quarta-feira, agosto 14

shiny happy people

sabe a única coisa que gosto de fazer no mundo?
reclamar de todas as outras coisas.
além disso.
não.
é vasculhar o lixo.
ah.
não quer saber porque?
ah...
você é uma puta desinteressada. mas vou falar mesmo assim: é que eu fico pensando no césio.
quem?
aquele rolê de uma família que encontrou material radioativo no lixão em goiania, e aí levaram pra casa e espalharam por toda a cidade, deram pras crianças brincarem e acabou que todo mundo morreu. um puta acidente radioativo.
ah.
aí fico pensando nas crianças comendo aquilo que brilhava, esfregando no corpo e virando uma espécie de luminária humana.
meio idiota mexer no lixo só por isso.
a menina que comeu então, virou o maior recipiente de radiação humano. será que o esqueleto dela brilhava à noite? ela deve ter sido a criança mais feliz do mundo até os tumores surgirem.
que horror!
horror é morrer de velho e com esqueleto opaco.
ah.
quando eu entrei na escola eu comprei um esqueleto de plástico que era fosforescente. eu sempre deixava dentro da mochila. aí sempre que aquele ambiente me deprimia demais eu enfiava a cabeça lá dentro e via o esqueleto sorrindo pra mim. aí quando eu soube dessa menina fiquei pensando que ela e o esqueleto eram a mesma pessoa, acho que não to tão errado.
e você decidiu se tornar um por isso fica mexendo no lixo?
coisa do tipo.
e que aconteceu com seu esqueleto?
os outros meninos quiseram ver porque eu ficava olhando dentro da bolsa tanto tempo. eles tiraram a bolsa de mim e me seguraram enquanto punham o esqueleto à luz do dia, e me olhavam como se eu fosse retardado. fora o esqueleto era uma coisa feia, mal feita. ele só tinha sentido dentro da mochila. é assim que vejo a menina também, talvez ela só acendia quando tava dormindo e fechada no quarto, quando trouxeram à luz que aquilo não era divertido e sim um causador de câncer os tumores pipocaram e ela virou uma criatura pálida e desforme, mal feita mesmo.


os meninos tavam certos.
oque?
você é retardado.

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