segunda-feira, janeiro 18

O dia em que Mauro Filho saiu da linha.

-Vamos gravar em: ...Cinco... quatro... três...
-Não espera... Quero mais uma dose antes...
- É a quarta Mauro. Assim você vai ficar bêbado.
- é tudo que eu queria...
Mauro sorve mais uma dose de uísque tão rápido quanto pôde. Ele sabe que aquele uísque está recheado de água, mas tanto faz. Tudo nessas festas é falso. Inclusive aquele cabelo da próxima entrevistada. Ah como ele odiava aquelas peruas, na verdade odiava a todos, principalmente quem usava jóias de ouro 18 quilates. Ele nem sabia o que era quilate. Mas odiava essa palavra, dezoito vezes então... Mas o show tem que continuar, e alguém têm que pagar o aluguel, então ele foi em direção a mais uma entrevistada da noite.
Qual era o nome mesmo? Tanto faz elas sempre são iguais, os nomes são no diminutivo, e os maridos são coronéis, banqueiros, empresários, o topo da cadeia alimentar, consumidores quartenários pra cima, homens de bens, pançudos, com anéis de ouro 18 quilates nos dedos mínimos. Aqueles anéis são mais insuportáveis que os colares das mulheres. Lurdinha! Esse era o nome. Talvez não fosse, mas tanto faz. O importante era ele sorrir e falar besteiras.
Mauro pegou o microfone, olhou para a câmera, o diretor contou de cinco a um. E o espetáculo começou.
- Converso hoje com essa maravilhosa mulher. Que além de fashion, suuper linda, é também preocupada com as causas sociais, pois é uma das organizadoras desse evento que vai arrecadar doações para a ONG: “pelo direito de sonhar”. – Ele já não agüentava mais mentir, não podia suportar mais a vida assim, seu sorriso era só falsidade- Querida como você tem tempo de se manter linda, e ainda organizar um megaevento como esse?
- Ai Maurinho, brigada... Sabe como é né? A gente não tem tempo pra tudo, pra isso tinha que ser duas, então tem que delegar. Aí hoje eu pude contar com minha maravilhosa assessora, a Alessandra, que agora deve estar em casa cuidando do filhote, né amiga? Então eu ajudei mais financeiramente. – Ou seja, ela só levou o nome...
- E por falar em assessores, aquele assessor do seu marido que liberou uma doação de cinqüenta milhões para sua ONG veio hoje contribuir mais para as crianças?
-Ai Mauro. Já disse que não gosto de falar disso. – Seu rosto, que era bronzeado artificialmente, empalideceu - aquilo foi uma funcionária mal intencionada, a justiça vai resolver esse problema, mas eu não tive nada com isso.
- Essa é a mesma justiça que ignorou a chacina de crianças feita por policiais no estado do seu marido, quando ele era governador? São essas crianças que sua ONG ajuda?
- Oh Maurinho... Pára com isso... Eu já disse que não me envolvo em política, e não quero falar sobre isso... Vou embora... - Ela se afasta assustada e tremendo, mas continua com um sorriso na cara, como se a pele tantas vezes esticadas não a deixasse mudar de rosto.
Mauro se vira para a câmera, sua boca desenha um sorriso enorme, seus olhos brilham como nunca.
- Bom acabamos de ouvir Lurdinha, a puta de luxo do ex-governador Azevedo, como vocês vêem a causa dela pelas crianças é tão falsa quanto os peitos, ou as jóias, ou tudo nessa festa, vamos ver o que mais cai fácil aqui.
O diretor, que estava atrás da câmera enfurecido & histérico, manda o câmera desligar a máquina e corre pra cima de Mauro – Mauro seu filho da puta, assim você destrói meu programa, vai agora se retratar com a Lurdinha seu merda. Ou então eu vou foder você...
Mauro soltou uma risada alta, um riso que fez o diretor ficar paralisado de medo. Depois ele socou o nariz do diretor que caiu de costas no salão esguichando sangue pelas narinas, e pegou a câmera.

Mauro começou a correr com a câmera em mãos, se jogava no chão filmando embaixo dos vestidos das madames, dava closes nas caras de deputados quando eles iam engolir algum aperitivo do Buffet. Mauro filmou Glórinha, a socialite eleita por duas vezes a dama do século, cagando. Filmou Dona Lúcia transando com o coronel Adernoval, marido da melhor amiga de dona Lúcia, na sala de música.
Filmou tudo que havia de podre naquelas festas, filmou tudo que havia de engraçado ou bizarro entre aqueles homens ricos e suas esposas-troféu
Dançarinas de axé que se aposentam aos 30, ele filmou e as chamou de putas. Ele contou fofocas sobre todos que estavam na festa, Mauro sabia de tudo.
Mas Mauro, o paladino da verdade, não pôde mostrar suas tomadas dos excrementos bem vestidos. Quando tentava escapar da festa, depois de caminhar por cima de uma mesa e chutando caviar em todos os convidados, e derrubar as doze estátuas de gelo que enfeitavam o saguão. Logo após Mauro transformar a festa em um CAOS, ele foi pego por todos aqueles homens ricos acompanhados das mulheres-troféu.
- Mauro meu menino, eu gostava tanto de você, por que nos dar esse trabalho? – quem perguntava era Coronel Humberto, dono de terras até onde a vista alcança e de mais de mil cabeças de gente.
-Por quê? Por quê? Porque vocês são uns falsos, uns desgraçados, eu não agüento mais esse monte de mentira! Isso tudo fede! Vocês fedem!
- Bom o que vai feder agora é seu cadáver. Mas não se preocupe ninguém vai assistir ao que você filmou.
Eles amarraram as mãos do jornalista com seda indiana. Eles formaram uma fila mantendo o apresentador no meio de uns cinco coronéis. Começaram a andar e levaram o insano Mauro para uma escadaria. Um corredor. Eles subiram e subiram e subiram. Ninguém respondia às perguntas de mauro só subiam. Marchando em um ritmo uníssono.
Quando chegaram ao terraço do prédio onde a festa acontecia mauro viu um mastro com um cordão de ouro amarrado. Como se fosse uma forca.
Mauro percebeu o que ia acontecer.
- Não! Vocês não podem fazer isso eu sou um homem público. Meu diretor sabe que eu estava na festa.
- Eu sei Mauro. – O Diretor estava com papel higiênico estancando o sangue do nariz. Ele estava no meio da multidão- Você tem que tomar cuidado com o que diz.
Dois empresários bem sucedidos pegaram Mauro pelos braços. Ele tentava escapar, mas as mãos eram fortes. Mauro se debatia feito uma enguia. Mas não conseguia escapar. Puseram aquela corda feita de ouro, o ouro que Mauro odiava, envolta do pescoço.
- Pelamordedeus! Piedade!
O rei das celebridades gritava e gritava. Um coronel começou a puxar o outro lado da corda que apertou o pescoço de mauro. Ele estava ficando sem ar. Seus pés já não tocavam mais o chão. Ele se agitava. O colar dourado o asfixiava. Ele olhou para o rosto dos homens ricos, as mascaras não iriam cair. Olhou para as mulheres-troféu, sempre a mesma cara. Olhou pro seu diretor, vingativo de merda. Sua forca 18 quilates fez sua cabeça parecer que iria explodir. Ele não conseguia mais gritar. Mauro estava morrendo. Suas pernas não se debatiam.
Quando o amigo dos ricos e famosos parou de se mexer, todos os homens ricos suas amadas desceram voltaram para a festa. Foi uma noite linda, com fogos ao final e tudo mais. E tudo que souberam os espectadores, é que o programa Mauro Filho iria mudar de apresentador.

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