Quando a notícia da construção da avenida chegou ao bairro pela primeira vez foi uma barulheira tremenda. Todas velhas, fofoqueiras e desesperadas, tinham a certeza de que suas casas seriam derrubadas. Todos os homens, gananciosos e sonhadores, pensavam em como lucrar com o projeto, querendo montar um comércio que cresceria enormemente.
A notícia se espalhou. A cidade realmente crescia. Às vezes, ao verem uma meia dúzia de trabalhadores da prefeitura, uma vizinha comentava com a outra (ou sozinha).
- Tá vendo? Ó os homi lá. Já tá começando... Meu neto viu o mapa... Vai passá bem aqui em casa... Quem não vende o prefeito mata...
A outra concordava. Ou a que falou concordava consigo mesma. E voltava a varrer a calçada. Sempre de olho naqueles de uniforme azul... Dessa vez só taparam o buraco... Na próxima a avenida começa.
Uma vez passou por lá um homem bem vestido. Grã fino de belo carro. Na época o tráfico era fraco e rico não passava pelo bairro. Todos saíam no portão pra conferir. Quando ficou-se sabendo que era dono de um super, a certeza bateu na testa: Amanhã começa a avenida.
Mulheres, grandes, pequenas, gordas e dos outros tipos, corriam arrumando a mudança... Não pode deixar pra depois, se não eles derrubam tudo com nóis junto.... O filho que tinha visto o mapa na prefeitura, que se dizia cheio de contatos, pedia pra mãe calma... Eles iriam mandar carta qualquer coisa...
-Arre! Ouvir moleque agora? Quando manda carta a avenida vai ta aí.
O velho louco do fim da rua, aquele que punha fogo em casa só pra ver os bombeiros, gritava pelo campo de futebol, é o fim! É o fim! Os meninos sem camisa jogavam bola e empinavam pipa e nem se importavam.
A avenida seria pra daqui dois dias, disse alguém. A prefeitura vai pagar pelas casas menos que valem, a metade, disse outro. Com meu primo foi assim, daí parou na favela, disse o terceiro.
Ah! Não pode. Tem gente que vive aqui faz mais de uma vida. Não pode....-falou o que tinha o bar.
Não pode mesmo. Quem eles pensam que nóis é? Bicho? Ah ta errado isso...- gritou aquela dona da casa verde...
Nem a pau que vão tirar minha casa! Mato cada um que tentá....- Bradou aquele que o filho é policia...
As barricadas foram erguidas. As tochas acesas. Os moradores unidos. Seu Paulo, o que tentou impedir que a bagunça acontecesse, foi espancado. Todos estavam prontos pra defenderem o lar. A bela casinha onde criaram cada filho. Ninguém de fora entra, ninguém de dentro sai. Pichado, a pincel nos cartazes.
Ao saberem da revolta, e não entenderem o motivo, pois a tal da avenida nunca existiu, nem existira. Ninguém ligava praquele bairro velho, os que governavam a cidade mandaram a força policial para manter a ordem.
Foi o fim do bairro.
As senhoras tiveram suas dentaduras arrancadas à borrachadas. Estavam mais desesperada que sempre.
Aquele que o filho era policia apanhou do próprio sangue. Chorando tentou fugir pra casa, morreu na entrada, o filho cumpria ordens.
O dono do bar foi pego preparando molotov de velho barreiro. Teve as pernas quebradas pela fúria policial.
Aquela dona, que morava na casa verde, pintou a casa de vermelho com o sangue que voou de sua testa. Cinco pontos levaria se recebesse socorro.
Aquele louco, aquele do fim da rua, pôs fogo em tudo louco pra admirar aquela bela luz vermelha chegar. Mas só o azul terrível estava lá pra espancar.
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