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terça-feira, dezembro 21

Um bom cinzeiro

- Eu queria um crânio de bebê...
- Pra quê? - perguntou o marido.
- Acho bonito caveiras... De bebê pequenininho... Ia ser muito bonitinho de por na mesa de casa...
- verdade né... Ficaria legal.. Mas recém-nascido tem aquele buraco na cabeça...
- que buraco?
- Não lembro o nome, mas é um buraco... Acho que chama cabeça mole... Moleira... Acho que não dá tempo de produzir toda cobertura.. Só com uns cinco anos essa moleira some...
- Ah é? Que coisa... Todo mundo nasce com a cabeça aberta... Bonito isso heim?
- Horrível... Parece frase de quem vai pra festa rave e fuma maconha.
Ele disse apagando o cigarro na mesa. A cabeça do bebê dava um bom cinzeiro. Ainda mais se vier com a moleira... É esse o nome? Tanto faz... Pensou em engravidar a mulher agora, aí com uns sete meses  eles tiram, pegam o cadaverzinho, enterram o resto e tiram a cabeça, tiram a pele, a carne, lavam, e põem de cinzeiro. Ia ser bonito. Ninguém descobriria o neném morto. Sentiu um estranho prazer com aquela idéia. Matar uma vida que nunca existira. Acendeu mais um cigarro.
Ela voltavas da cozinha. Tinha ido pegar água.
- Acho que é uma boa. Posso procurar qualquer dia.
- O quê, amor?
- O crânio do bebê... Achei boa a idéia...
- Que papo é esse? Você ta estranho...
De novo? Por que ela fazia isso? Falava sobre alguma coisa e depois mudava e fingia que não lembrava de nada. Ah como ele odiava isso. Sentia medo da loucura daquela mulher. Uma vez ela quis come carne humana, quando ele se ofereceu para fatiar o vizinho ela rejeitou e vomitou quando ele contou o plano.
Muito louca ela andava. Ele fumava seu cigarro e pensava nisso. No medo. Como confiar e dormir ao lado dela? E aquela barriga que só aumentava. Talvez já tivesse o neném lá dentro. Realmente! Agora tem algum sentido aquele papo. As vontades estranha. Está grávida.
- Me entrega o bebê...
- O que?
- o da sua barriga caralho! Você esconde de mim. Não quer que eu tenha meu cinzeiro. Disse cheio de agressividade.
Ela sem entender se levanta e tenta se afastar. Mas é puxada pelos cabelos. chora compulsivamente. Tem medo daquele homem. Seu próprio marido que enlouquecera há uma mês mais ou menos. Ele bate a cabeça dela contra a TV. Está morta. Ou pelo menos não se mexe. A cabeça enfiada na tela. Parece uma cena do videodrome. Ele pensa um pouco no filme e busca um pé de cabra, dos pequenos, na caixa de ferramenta.


Há sangue por todos os lados. O cadáver com a cabeça de TV está estripado. Um fetozinho decapitado está no meio de tripas. Ele bate seu cigarro no crânio do bebê. Um craniozinho bem pequeninho e com a moleira aberta. Realmente é um belo enfeite, pensa.

quarta-feira, novembro 10

A avenida

Quando a notícia da construção da avenida chegou ao bairro pela primeira vez foi uma barulheira tremenda. Todas velhas, fofoqueiras e desesperadas, tinham a certeza de que suas casas seriam derrubadas. Todos os homens, gananciosos e sonhadores, pensavam em como lucrar com o projeto, querendo montar um comércio que cresceria enormemente.
 
A notícia se espalhou. A cidade realmente crescia. Às vezes, ao verem uma meia dúzia de trabalhadores da prefeitura, uma vizinha comentava com a outra (ou sozinha).
- Tá vendo? Ó os homi lá. Já tá começando... Meu neto viu o mapa... Vai passá bem aqui em casa... Quem não vende o prefeito mata...
A outra concordava. Ou a que falou concordava consigo mesma. E voltava a varrer a calçada. Sempre de olho naqueles de uniforme azul... Dessa vez só taparam o buraco... Na próxima a avenida começa.
 
Uma vez passou por lá um homem bem vestido. Grã fino de belo carro. Na época o tráfico era fraco e rico não passava pelo bairro. Todos saíam no portão pra conferir. Quando ficou-se sabendo que era dono de um super, a certeza bateu na testa: Amanhã começa a avenida.
Mulheres, grandes, pequenas, gordas e dos outros tipos, corriam arrumando a mudança... Não pode deixar pra depois, se não eles derrubam tudo com nóis junto.... O filho que tinha visto o mapa na prefeitura, que se dizia cheio de contatos, pedia pra mãe calma... Eles iriam mandar carta qualquer coisa...
-Arre! Ouvir moleque agora? Quando manda carta a avenida vai ta aí.
 
O velho louco do fim da rua, aquele que punha fogo em casa só pra ver os bombeiros, gritava pelo campo de futebol, é o fim! É o fim! Os meninos sem camisa jogavam bola e empinavam pipa e nem se importavam.
 
A avenida seria pra daqui dois dias, disse alguém. A prefeitura vai pagar pelas casas menos que valem, a metade, disse outro. Com meu primo foi assim, daí parou na favela, disse o terceiro.
Ah! Não pode. Tem gente que vive aqui faz mais de uma vida. Não pode....-falou o que tinha o bar.
Não pode mesmo. Quem eles pensam que nóis é? Bicho? Ah ta errado isso...- gritou aquela dona da casa verde...
Nem a pau que vão tirar minha casa! Mato cada um que tentá....- Bradou aquele que o filho é policia...
 
As barricadas foram erguidas. As tochas acesas. Os moradores unidos. Seu Paulo, o que tentou impedir que a bagunça acontecesse, foi espancado. Todos estavam prontos pra defenderem o lar. A bela casinha onde criaram cada filho. Ninguém de fora entra, ninguém de dentro sai. Pichado, a pincel nos cartazes.
 
Ao saberem da revolta, e não entenderem o motivo, pois a tal da avenida nunca existiu, nem existira. Ninguém ligava praquele bairro velho, os que governavam a cidade mandaram a força policial para manter a ordem.
 
Foi o fim do bairro.
As senhoras tiveram suas dentaduras arrancadas à borrachadas. Estavam mais desesperada que sempre.
Aquele que o filho era policia apanhou do próprio sangue. Chorando tentou fugir pra casa, morreu na entrada, o filho cumpria ordens.
O dono do bar foi pego preparando molotov de velho barreiro. Teve as pernas quebradas pela fúria policial.
Aquela dona, que morava na casa verde, pintou a casa de vermelho com o sangue que voou de sua testa. Cinco pontos levaria se recebesse socorro.
Aquele louco, aquele do fim da rua, pôs fogo em tudo louco pra admirar aquela bela luz vermelha chegar. Mas só o azul terrível estava lá pra espancar.

domingo, junho 27

A Fantástica história do Homem´Descartável (última versão)

Acordou certo dia com vontade de se reconhecer no espelho, e percebeu que sua pele era feita de papel. Olhou para o próprio rosto como nunca havia olhado.Buscava por algum motivo desvendar cada expressão escondida, cada centímetro de pele nova, cada célula morta, foi ai que percebeu que ele era feito de papel. Sua pele inteira feita de papel. Um tipo de papel que lembrava papel higiênico. Toda a pele, não só rosto, os braços, as pernas.
Que estranho ser assim, era como ser descartável. Isso o tornava menos real? Que ele faria agora? todos podiam jogá-lo fora quando quisessem. Não! Não queria ir para o lixo. Precisava salvar sua vida. Para não ser descartado precisava que alguém o considerasse essencial. Mas como um homem de papel pode se tornar essencial? Ou especial? Como fazer com que alguém note algo nele que não encontraria em nenhum outro? Não custava tentar.
Quis encontrar alguém do passado que gostasse dele. Entrou no MSN, buscou por algum contato que pudesse salvá-lo da descartabílidade, mas nada. Vinte e sete pessoas onlines e ninguém com quem quisesse conversar. Ninguém que o escutaria. Ninguém que o considerasse mais que descartável. O desespero se abateu forte em seu coração.
Talvez tivesse de buscar um contato mais real. Pegou o celular e começou a buscar alguém com quem conversar. Alguém para marcar um encontro. NADA, ninguém que quisesse ver. Ninguém que quisesse abraçar. Ninguém que pudesse o amar. Todos quase tão descartáveis quanto ele.Sentia vontade de atirar o celular para longe. Mas algo o deteve, a impressão de que talvez algum contato não fosse assim tão inútil. Alguém que não fosse descartável igual ele. Vasculhou novamente todos aqueles números. Sua mãe? Melhor não. O pai não mesmo. Ex-namoradas. Ex-amigos. Ex- companheiros de porres. Nenhuma pessoa que pudesse salva-lo. Não custa tentar. Chamou algum número ao acaso. Era o telefone de sua ex-noiva, alguém que ele descartara. Chamou, Chamou.- Alô? É você? Por que você está me ligando? Encheu a cara de novo é?- Não... é que eu preciso ser salvo... você pode me salvar...preciso de amor- respondeu como uma voz chorosa.-Não ninguém pode te salvar! Você desperdiçou todas as chances de ser salvo! Você se afundou nesse mar insano!Tentou contar para ela que ele havia percebido. Tentou dizer que agora ia ser diferente, que não seria mais o mesmo. A nada ela dava ouvidos. Ela só gritou que era pra ele não ligar mais, que agora ela era feliz e com outro, gritou que ele havia sido um desperdício.
Foi ao banheiro, derrubou o celular na privada, vomitou por cima dele. Se sentia uma merda. Sentou no chão do banheiro para chorar um pouco, mas percebeu que suas lágrimas estragavam seu rosto. Nem chorar alguém descartável tem direito. Engoliu o choro e percebeu que havia descartado todos os conhecidos. Ele era o culpada de sua metamorfose. Mas sabia que para ser salvo precisava dos outros. Se não ia pro lixo.
Resolveu procurar alguém que pudesse salvá-lo pessoalmente. Tinha que por uma roupa, dormia pelado sempre.
Enquanto se vestia percebeu que seus pelos ainda eram pelos, não eram de papel. A pele era de papel, seu pinto era de papel. Resolveu não ver o cu, mas a língua estava lá, normal. Os lábios eram mais escuros, mas ainda eram brancos. Inteiro branco. Se vestira, sentia-se ridículo com aquela pele de papel. Pôs uma roupa inteira preta, por ser a única limpa. Pôs também óculos escuros, os olhos estavam estranhos por causa da metamorfose.
Resolvera ir à casa de um velho amigo que morava perto. Mais velho que amigo nesses últimos anos. O homem-descartável descartara essa amizade há um tempo. Mas quem sabe o cara podia ajudar, cresceram juntos.Parado em frente aquela casa lembrava de sua infância. Em uma época que ele era real e não de papel. O amigo herdara a casa dos pais, mortos há uns cinco anos. Vivia do seguro dos pais desde então. O homem de papel tocou a campainha. O cachorro, um pequeno vira-lata, começa a disparar latidos contra o visitante. O antigo amigo
Demora cerca de cinco impacientes minutos para aparecer. Quando o homem de papel estava para desistir, o cara apareceu, só vestido com uma cueca branca e luvas de boxe vermelhas.-É você mesmo? cara eu ouvi dizer que você não saía mais de casa, mas não achei que já tava tão pálido. Que você quer aqui?
O boxeador tinha a pele bem bronzeada, braços enormes, e o mesmo pé pequeno de sempre. Assim que vira o amigo o Homem-descartável lembrou por que a amizade tinha acabado.
-Preciso de ajuda. tenho me sentido inútil. Acho que se eu morresse hoje ninguém iria se dar conta. Eu to me sentindo como uma conta antiga no fundo do armário.-Cara você é louco. Cai fora daqui! A gente não se dá bem!- Você não pode me ajudar? Meu deus, estou implorando. Não dá pra esquecer nossas brigas?O boxeador o encarou como se um round tivesse começado. Abriu o portão que separava os dois, não sem a dificuldade causada pelas luvas. Começou a se aproximar do homem de papel, chegou tão perto como se fosse beijá-lo, os narizes com poucos centímetros para se encontrarem. Desferiu um soco tão rápido quanto forte. O homem de papel foi a nocaute.- Você comeu minha namorada! Na cama dos meus pais! No dia do funeral deles! Você é um filho da puta! - Gritou o boxeador para o amigo desmaiado.
Realmente ele sempre fora. Mas agora era um homem com a pele feita de papel e com a cara esparramada no asfalto. Ficou lá, esperando mais porrada vinda do amigo descartado.- Cara saí daqui logo. Antes que eu tenha que quebrar de vez.- Berrou o boxeador e depois entrou na casa de onde se podia ouvir uns socos secos e o cachorrinho latindo um latido estridente.
O homem de papel ficou ainda um tempo esticado no chão. Com medo de se descobrir mais descartável ainda. Medo de se descobrir. Esperando para ver se o vento o levava para longe. Estava com a cara no chão. Sem a menor coragem para se levantar. Era um filho da puta mesmo, considerava os outros tão inúteis, agora ele era o inútil, descartável, era de papel. O maior descartador seria descartado.
Se levantou, não queria tentar se salvar de novo, mas não tinha nada para fazer. Seu rosto estava todo sujo e da sua boca jorrava sangue. A última briga que teve com aquele cara não havia sido assim. O boxeador estava muito forte com mais ódio nos braços. Melhor seria deixá-lo em paz. Descartá-lo da lista da salvação.Se podia sangrar, talvez pudesse encher a cara. Precisava disso. Talvez fosse seu último porre. Por algum motivo sentia que seria descartado assim que o sol sumisse no horizonte. Com seu rosto sujo e rasgado, foi em direção a um bom bar, já que seria seu último bar.
Ao chegar no bar, um dos mais caros da cidade, foi direto ao balcão. Uísque, o mais caro. Percebeu que conhecia o garçom, um amigo que quis bater nele por algum motivo. Ao olhar a mulher ao seu lado, era sua noiva, a da ligação, vestida para o casamento. Atrás dela havia uma mesa cheia de ex-namoradas e algumas prostitutas, todas vestidas em traje de gala. Viu o boxeador, nos mesmos trajes de antes. Todos os contatos inúteis do MSN e do celular. Seu pai apareceu braços dados com sua mãe. Coisa que não se via há anos. O bar parecia um museu de cera. Cheio de gente do passado. Gente que ele queria desesperadamente que salvasse sua vida. Gente que não queria fazer isso.
Aquela garota que queria ser modelo e lia horóscopo, eles saiam, até um dia que ele disse que modelo era desculpa pra ser puta, ela disse que era seu destino ele gargalhou. Seu antigo chefe, um cara que acreditava nele. O homem descartável havia o mandado se foder, e o chamou de hippie velho. Todos os descartados reunidos.
Seu velho pai ergueu um brinde e disse:- Ao Homem MAIS inútil que Deus já pois sobre a terra!Todos aplaudiram entusiasmados. O homem descartável tentou fugir, mas as portas estavam trancadas. As pessoas o cumprimentavam como se fosse seu aniversário. Pela primeira vez na vida queria um cumprimento sincero, mas era tudo falso, mecânico. E seus ex-amigos soltavam frases como:- Parabéns por ser o maior cretino de todos.- Você nunca se importou com ninguém, por que se importar com você?- Você será reciclado para evitar o aquecimento global.Tentava escapar de todos, mas eram muitos. Conseguiu uma garrafa de qualquer coisa e a bebia sem parar. Quem sabe um desmaio não o salvaria. Suava muito, cada vez que alguém o alcançava para prestar cumprimentos, disparava a chorar. Se dizia arrependido, clamava por perdão, mas o olhavam sorrindo e afirmavam que era muito tarde para arrependimentos.
O homem descartável começou a desmanchar, suas lágrimas, seu suor, estavam destruindo a pele feita de papel. O sangue escorria por todos os lugares em que a água passava. Cada poro que soltava suor formava um rio de sangue. Os que tentavam segura-lo saiam com pedaços de papel sujos de sangue na mão. Ele gritava de dor. Era algo fora do comum, a dor de ser rasgado em mil pedaços.
Corria sem parar e ia perdendo mais pedaços com isso. Nada evitaria seu fim. Começou a deixar de ser de papel para se tornar apenas sangue, espalhado pelo bar, misturado com escarros de todos os tipos. Papel voava por todos os lados, como confete no fim do carnaval. Sua apatia por todos o reduzira a nada. Os convidados sumiam aos poucos, conforme a importância que deram ao homem de papel. O último a ficar foi seu pai, que brindou mais uma vez ao maior cretino que já pisara na terra. Desapareceu em seguida. Para trás ficou apenas silêncio, sangue, solidão e papel. Essas coisas que compõe todos os homens.

segunda-feira, janeiro 18

O suícidio & a libertação.

Estávamos em uma sacada. A avenida fazia barulho lá embaixo. Ele olhava fixamente pra baixo, ele me disse que iria pular.
-Por que você pularia?- Eu tinha alguns motivos, mas não se deixa um amigo se matar sem nem perguntar o porquê.
-Por que não? Eu sempre quis voar.
-Ah, desejo é muito pouco pra se matar.
-Mas não é só isso.
-Então me dá mais motivo cacete. -ele sempre enrolava demais para dar uma .
-Cara por que você continua vivo? - Todo suicida responde uma pergunta com outra?
-Sei lá cara, pela bebida, pelas garotas...
-Isso tudo é muito vago, umas diversõezinhas nos fins de semanas, só por isso não vale a pena envelhecer. Nem envelhecer trabalhando, nem para consumir... Cara que merda que é comprar... Eu não quero nada disso, nada que me oferecem.
-Você ta assim por causa de mulher né? A Ana te chifrou agora você ta de bode é?
-Não tem nada a ver com isso, eu não me importo com isso você tá ligado.
Eu precisava descartar possibilidades, diferente do que a TV ensina não é muito fácil salvar uma vida, ainda mais quando você nem tem certeza se ela deve ser salva. Eu bebi um gole da minha cerveja e continuei meu interrogatório com meu amigo suicida, torcendo pra que ele não me convencesse a pular.
-Você não quer mais estudar?
-Estudar é uma merda.
-É...
-Viu, aposto que nem você sabe por que você está vivo.

Agente estava numa festa, em algum apartamento. Nem sei como cheguei lá. Tinha uns conhecidos dentro da sala, mas a porta de vidro impedia que eles ouvissem nossa conversa, era melhor assim. Acho que nenhum deles iria entender, o melhor argumento anti suicida deles devia ser a vida é bonita. É bonita e chata. Como essas gurias que não têm importância.

-Você vai viver mais que vinte anos pra quê?- ele olhou no fundo dos meus olhos enquanto perguntava, meus ossos se gelaram- pra ter um seguro de vida? Dirigir, que merda é dirigir? Pra ter filhos? Pra que mais gente se fodendo no mundo? Pra evitar o aquecimento global? Descobrir a cura do câncer? Oras o mundo que se foda cara! Se eu não vou ser feliz pra que o mundo vai existir? Por que eu vou mijar durante o banho pra economizar agua? Por que eu vou votar? Comer? Vomitar o que como pra me manter magro? Pra que comprar um carro? Uma moto? Um tênis de trezentos paus? Um tênis de cinqüenta? Assistir novela? Pr aque ver novela? Ver vidas emocionantes já que eu não posso ter uma? Hein? Me contentar com um empreguinho de merda enquanto meu corpo apodrece? Virar carne podre enquanto espero conhecer Deus? Quero que se foda! Quero que se foda as bebedeiras! Quero que se foda as garotas! A masturbação! Por que é só isso que nos resta no fim. Bater punheta pra se alegrar, por enquanto por que dizem que o cigarro vai nos deixar broxa.
Depois desse monólogo decidi que realmente não o podia impedir, observei o pessoal da sala, de quem era o apartamento mesmo? Eles fumavam num narguile, nenhum deles nem ligava se fossemos viver. Ou eles nem reparavam, ou eram indiferentes, eu também não me importava com eles, só com o meu amigo suicida. Ele se levantou subiu no parapeito e abriu os braços.
-Morrer cara! Deixar de existir! Sem RG, CPF, endereço, ou e-mail. Eu sinto que se eu me libertar da vontade de viver vou finalmente ser livre.
- Bom cara... Eu não tenho mais nada pra fazer mesmo. Vou com você. - Eu me levantei da cadeira que estava bebi o ultimo gole da cerveja soltei a garrafa, e subi no parapeito ao lado dele.
- É isso ai... - seu rosto tinha um sorriso desesperado.
Quando eu olhei pra sala pra me despedir daqueles babacas com um xingamento, eu vi que eles repararam na nossa intenção e resolveram nos salvar, felizmente a porta estava trancada. Eles gritavam: “não! Não! Não!”. Nós gargalhávamos: “ SIM SIM SIM” era uma cena engraçada, um deles gritou “meus pais vão me matar” e outro, um cara bem grande acabou arrebentando a porta e começou a correr como um touro em nossa direção. Tava na hora.
- FODAM-SE os cartões de crédito!- Gritou meu amigo libertador.
- FODA_SE a revolução! - Eu gritei
E pulamos de costas. Soltamos nossos corpos no abismo da libertação, a avenida fazia barulho lá fora. Os carros buzinavam.
O chão era duro.
Apareceram as cabeças desesperadas.
Era o primeiro andar, não houve morte, as pessoas da festa viram que estavam sendo idiotas. Eu comecei a rir, meu amigo começou a rir. Ninguém morre pulando do primeiro andar, havia algum sangue em nós, mas era mínimo. Riamos loucamente, nunca havia sido tão alegre.
-Seus putos de merda!- O grandalhão xingou.
-Seus... Seus... Viados! - Xingou o dono do Apartamento
Eles cuspiam em nós, umas garotas que estavam junto xingavam mas eu só ouvia a rua, e só queria rir. Rir muito.
Eles entraram dizendo coisas como “ninguém sabia que andar que era?” “que dois pirados”...
Meu amigo virou pra mim e disse:
-Acho que quebrei meu braço.
-Mas agora você é livre.
Rimos mais e mais.

O dia em que Mauro Filho saiu da linha.

-Vamos gravar em: ...Cinco... quatro... três...
-Não espera... Quero mais uma dose antes...
- É a quarta Mauro. Assim você vai ficar bêbado.
- é tudo que eu queria...
Mauro sorve mais uma dose de uísque tão rápido quanto pôde. Ele sabe que aquele uísque está recheado de água, mas tanto faz. Tudo nessas festas é falso. Inclusive aquele cabelo da próxima entrevistada. Ah como ele odiava aquelas peruas, na verdade odiava a todos, principalmente quem usava jóias de ouro 18 quilates. Ele nem sabia o que era quilate. Mas odiava essa palavra, dezoito vezes então... Mas o show tem que continuar, e alguém têm que pagar o aluguel, então ele foi em direção a mais uma entrevistada da noite.
Qual era o nome mesmo? Tanto faz elas sempre são iguais, os nomes são no diminutivo, e os maridos são coronéis, banqueiros, empresários, o topo da cadeia alimentar, consumidores quartenários pra cima, homens de bens, pançudos, com anéis de ouro 18 quilates nos dedos mínimos. Aqueles anéis são mais insuportáveis que os colares das mulheres. Lurdinha! Esse era o nome. Talvez não fosse, mas tanto faz. O importante era ele sorrir e falar besteiras.
Mauro pegou o microfone, olhou para a câmera, o diretor contou de cinco a um. E o espetáculo começou.
- Converso hoje com essa maravilhosa mulher. Que além de fashion, suuper linda, é também preocupada com as causas sociais, pois é uma das organizadoras desse evento que vai arrecadar doações para a ONG: “pelo direito de sonhar”. – Ele já não agüentava mais mentir, não podia suportar mais a vida assim, seu sorriso era só falsidade- Querida como você tem tempo de se manter linda, e ainda organizar um megaevento como esse?
- Ai Maurinho, brigada... Sabe como é né? A gente não tem tempo pra tudo, pra isso tinha que ser duas, então tem que delegar. Aí hoje eu pude contar com minha maravilhosa assessora, a Alessandra, que agora deve estar em casa cuidando do filhote, né amiga? Então eu ajudei mais financeiramente. – Ou seja, ela só levou o nome...
- E por falar em assessores, aquele assessor do seu marido que liberou uma doação de cinqüenta milhões para sua ONG veio hoje contribuir mais para as crianças?
-Ai Mauro. Já disse que não gosto de falar disso. – Seu rosto, que era bronzeado artificialmente, empalideceu - aquilo foi uma funcionária mal intencionada, a justiça vai resolver esse problema, mas eu não tive nada com isso.
- Essa é a mesma justiça que ignorou a chacina de crianças feita por policiais no estado do seu marido, quando ele era governador? São essas crianças que sua ONG ajuda?
- Oh Maurinho... Pára com isso... Eu já disse que não me envolvo em política, e não quero falar sobre isso... Vou embora... - Ela se afasta assustada e tremendo, mas continua com um sorriso na cara, como se a pele tantas vezes esticadas não a deixasse mudar de rosto.
Mauro se vira para a câmera, sua boca desenha um sorriso enorme, seus olhos brilham como nunca.
- Bom acabamos de ouvir Lurdinha, a puta de luxo do ex-governador Azevedo, como vocês vêem a causa dela pelas crianças é tão falsa quanto os peitos, ou as jóias, ou tudo nessa festa, vamos ver o que mais cai fácil aqui.
O diretor, que estava atrás da câmera enfurecido & histérico, manda o câmera desligar a máquina e corre pra cima de Mauro – Mauro seu filho da puta, assim você destrói meu programa, vai agora se retratar com a Lurdinha seu merda. Ou então eu vou foder você...
Mauro soltou uma risada alta, um riso que fez o diretor ficar paralisado de medo. Depois ele socou o nariz do diretor que caiu de costas no salão esguichando sangue pelas narinas, e pegou a câmera.

Mauro começou a correr com a câmera em mãos, se jogava no chão filmando embaixo dos vestidos das madames, dava closes nas caras de deputados quando eles iam engolir algum aperitivo do Buffet. Mauro filmou Glórinha, a socialite eleita por duas vezes a dama do século, cagando. Filmou Dona Lúcia transando com o coronel Adernoval, marido da melhor amiga de dona Lúcia, na sala de música.
Filmou tudo que havia de podre naquelas festas, filmou tudo que havia de engraçado ou bizarro entre aqueles homens ricos e suas esposas-troféu
Dançarinas de axé que se aposentam aos 30, ele filmou e as chamou de putas. Ele contou fofocas sobre todos que estavam na festa, Mauro sabia de tudo.
Mas Mauro, o paladino da verdade, não pôde mostrar suas tomadas dos excrementos bem vestidos. Quando tentava escapar da festa, depois de caminhar por cima de uma mesa e chutando caviar em todos os convidados, e derrubar as doze estátuas de gelo que enfeitavam o saguão. Logo após Mauro transformar a festa em um CAOS, ele foi pego por todos aqueles homens ricos acompanhados das mulheres-troféu.
- Mauro meu menino, eu gostava tanto de você, por que nos dar esse trabalho? – quem perguntava era Coronel Humberto, dono de terras até onde a vista alcança e de mais de mil cabeças de gente.
-Por quê? Por quê? Porque vocês são uns falsos, uns desgraçados, eu não agüento mais esse monte de mentira! Isso tudo fede! Vocês fedem!
- Bom o que vai feder agora é seu cadáver. Mas não se preocupe ninguém vai assistir ao que você filmou.
Eles amarraram as mãos do jornalista com seda indiana. Eles formaram uma fila mantendo o apresentador no meio de uns cinco coronéis. Começaram a andar e levaram o insano Mauro para uma escadaria. Um corredor. Eles subiram e subiram e subiram. Ninguém respondia às perguntas de mauro só subiam. Marchando em um ritmo uníssono.
Quando chegaram ao terraço do prédio onde a festa acontecia mauro viu um mastro com um cordão de ouro amarrado. Como se fosse uma forca.
Mauro percebeu o que ia acontecer.
- Não! Vocês não podem fazer isso eu sou um homem público. Meu diretor sabe que eu estava na festa.
- Eu sei Mauro. – O Diretor estava com papel higiênico estancando o sangue do nariz. Ele estava no meio da multidão- Você tem que tomar cuidado com o que diz.
Dois empresários bem sucedidos pegaram Mauro pelos braços. Ele tentava escapar, mas as mãos eram fortes. Mauro se debatia feito uma enguia. Mas não conseguia escapar. Puseram aquela corda feita de ouro, o ouro que Mauro odiava, envolta do pescoço.
- Pelamordedeus! Piedade!
O rei das celebridades gritava e gritava. Um coronel começou a puxar o outro lado da corda que apertou o pescoço de mauro. Ele estava ficando sem ar. Seus pés já não tocavam mais o chão. Ele se agitava. O colar dourado o asfixiava. Ele olhou para o rosto dos homens ricos, as mascaras não iriam cair. Olhou para as mulheres-troféu, sempre a mesma cara. Olhou pro seu diretor, vingativo de merda. Sua forca 18 quilates fez sua cabeça parecer que iria explodir. Ele não conseguia mais gritar. Mauro estava morrendo. Suas pernas não se debatiam.
Quando o amigo dos ricos e famosos parou de se mexer, todos os homens ricos suas amadas desceram voltaram para a festa. Foi uma noite linda, com fogos ao final e tudo mais. E tudo que souberam os espectadores, é que o programa Mauro Filho iria mudar de apresentador.

quarta-feira, dezembro 30

O Ciclista.

Ele andava de bicicleta. Pedalava o mais rápido o possível. Ia contra o vento. Pedalava cada vez mais e mais. Ele precisava fugir de algo, precisava chegar em algum lugar, mas não havia muita certeza de nada em sua mente. O mundo se tornara tão confuso. Tudo dava tanto trabalho nos últimos dias e ele só queria pedalar. Ventava muito forte. As nuvens se formavam escurecendo o céu.
Era fim de tarde, ele chegou à praia. As pessoas voavam para longe, carregadas pelos guardas-sóis. Ele continuava a pedalar mais e mais, sempre contra o vento e os pingos de chuva batiam forte contra o seu rosto. A chuva aumentava mais e mais. O vento aumentava mais e mais, arrastando as pessoas para longe do chão. O mar fazia ondas cada vez mais fortes, cada vez maiores. Ele só queria pedalar, ir para longe daquele mundo, ir para longe das pessoas.
Suas pernas já doiam, mas ele pedalava cada vez mais. Ele ia contra o vento que varria toda a areia da praia. As pessoas já haviam voado para longe. Mesmo sozinho ele não parava, pois, a confusão estava em sua mente. Ele queria fugir de seus pensamentos. Ele precisava pedalar até sua mente parar de imaginar, então ele pedalava mais. A chuva já era bem forte e no oceano apareciam relâmpagos enormes. Ele pensou em ser atingido por um raio, seria ideal para parar de pensar. Os raios faziam muito barulho. As ondas faziam muito barulho. O pedal girando rangia um barulho quase alto. A chuva fazia muito barulho.
Ele pedalou, pedalou, pedalou. Chegou em algum lugar onde o vento erguia a areia formando quase muros. Pedalar ficava cada vez mais difícil. O vento era cada vez maior. Ele ouviu um grande barulho, algo como um raio. Ele desmaiou.
Quando acordou o vento parara. A chuva parara. O mar estava mais calmo. Seus pensamentos pararam. O pedalar parou. Tudo estava quieto. Estava escuro. Ele tinha um galo na cabeça. Não fora um raio mas sim um guarda-sol voador que o acertara, que o fez parar de pensar. Ele ergueu a bicicleta e começou a andar para a casa, mas ele ainda não tinha muita certeza por onde andava, nem pra onde ia, mas não pensar já era um bom começo.

sexta-feira, dezembro 25

Diálogo.

- Olá
- E ai
...
- Tudo bem?
- Eu tô.
...
- Tá o que?
- Sei lá, estou e só.
- Está? Está o que cacete?
- Eu não sei, só sei que tô.
- Você tá bem?
- Não.
...
- Você tá mal?
- Também não.
- Se tiver mal, me conta cara. Eu sou seu amigo, pode contar comigo.
- Cara, eu não ESTOU mal. Eu só ESTOU, ESTOU aqui e mais nada.
- Você é muito complicado. Invés de responder se tá bem ou não você fica filosofando.
- É por que eu não to bem nem nada. Eu só ESTOU aqui, e já basta. Eu existo, isso é lindo, é suficiente.
...
- Então... Você fica feliz em existir?
...
- Acho que sim.
- Você está existindo agora?
- To né...
- Então você está feliz cacete, logo você está bem. Está bem por estar.
...
- Acho que é isso.
....
-... Legal...
- E você?
- Eu o que?
- Tudo bem?
-... Não sei.
- Como NÃO SABE??
- Sei lá, com esse papo todo, eu esqueci.
- Ah... Deve ser.
...
- Bom eu me vou.
- Eu também.
- Até sábado.
- Até.

segunda-feira, dezembro 14

Insonia.

Há pessoas andando pelo telhado, e graças aos passos eu não consigo durmir. Três ou quatro da madrugada. A chuva bate na janela, e as pessoas andam sobre o teto. Devem ser gatos fornicando. Quem sabe? Eu só queria dormir.
Me levanto e vou até a janela. Respiro perto do vidro, espero as pessoas do teto pularem, quebrarem a janela e me matarem. Tiros iam ser sem graça. Talvez facadas deixariam o quarto sujo de sangue, os cacos de vidro ficariam vermelhos. Mas eles não descem. O vidro da janela não se quebra, só fica embaçado com minha respiração. O sangue não escorre.
Tem um prédio a umas três ou quatro quadras. Ele tem as luzes acesas que vão se apagando aos poucos. As luzes são apagadas enquanto espero os amantes do teto me matarem, as luzes apagam, e apagam, e apagam. Só uma fica acesa, é uma luz vermelha, o céu está vermelho, na verdade laranja. A juz da janela do prédio é mais pra laranja também e lá deve ter alguém acordado, andando sob o teto de outro.
Os gatos assassinos param de andar. Eu me deito na cama esperando que eles venham. Mas eles só estão afim de me torturar, parece que hoje não vão me matar. Eu queria descobrir que andar fica a luz acesa, onde há gente iluminada. É no quinto andar, ou por aí.
A chuva pára, e cai, pára, e cai, cai e diminui, agora tem poucas gotas por segundo. A chuva molha os telhados, daqui e dos prédio. A chuva molha as pessoas que andam pelos tetos. Molham meus assassinos que estão em silêncio, quietos e molhados eles vão desistir. Mas eu não vou dormir. Eu nunca durmo, por que eu sei que eles querem me matar, e eu quero estar acordado. Elas vão embora hoje, mas voltarão na proxima chuva. E eu não vou dormir.