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sábado, janeiro 8

um quadro pitoresco.

- esse é jesus?
- parece né?
- ele tem uma boceta?
- é mais uma vagina... mas se você prefere ver assim...
- por que você pinta isso? seu desespero é moda em 73...
- ah.. não encontrei desespero melhor... esse tal de deus ainda me incomoda bastante, quero acertar uns golpes neles antes dele vencer.
- você pinta bem... mas não gosto disso... acho errado... me dá uma raiva....
- você é religioso?
o pintor gargalhou. o outro cara ficou muito irritado.  puta ofensa a ele aquilo. com uma espátula se vingou em nome de cristo. abriu um buraco no pescoço do pintor. um grande buraco que apagou o jesus bocetudo esguichando sangue em toda tela.
depois. no marco da cidade. lá onde tem aquela catedralzinha, crucificou o defunto. assim ninguém mais macularia a alma de seu deus.

logo na manhã uma multidão se juntou em volta do crucificado, tanto pessoas, quanto urubus, beatas que iam pra missa, vagabundos que iam pra casa e vagabundos que não tinham mais casa, empregados que ia atrás de empregos, todos em olhando calado. um jesus sem pinto. em carne e osso. não uma pintura iconoclasta. uma real intervenção.
uns afirmaram ser o novo messias. impediram os homens fardados de levar o corpo de cristo. todos esperavam pela ressurreição.
velavam durante noite e dia, com velas, véus e ladainha.
durante três dias expulsaram os urubus, impediram os carniceiros animais de se alimentarem da hóstia real. uma puta bagunça que a TV cobria em rede nacional. gente chegava emocionada, mas no deus morto ninguém encostava. ninguém também comentava a falta de caralho, um jornal tapava o membro que faltava. um jornal que surgira ninguém sabe de onde.
mas no terceiro dia nada. nem no quarto. e depois do quinto o cadáver foi recolhido, sem partes que os urubus arrancaram e fedia, fedia como um defunto fede.
ele não ressuscitou. e dessa história ninguém nunca mais lembrou.

terça-feira, dezembro 21

Um bom cinzeiro

- Eu queria um crânio de bebê...
- Pra quê? - perguntou o marido.
- Acho bonito caveiras... De bebê pequenininho... Ia ser muito bonitinho de por na mesa de casa...
- verdade né... Ficaria legal.. Mas recém-nascido tem aquele buraco na cabeça...
- que buraco?
- Não lembro o nome, mas é um buraco... Acho que chama cabeça mole... Moleira... Acho que não dá tempo de produzir toda cobertura.. Só com uns cinco anos essa moleira some...
- Ah é? Que coisa... Todo mundo nasce com a cabeça aberta... Bonito isso heim?
- Horrível... Parece frase de quem vai pra festa rave e fuma maconha.
Ele disse apagando o cigarro na mesa. A cabeça do bebê dava um bom cinzeiro. Ainda mais se vier com a moleira... É esse o nome? Tanto faz... Pensou em engravidar a mulher agora, aí com uns sete meses  eles tiram, pegam o cadaverzinho, enterram o resto e tiram a cabeça, tiram a pele, a carne, lavam, e põem de cinzeiro. Ia ser bonito. Ninguém descobriria o neném morto. Sentiu um estranho prazer com aquela idéia. Matar uma vida que nunca existira. Acendeu mais um cigarro.
Ela voltavas da cozinha. Tinha ido pegar água.
- Acho que é uma boa. Posso procurar qualquer dia.
- O quê, amor?
- O crânio do bebê... Achei boa a idéia...
- Que papo é esse? Você ta estranho...
De novo? Por que ela fazia isso? Falava sobre alguma coisa e depois mudava e fingia que não lembrava de nada. Ah como ele odiava isso. Sentia medo da loucura daquela mulher. Uma vez ela quis come carne humana, quando ele se ofereceu para fatiar o vizinho ela rejeitou e vomitou quando ele contou o plano.
Muito louca ela andava. Ele fumava seu cigarro e pensava nisso. No medo. Como confiar e dormir ao lado dela? E aquela barriga que só aumentava. Talvez já tivesse o neném lá dentro. Realmente! Agora tem algum sentido aquele papo. As vontades estranha. Está grávida.
- Me entrega o bebê...
- O que?
- o da sua barriga caralho! Você esconde de mim. Não quer que eu tenha meu cinzeiro. Disse cheio de agressividade.
Ela sem entender se levanta e tenta se afastar. Mas é puxada pelos cabelos. chora compulsivamente. Tem medo daquele homem. Seu próprio marido que enlouquecera há uma mês mais ou menos. Ele bate a cabeça dela contra a TV. Está morta. Ou pelo menos não se mexe. A cabeça enfiada na tela. Parece uma cena do videodrome. Ele pensa um pouco no filme e busca um pé de cabra, dos pequenos, na caixa de ferramenta.


Há sangue por todos os lados. O cadáver com a cabeça de TV está estripado. Um fetozinho decapitado está no meio de tripas. Ele bate seu cigarro no crânio do bebê. Um craniozinho bem pequeninho e com a moleira aberta. Realmente é um belo enfeite, pensa.