domingo, agosto 4

eu tenho dois braços
e os dois são de plástico
e eu uso eles para pegar as canetas que caem no chão
as canetas sempre caem no chão
quando eu tento tirar
elas de dentro da mochila
pra escrever no meu caderno
um texto sobre mim
que diga muitas coisas ao meu respeito
e a carga da caneta explode às vezes
e mancha a minha mão de plástico
e fica parecendo que eu me cortei e estou vazando sangue preto
porque eu só escrevo com caneta preta
então eu tento me limpar na calça e na cara e no cabelo
e fico todo tingido
e as pessoas apontam e riem
porque acham que estou me fazendo de bobo
então eu rio junto
porque é engraçado ver aquelas bocas abertas
e fazendo barulhos
por isso eu sempre ando com duas canetas
pra logo mudar de assunto
e voltar pro meu texto
que vai ter muita coisa sobre mim
que vai dizer tudo o que penso a respeito do mundo
e das pessoas que vivem nele
e vai contar coisas sobre a minha vida
sobre como eu consegui meus dois braços de plástico
e o que eu gosto de fazer nas horas que não estou escrevendo sobre mim
e todas as pessoas vão ler
porque vou xerocar uma cópia pra cada uma
e se cada cópia custar dez centavos (mas sete acima de 500)
e tiver um milhão de pessoas no mundo
eu vou precisar de dez milhões de centavos menos três milhões de centavos
que em dinheiros dá: setenta mil
e pra conseguir isso eu vou precisar de um trabalho
ou roubar um banco
mas eu não acredito que eu consiga roubar um banco
porque eu sempre derrubo a caneta e ela acaba explodindo
e é bem capaz de eu fazer isso com a arma também
que vai acabar matando alguém que nem merecia morrer
e impedir que essa pessoa leia o texto que preciso escrever sobre mim
e eu não quero perder leitores porque sou um pouco desastrado
então preciso procurar um trabalho
mas ele não pode envolver canetas
e tem que aceitar pessoas com braços de plásticos
e todos os tipos de pessoas
porque não me sentiria bem trabalhando num lugar tão descriminatório
e nem em nenhum lugar porque trabalhar é bem chato
por isso
é melhor não
escrever nada sobre mim
e deixar a caneta no chão mesmo.

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