Estávamos em uma sacada. A avenida fazia barulho lá embaixo. Ele olhava fixamente pra baixo, ele me disse que iria pular.
-Por que você pularia?- Eu tinha alguns motivos, mas não se deixa um amigo se matar sem nem perguntar o porquê.
-Por que não? Eu sempre quis voar.
-Ah, desejo é muito pouco pra se matar.
-Mas não é só isso.
-Então me dá mais motivo cacete. -ele sempre enrolava demais para dar uma .
-Cara por que você continua vivo? - Todo suicida responde uma pergunta com outra?
-Sei lá cara, pela bebida, pelas garotas...
-Isso tudo é muito vago, umas diversõezinhas nos fins de semanas, só por isso não vale a pena envelhecer. Nem envelhecer trabalhando, nem para consumir... Cara que merda que é comprar... Eu não quero nada disso, nada que me oferecem.
-Você ta assim por causa de mulher né? A Ana te chifrou agora você ta de bode é?
-Não tem nada a ver com isso, eu não me importo com isso você tá ligado.
Eu precisava descartar possibilidades, diferente do que a TV ensina não é muito fácil salvar uma vida, ainda mais quando você nem tem certeza se ela deve ser salva. Eu bebi um gole da minha cerveja e continuei meu interrogatório com meu amigo suicida, torcendo pra que ele não me convencesse a pular.
-Você não quer mais estudar?
-Estudar é uma merda.
-É...
-Viu, aposto que nem você sabe por que você está vivo.
Agente estava numa festa, em algum apartamento. Nem sei como cheguei lá. Tinha uns conhecidos dentro da sala, mas a porta de vidro impedia que eles ouvissem nossa conversa, era melhor assim. Acho que nenhum deles iria entender, o melhor argumento anti suicida deles devia ser a vida é bonita. É bonita e chata. Como essas gurias que não têm importância.
-Você vai viver mais que vinte anos pra quê?- ele olhou no fundo dos meus olhos enquanto perguntava, meus ossos se gelaram- pra ter um seguro de vida? Dirigir, que merda é dirigir? Pra ter filhos? Pra que mais gente se fodendo no mundo? Pra evitar o aquecimento global? Descobrir a cura do câncer? Oras o mundo que se foda cara! Se eu não vou ser feliz pra que o mundo vai existir? Por que eu vou mijar durante o banho pra economizar agua? Por que eu vou votar? Comer? Vomitar o que como pra me manter magro? Pra que comprar um carro? Uma moto? Um tênis de trezentos paus? Um tênis de cinqüenta? Assistir novela? Pr aque ver novela? Ver vidas emocionantes já que eu não posso ter uma? Hein? Me contentar com um empreguinho de merda enquanto meu corpo apodrece? Virar carne podre enquanto espero conhecer Deus? Quero que se foda! Quero que se foda as bebedeiras! Quero que se foda as garotas! A masturbação! Por que é só isso que nos resta no fim. Bater punheta pra se alegrar, por enquanto por que dizem que o cigarro vai nos deixar broxa.
Depois desse monólogo decidi que realmente não o podia impedir, observei o pessoal da sala, de quem era o apartamento mesmo? Eles fumavam num narguile, nenhum deles nem ligava se fossemos viver. Ou eles nem reparavam, ou eram indiferentes, eu também não me importava com eles, só com o meu amigo suicida. Ele se levantou subiu no parapeito e abriu os braços.
-Morrer cara! Deixar de existir! Sem RG, CPF, endereço, ou e-mail. Eu sinto que se eu me libertar da vontade de viver vou finalmente ser livre.
- Bom cara... Eu não tenho mais nada pra fazer mesmo. Vou com você. - Eu me levantei da cadeira que estava bebi o ultimo gole da cerveja soltei a garrafa, e subi no parapeito ao lado dele.
- É isso ai... - seu rosto tinha um sorriso desesperado.
Quando eu olhei pra sala pra me despedir daqueles babacas com um xingamento, eu vi que eles repararam na nossa intenção e resolveram nos salvar, felizmente a porta estava trancada. Eles gritavam: “não! Não! Não!”. Nós gargalhávamos: “ SIM SIM SIM” era uma cena engraçada, um deles gritou “meus pais vão me matar” e outro, um cara bem grande acabou arrebentando a porta e começou a correr como um touro em nossa direção. Tava na hora.
- FODAM-SE os cartões de crédito!- Gritou meu amigo libertador.
- FODA_SE a revolução! - Eu gritei
E pulamos de costas. Soltamos nossos corpos no abismo da libertação, a avenida fazia barulho lá fora. Os carros buzinavam.
O chão era duro.
Apareceram as cabeças desesperadas.
Era o primeiro andar, não houve morte, as pessoas da festa viram que estavam sendo idiotas. Eu comecei a rir, meu amigo começou a rir. Ninguém morre pulando do primeiro andar, havia algum sangue em nós, mas era mínimo. Riamos loucamente, nunca havia sido tão alegre.
-Seus putos de merda!- O grandalhão xingou.
-Seus... Seus... Viados! - Xingou o dono do Apartamento
Eles cuspiam em nós, umas garotas que estavam junto xingavam mas eu só ouvia a rua, e só queria rir. Rir muito.
Eles entraram dizendo coisas como “ninguém sabia que andar que era?” “que dois pirados”...
Meu amigo virou pra mim e disse:
-Acho que quebrei meu braço.
-Mas agora você é livre.
Rimos mais e mais.
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