no meu pau e dar pra ela lamber. tipo cachorro.
J- meu cachorro me lambia.
T- ela devia saber que sol queima.
H- downs curtem doce.
J- não tem protetor pra isso.
H-
T-
J-

04
X- seus olhos tão vermelhos.
KF093- é porque não dormi.
X- não, é muito vermelho. tipo uma lâmpada. tipo como se você tivesse acesa.
K- eu não dormi porque toda vez que me deito pra dormir eu fico visualizando o dia seguinte. mas tipo visualizando mesmo. cada detalhe. eu vejo o dia todo, toda noite. eu vivo todos os dias duas vezes. e aí não consigo dormir por desespero, porque não quero viver de novo esse dia. eu tenho medo do dia acontecer da forma que eu vejo.
X- vermelho demais. ele brilha. muito. você é uma androide. isso. você é um tipo de robô.
K- por exemplo, cada merda que você disse eu tenho que escutar duas vezes. é como se o mundo tivesse pronto e eu fosse uma espectadora de reprise. só reprises.
X- é sua programação. você é uma androide, e aí quando você desliga você atualiza o programa que prevê todas suas interações pra você continuar fingindo ser humana. mas sua inteligência artificial é tão desenvolvida que você ta questionando o sentido disso. bem esperto pra uma máquina.
K-
X-
K- eu posso ser uma profeta.
X-
K-
X- da sua própria vida.
K-
X- o que é uma merda.
K-
X- eu vim te contar meu futuro.
K-
X- porra.


05
J- meu pai sempre me odiou, desde que nasci. eu sei disso desde que aprendi a odiar. porque eu odiei ele desde que entendi que ele mandava em mim. e aí percebi que ele me odiava também. que nós dois nos odiávamos. e acho que e ele percebeu isso e o ódio aumentou. quem conhece o ódio sabe quando é odiado, é outra forma de olhar pra pessoa. é um desconforto gigantesco.
H- a gente conhece o ódio
T- a gente conhece seu pai.
J-
X-
T-
H-
J- você ta perdido?
X- tô procurando a merda.
T- a merda é aqui.
H- essa rua é uma merda.
J- esse bairro é uma merda.
T- a cidade toda ta na merda, mas aqui é pior.
X- (senta na sarjeta)
T- (senta na sarjeta)
H- (senta na sarjeta)
J- (senta na sarjeta)
T- quem te mandou à merda?
X- minha orientadora profissional.
H- que merda de orientadora.
J-
X-
J- você viu o fusca?
X-
H- é uma merda de fusca né?
X- é.
T- e se a gente te espancasse agora? a gente ta em maior número e você ia perder. a gente ia enfiar umas paradas no seu cu, desenhar na sua testa com canivete.
J- a gente tem canivetes?
X- ia ser uma merda, e se eu não gostasse eu ia ter que avisar minha orientadora.
H- você ia ter que pedir uma recomendação pra outro lugar. sem contar que você ia poder dizer: moça você me mandou pro lugar errado, meu futuro profissional não está lá, meu lugar na sociedade não é na merda, então é bom a senhora, orientadora, me orientar direito ou vou te processar e nunca mais ter que trabalhar na vida.
J- canivetes de mola ou do outro tipo?
T- você pode mandar sua orientadora profissional pra uma orientadora profissional, criando uma cadeia de eventos que fariam todos profissionais do mundo perceberem que não são bons profissionais e não cumprem suas funções de forma competente.
X- é uma merda de plano.
T- você que escolhe.
J-
H-
X- vocês fariam isso por mim?
(fazem)
(fim do primeiro ato)


06
K- hoje eu não queria acordar. porque o tempo inteiro eu só tinha seu rosto espancado e essa suástica sangrando na sua testa. é nojento. é idiota. e você fica sorrindo que nem um idiota, como se tivesse descoberto algo importante em você. eu não queria ver isso. eu não queria ver você.
X- agora eu sei de mais uma coisa.
K- eu só não queria ver de novo.
X- a reprise é sua maldição. você é uma profeta-robô.
K- como eu sei qual versão é a verdadeira?
X-
K- porque ver você aqui sorrindo pode ser só eu tentando dormir, e essa sensação de deja-vu é parte da previsão.
X- programação.
K- e tudo vem com esses ecos, um coral de fundo, como se nada fosse novo, como se tudo tivesse começado há muito tempo dentro da minha cabeça e agora se expandisse pra realidade. é como se alguém tivesse cromado meu crânio.
X-
K-
x- deve ser cromado, você é um robô. robôs são todos cromados.
K- (desliga)
X- (joga dinheiro no colo dela e sai, agora manca na perna direita)

07
J- esse cara, esse cara sempre faz o mesmo caminho, na mesma hora, com a mesma roupa e o mesmo cachorro.
H/T-eu sei eu tava aqui.
J- ele sempre acende o mesmo cigarro, no mesmo lugar.
H/T-eu sei eu tava aqui.
J- é quase como se ele fosse a única certeza que eu tenho nessa merda toda.
T- (se levanta, pega uma garrafa do chão quebra na cabeça do cara e em seguida corta a garganta dele)
H- isso é novidade.
J- quem mandou ele aqui?
T- (arrasta o corpo até o fusca e joga em cima do capô.)
J-
T-
H-
J- agora tudo pode acontecer.
H- agora nada vai acontecer.
T-

08
X-
M-
M- e aí?
X-
M- você conseguiu?
X-
X- parece?
M- achei que você não se importasse.
X- acho que descobri coisas novas sobre mim.
M- isso é um avanço.
X- descobrir que eu não curto ser espancado não chega ser um avanço.
M- vamos conseguir uma resposta.
X- mas tentativa e erro vai demorar demais.
M- agora temos duas coisas que você não gosta.
X-
M- merda e demora.
X- você é idiota.
M- é um avanço.
X- pra onde?
M-
X- que você acha que tá fazendo comigo?
M- meu trabalho.
X- eu não sei se ainda quero um lugar no mundo.
M- você não sabe o que quer.
X- para com isso.
M- três coisas.
X- você é uma filha da puta.
M- sou uma orientadora profissional.
X-
M-
X-
M-
X- (sai)
M- (fica)

09
(cantando)T- se essa rua, se essa rua fosse minha.
(cantando)H- eu mandava, eu mandava ladrilhar
(cantando)J- com pedrinhas, com pedrinhas tão cortantes
(cantando)T/H/J- só pra mais, só pra mais ninguém passar.
T-
H-
J-
J- eu odeio isso.
H- eu odeio aquilo
T- eu amo nada.
J- aqui só tem nada.
H- ali só tem nada.
T- eu odeio tudo.

10.
X- eu acho que descobri o que ela quer.
K- quem?
X- minha alma?
K- e o que sua alma quer?
X/K- não, minha orientadora profissional quer minha alma
X-
K-
X- você já sabia?
K- não, mas sabia.
X/K- os ecos?
K- tão cada vez mais altos, como se eu tivesse chegando no centro do eco. um lugar onde tudo acontece simultaneamente. eu acho que não sobrevivo.
X/K- lógico que você sobrevive. você é um robô. robôs não morrem.
K- eu sou uma profeta.
X/k- da sua própria destruição?
X-
K-
X/k- e agora?
K- você vai dizer qualquer coisa sobre sua alma, que você não se importava com ela e você deixou isso claro pra sua orientadora. e por algum motivo, você nem sabe qual pôde perceber quão terrível pode deixar sua alma com sua orientadora profissional. e agora você fica planejando recuperá-la mas sente que já é tarde.
X-
K- em seguida você vai sair correndo porque não sabe se o que eu tô falando é realmente o que você tava pensando. tá tudo muito confuso pra você.


11
J- eu odeio por amar odiar.
T- eu gosto da violência.
H- a violência é existencial.
J- é a forma que me afirmo como ser existente, contribuindo para a sociedade.
T- é o jeito que eu respondo meus anseios.
H- eu fico duro com espancamentos. é só isso e downs que funciona comigo.
T- eu só funciono com poesia, mas tem que ser retardada, sobre folha e sol e essas porras que não existem.
J- é uma merda isso tudo.
H- não sobrou nada nessa rua.
J- é tudo incerto.
T- e não vai acontecer nada.
T/H/J- (saem estalando os dedos ritmados)


12
X-
M-
X-
M-
X- que horas são?
M- faz diferença?
X- que dia é hoje?
M- faz diferença?
X- o que eu faço?
M- faz diferença?
X- eu não sei como continuar. é como se eu estivesse distante de tudo isso. como se eu não fosse eu mas um personagem criado por mim e o eu de verdade tá me vendo na tv sem prestar atenção, porque o texto é ruim e a atuação é ridícula.
M- pelo menos você ainda controla o texto?
X- acho que não. esse ator ruim e pretencioso que faz o papel de mim tá improvisando as falas, criando novas cenas que eu não quero que aconteçam. eu perdi o controle disso tudo, e pra alguém que não sou eu.
M- bom, nesses casos eu costumo recomendar o suicídio.
X- muito banal, muito idiota.
M-
X-
M- talvez você seja banal e toda essa impressão de falta de controle, falta de vontade, falta de tudo é só você percebendo o quanto você era mesquinho antes. talvez seu texto sempre tenha sido ruim mas você tava tão impressionado pelo personagem que deixou se arrastar até aqui, mas agora você percebeu que não é nada disso, que tudo é artificial e mal escrito e que você é um péssimo ator e nunca vai ser nada melhor que isso e agora você tem que aceitar isso.
X-
M-
X- que horas são?
M- (responde)
X- que dia é hoje?
M- (responde)
X- o que eu faço?
M-
x-
M-
M-
M-


13
K- só pra deixar claro. eu vivo nisso há muito tempo. eu estou presa há anos nesse dia de hoje. todos meus dias duram anos de reverberação interna. só pra que você entenda eu sei tudo que você vai dizer e eu não estou mais interessada. seus problemas não me interessam mais. porque eu ouvi eles diversas vezes. eu sei cada palavra que vai sair da sua boca. eu sei tudo que vai acontecer com a gente. eu vivo presa num passado que é o futuro. você entende? eu não vou explicar, porque sei que você só tá interessado em falar dos seus problemas, da sua alma, da sua falta de vontade, de como a merda é uma merda.
X/K- você tem razão, mas você continua sempre me esperando.
K- eu não posso mudar o futuro. eu só sou obrigada a viver ele várias vezes.
X/K- você é o robô mais inútil que a humanidade inventou.
K-
X-
K-
X-
X-
K- pelo menos eu não preciso me preocupar com minha alma.
X/K- meu problema é que eu não sei que fim dar pra isso tudo.
K- (desliga)
X- (desliga)


14.
T/H/J- (entram no mesmo ritmo da última cena 11)
M-
T- você é retardada?
M-
H- down? você é down?
M-
J- você acha que pode fazer isso com as pessoas? dar uma profissão pra elas?
M- eu só mostro o caminho.
T- que tipo de caminho? você ajusta as pessoas, faz elas terem desejos inúteis. você é cruel e nem admite.
H- pelo menos ele é um psicopata assumido.
J-
M- vocês mudaram? querem um novo encaminhamento?
J- uma nova profissão?
H- alguém pode mudar no mundo?
M-
T- alguém pode mudar?
M-
T- alguma coisa já mudou no mudou?
M-
H- não é tudo sempre igual?
M-
J- mudou?
M- eu não sei.
H- você tem chantilly aí?
M- vocês querem fazer um novo teste?
T- a gente quer poder não querer nada.
J- ninguém quer alguma coisa de você.
M-
H- é doce. você gosta de doce.
M-
H-
T-
J-

personagens:
todos com o mesmo macacão (cáqui) com seus nomes escrito no peito, seus números devem aumentar a cada ano (lembrando que foi escrita em 2013)
TR090 HV091 JE092: cabeças raspadas, bandeiras e símbolos (com e sem significados) espalhados na roupa. também estão cobertos de coco de pomba.
KF093: olhos vermelhos obrigatórios. as cenas em que ela aparece devem ser filmadas anteriormente e durante a apresentação projetada sob a cena que acontece ao vivo. o número de projeções aumenta a cada cena pela sequência de fibonnaci (deve expandir a cada apresentação)

cenário:
a iluminação deve ser feita com faróis de carro (de preferência a céu aberto) e a trilha sonora de sintetizadores e buzina.


todo resto é moldável ao gosto do diretor/público ou explícito no texto.

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