domingo, junho 27

A Fantástica história do Homem´Descartável (última versão)

Acordou certo dia com vontade de se reconhecer no espelho, e percebeu que sua pele era feita de papel. Olhou para o próprio rosto como nunca havia olhado.Buscava por algum motivo desvendar cada expressão escondida, cada centímetro de pele nova, cada célula morta, foi ai que percebeu que ele era feito de papel. Sua pele inteira feita de papel. Um tipo de papel que lembrava papel higiênico. Toda a pele, não só rosto, os braços, as pernas.
Que estranho ser assim, era como ser descartável. Isso o tornava menos real? Que ele faria agora? todos podiam jogá-lo fora quando quisessem. Não! Não queria ir para o lixo. Precisava salvar sua vida. Para não ser descartado precisava que alguém o considerasse essencial. Mas como um homem de papel pode se tornar essencial? Ou especial? Como fazer com que alguém note algo nele que não encontraria em nenhum outro? Não custava tentar.
Quis encontrar alguém do passado que gostasse dele. Entrou no MSN, buscou por algum contato que pudesse salvá-lo da descartabílidade, mas nada. Vinte e sete pessoas onlines e ninguém com quem quisesse conversar. Ninguém que o escutaria. Ninguém que o considerasse mais que descartável. O desespero se abateu forte em seu coração.
Talvez tivesse de buscar um contato mais real. Pegou o celular e começou a buscar alguém com quem conversar. Alguém para marcar um encontro. NADA, ninguém que quisesse ver. Ninguém que quisesse abraçar. Ninguém que pudesse o amar. Todos quase tão descartáveis quanto ele.Sentia vontade de atirar o celular para longe. Mas algo o deteve, a impressão de que talvez algum contato não fosse assim tão inútil. Alguém que não fosse descartável igual ele. Vasculhou novamente todos aqueles números. Sua mãe? Melhor não. O pai não mesmo. Ex-namoradas. Ex-amigos. Ex- companheiros de porres. Nenhuma pessoa que pudesse salva-lo. Não custa tentar. Chamou algum número ao acaso. Era o telefone de sua ex-noiva, alguém que ele descartara. Chamou, Chamou.- Alô? É você? Por que você está me ligando? Encheu a cara de novo é?- Não... é que eu preciso ser salvo... você pode me salvar...preciso de amor- respondeu como uma voz chorosa.-Não ninguém pode te salvar! Você desperdiçou todas as chances de ser salvo! Você se afundou nesse mar insano!Tentou contar para ela que ele havia percebido. Tentou dizer que agora ia ser diferente, que não seria mais o mesmo. A nada ela dava ouvidos. Ela só gritou que era pra ele não ligar mais, que agora ela era feliz e com outro, gritou que ele havia sido um desperdício.
Foi ao banheiro, derrubou o celular na privada, vomitou por cima dele. Se sentia uma merda. Sentou no chão do banheiro para chorar um pouco, mas percebeu que suas lágrimas estragavam seu rosto. Nem chorar alguém descartável tem direito. Engoliu o choro e percebeu que havia descartado todos os conhecidos. Ele era o culpada de sua metamorfose. Mas sabia que para ser salvo precisava dos outros. Se não ia pro lixo.
Resolveu procurar alguém que pudesse salvá-lo pessoalmente. Tinha que por uma roupa, dormia pelado sempre.
Enquanto se vestia percebeu que seus pelos ainda eram pelos, não eram de papel. A pele era de papel, seu pinto era de papel. Resolveu não ver o cu, mas a língua estava lá, normal. Os lábios eram mais escuros, mas ainda eram brancos. Inteiro branco. Se vestira, sentia-se ridículo com aquela pele de papel. Pôs uma roupa inteira preta, por ser a única limpa. Pôs também óculos escuros, os olhos estavam estranhos por causa da metamorfose.
Resolvera ir à casa de um velho amigo que morava perto. Mais velho que amigo nesses últimos anos. O homem-descartável descartara essa amizade há um tempo. Mas quem sabe o cara podia ajudar, cresceram juntos.Parado em frente aquela casa lembrava de sua infância. Em uma época que ele era real e não de papel. O amigo herdara a casa dos pais, mortos há uns cinco anos. Vivia do seguro dos pais desde então. O homem de papel tocou a campainha. O cachorro, um pequeno vira-lata, começa a disparar latidos contra o visitante. O antigo amigo
Demora cerca de cinco impacientes minutos para aparecer. Quando o homem de papel estava para desistir, o cara apareceu, só vestido com uma cueca branca e luvas de boxe vermelhas.-É você mesmo? cara eu ouvi dizer que você não saía mais de casa, mas não achei que já tava tão pálido. Que você quer aqui?
O boxeador tinha a pele bem bronzeada, braços enormes, e o mesmo pé pequeno de sempre. Assim que vira o amigo o Homem-descartável lembrou por que a amizade tinha acabado.
-Preciso de ajuda. tenho me sentido inútil. Acho que se eu morresse hoje ninguém iria se dar conta. Eu to me sentindo como uma conta antiga no fundo do armário.-Cara você é louco. Cai fora daqui! A gente não se dá bem!- Você não pode me ajudar? Meu deus, estou implorando. Não dá pra esquecer nossas brigas?O boxeador o encarou como se um round tivesse começado. Abriu o portão que separava os dois, não sem a dificuldade causada pelas luvas. Começou a se aproximar do homem de papel, chegou tão perto como se fosse beijá-lo, os narizes com poucos centímetros para se encontrarem. Desferiu um soco tão rápido quanto forte. O homem de papel foi a nocaute.- Você comeu minha namorada! Na cama dos meus pais! No dia do funeral deles! Você é um filho da puta! - Gritou o boxeador para o amigo desmaiado.
Realmente ele sempre fora. Mas agora era um homem com a pele feita de papel e com a cara esparramada no asfalto. Ficou lá, esperando mais porrada vinda do amigo descartado.- Cara saí daqui logo. Antes que eu tenha que quebrar de vez.- Berrou o boxeador e depois entrou na casa de onde se podia ouvir uns socos secos e o cachorrinho latindo um latido estridente.
O homem de papel ficou ainda um tempo esticado no chão. Com medo de se descobrir mais descartável ainda. Medo de se descobrir. Esperando para ver se o vento o levava para longe. Estava com a cara no chão. Sem a menor coragem para se levantar. Era um filho da puta mesmo, considerava os outros tão inúteis, agora ele era o inútil, descartável, era de papel. O maior descartador seria descartado.
Se levantou, não queria tentar se salvar de novo, mas não tinha nada para fazer. Seu rosto estava todo sujo e da sua boca jorrava sangue. A última briga que teve com aquele cara não havia sido assim. O boxeador estava muito forte com mais ódio nos braços. Melhor seria deixá-lo em paz. Descartá-lo da lista da salvação.Se podia sangrar, talvez pudesse encher a cara. Precisava disso. Talvez fosse seu último porre. Por algum motivo sentia que seria descartado assim que o sol sumisse no horizonte. Com seu rosto sujo e rasgado, foi em direção a um bom bar, já que seria seu último bar.
Ao chegar no bar, um dos mais caros da cidade, foi direto ao balcão. Uísque, o mais caro. Percebeu que conhecia o garçom, um amigo que quis bater nele por algum motivo. Ao olhar a mulher ao seu lado, era sua noiva, a da ligação, vestida para o casamento. Atrás dela havia uma mesa cheia de ex-namoradas e algumas prostitutas, todas vestidas em traje de gala. Viu o boxeador, nos mesmos trajes de antes. Todos os contatos inúteis do MSN e do celular. Seu pai apareceu braços dados com sua mãe. Coisa que não se via há anos. O bar parecia um museu de cera. Cheio de gente do passado. Gente que ele queria desesperadamente que salvasse sua vida. Gente que não queria fazer isso.
Aquela garota que queria ser modelo e lia horóscopo, eles saiam, até um dia que ele disse que modelo era desculpa pra ser puta, ela disse que era seu destino ele gargalhou. Seu antigo chefe, um cara que acreditava nele. O homem descartável havia o mandado se foder, e o chamou de hippie velho. Todos os descartados reunidos.
Seu velho pai ergueu um brinde e disse:- Ao Homem MAIS inútil que Deus já pois sobre a terra!Todos aplaudiram entusiasmados. O homem descartável tentou fugir, mas as portas estavam trancadas. As pessoas o cumprimentavam como se fosse seu aniversário. Pela primeira vez na vida queria um cumprimento sincero, mas era tudo falso, mecânico. E seus ex-amigos soltavam frases como:- Parabéns por ser o maior cretino de todos.- Você nunca se importou com ninguém, por que se importar com você?- Você será reciclado para evitar o aquecimento global.Tentava escapar de todos, mas eram muitos. Conseguiu uma garrafa de qualquer coisa e a bebia sem parar. Quem sabe um desmaio não o salvaria. Suava muito, cada vez que alguém o alcançava para prestar cumprimentos, disparava a chorar. Se dizia arrependido, clamava por perdão, mas o olhavam sorrindo e afirmavam que era muito tarde para arrependimentos.
O homem descartável começou a desmanchar, suas lágrimas, seu suor, estavam destruindo a pele feita de papel. O sangue escorria por todos os lugares em que a água passava. Cada poro que soltava suor formava um rio de sangue. Os que tentavam segura-lo saiam com pedaços de papel sujos de sangue na mão. Ele gritava de dor. Era algo fora do comum, a dor de ser rasgado em mil pedaços.
Corria sem parar e ia perdendo mais pedaços com isso. Nada evitaria seu fim. Começou a deixar de ser de papel para se tornar apenas sangue, espalhado pelo bar, misturado com escarros de todos os tipos. Papel voava por todos os lados, como confete no fim do carnaval. Sua apatia por todos o reduzira a nada. Os convidados sumiam aos poucos, conforme a importância que deram ao homem de papel. O último a ficar foi seu pai, que brindou mais uma vez ao maior cretino que já pisara na terra. Desapareceu em seguida. Para trás ficou apenas silêncio, sangue, solidão e papel. Essas coisas que compõe todos os homens.

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