Mostrando postagens com marcador Conto.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto.. Mostrar todas as postagens

sábado, janeiro 22

Summer times

Umas palmeiras, uma piscina no meio, pessoas em meio à água. Umas vozes comentam sobre como vive tal jogador, outras sobre como é feia a última que saiu do reality show. Crianças gritam e matam umas as outras num jogo de afogamento. Uns caras estão falando de um possível gay que nada. A trás desses caras está ela. Que é o que interessa.


Linda como uma explosão de um prédio, ela lê um livro azul. O personagem está enlouquecendo, ela está enlouquecendo, pelo menos assim acredita, todos estão enlouquecendo, filosofa.

Ela vê aquele cenário e não quer participar. Quer sair daquele mundo. Não consegue entender os diálogos, são sem sentido, sem noção. Todos são loucos que repetem frases sem nexo. Sem sexo, apesar de às vezes pornográficas. Se vê analisando tudo aquilo. Como se fosse melhor. Não é. Mas esse é seu problema, sabe que não há nada de especial com as pessoas e também não consegue entender por que lutar por tanta besteira. Por um tantinho de vida.

O porre das outras pessoas não tem beleza.

A babá passeando com os filhos dos homens não tem beleza, ou tem.

Os pensamentos em sua cabea são confusos.

Não há lógica no mundo. Não há lógica no cérebro.

A demolição de um edifício tem beleza

O livro termina, o último suspiro e a loucura do personagem. O mundo não termina. Ela sabe disso. Uma criança bate contra um bebedouro. Faz barulho. Sem ritmo. Com beleza. Sem beleza. Ela se sabe bonita, mas não quer que os outros saibam. Não vê beleza na beleza. O guri continua. As vozes continuam. Na água crianças mortas vivem, na terra pessoas vivas morrem. Só loucura se encontra no mundo.

Ela grita. Grita de medo e de ódio. Grita até a voz acabar, o menino parar, e o som apagar. Depois disso se joga na água. Cai como a demolição que acha tão bela. Cai esperando que depois só sobre destroços.

Volta pra respirar. O gay foi devorado pelos futeboleiros e as mães mataram as crianças, as babás se afogaram na privada. A água é vermelha. E o mundo está recuperando a lucidez. Ou, quem sabe, ficou louco de vez.

sábado, janeiro 8

um quadro pitoresco.

- esse é jesus?
- parece né?
- ele tem uma boceta?
- é mais uma vagina... mas se você prefere ver assim...
- por que você pinta isso? seu desespero é moda em 73...
- ah.. não encontrei desespero melhor... esse tal de deus ainda me incomoda bastante, quero acertar uns golpes neles antes dele vencer.
- você pinta bem... mas não gosto disso... acho errado... me dá uma raiva....
- você é religioso?
o pintor gargalhou. o outro cara ficou muito irritado.  puta ofensa a ele aquilo. com uma espátula se vingou em nome de cristo. abriu um buraco no pescoço do pintor. um grande buraco que apagou o jesus bocetudo esguichando sangue em toda tela.
depois. no marco da cidade. lá onde tem aquela catedralzinha, crucificou o defunto. assim ninguém mais macularia a alma de seu deus.

logo na manhã uma multidão se juntou em volta do crucificado, tanto pessoas, quanto urubus, beatas que iam pra missa, vagabundos que iam pra casa e vagabundos que não tinham mais casa, empregados que ia atrás de empregos, todos em olhando calado. um jesus sem pinto. em carne e osso. não uma pintura iconoclasta. uma real intervenção.
uns afirmaram ser o novo messias. impediram os homens fardados de levar o corpo de cristo. todos esperavam pela ressurreição.
velavam durante noite e dia, com velas, véus e ladainha.
durante três dias expulsaram os urubus, impediram os carniceiros animais de se alimentarem da hóstia real. uma puta bagunça que a TV cobria em rede nacional. gente chegava emocionada, mas no deus morto ninguém encostava. ninguém também comentava a falta de caralho, um jornal tapava o membro que faltava. um jornal que surgira ninguém sabe de onde.
mas no terceiro dia nada. nem no quarto. e depois do quinto o cadáver foi recolhido, sem partes que os urubus arrancaram e fedia, fedia como um defunto fede.
ele não ressuscitou. e dessa história ninguém nunca mais lembrou.

segunda-feira, março 29

Ponto final.

Sentado no banco do ônibus ele vomitava. O motorista não podia perceber. Vomitava escondido, com a cabeça abaixada entre os bancos. Se esforçava para não fazer barulho. Seu lado direito, braço e perna, estavam sujos com o vômito. Como chegou ali? Pra onde ia ônibus? Que bebedeira do caralho. Mais vômito.
O ônibus chacoalhava. Mais enjôo. Os outros passageiros não eram muitos. Rostos cansados. Não entendia nada. Vômito. Tosse. Quem tossiu? Um velho, bigode grosso. Já vira aquele velho antes. O ônibus chacoalhava. Não tinha nada em seus bolsos. Para onde o ônibus ia? A ressaca já batia.
Resolveu falar com o velho. Saber qual era o próximo ponto. O velho tossiu de novo. O enjôo diminuía.
- Que linha é essa?
- Se você não sabe, ta bem fodido garoto. - Riu por debaixo do bigode.
Braço e perna vomitados. Não lembrava de ter pegado o ônibus. O velho sentado, braços cruzados. Uma mulher do lado. Uma puta. Não parecia, mas ele sabia que era. No fundo todas são.Olhou para o velho.
- Onde você desce?
- Na minha parada.- Gargalhou.
Que merda! Já não tinha motivo pra se esconder do motorista. Vomitou no meio do corredor. Ninguém se virou. Ignoraram. Não seria expulso. O ônibus era tão esquisito quanto a sensação que sentia. O velho sorria sem mostrar os dentes. A puta sorria com lábios vermelhos. Ônibus branco. Ônibus chacoalhava. Bancos brancos. Tudo limpo demais, menos a parte vomitada.
Ele queria descer. Deu sinal. O ônibus ainda chacoalhava. Não parou. Braço e perna vomitados, agora os tênis também. Falar com o motorista. Que se foda ser expulso. Queria descer. O ônibus chacoalhava. Andar pelo corredor. Todas as pessoas eram conhecidas. Gente que trocara duas palavras. Dentre eles tinha um Junkie em crise de abstinência. Chorava, chorava. O velho tossia no fundo do ônibus.
A bebedeira passara. Agora tinha consciência plena. Só não entendia nada.
- Que linha é essa?
O motorista se virou. Não tinha rosto. Nem olhos. Nem boca. Um buraco onde seria o nariz. Caiu de susto ao ver o motorista. Em caso de emergência use o martelo para romper a janela. Não quebra. Não quebra. Que merda de busão é esse? Ninguém se importava com ele. Ninguém falava nada. Tosse. Choro. A puta ria. O martelo não arranhava o vidro. Merda de sistema de segurança.
Ele começou a chutar a porta. Tentava abrir. A puta o abraçou por trás, sua boca vermelha cochichou “ não adianta tentar, sua parada é o ponto final”. A mão massageando o pau. O cheiro forte do vômito. “Você só desce no ponto final”.
Atirou a puta para longe. Quem são vocês? Ninguém disse nada. Tosse. Choro. Abstinência. Gargalhada da boca vermelha. A cabeça dela sangrava. A dele também. Cheiro do vômito. Desmaiou.
Acordou. O ônibus cheio. Quente. Muito quente. Todos lugares ocupados. Tosse. Choro. Ele sentado em cima do vômito. Pra onde vai? Que merda de confusão! Lugar estranho. Estranho e móvel. Mas a paisagem não mudava. Agora ele percebeu que a paisagem não mudava, era tudo branco. Ônibus branco, cenário branco. Que dia mais esquisito. Viagem mais estranha.
Levantou. Sujo de vômito, fedia. Ônibus quente. O junkie chorava. O velho tossia. A puta ria. Um gordo comia. O ônibus rodava. Paisagem não mudava. Nunca parava. Ele queria falar com o motorista. Uma resposta logo.
- Pra onde a gente vai?
Aquela falta de rosto. Só um buraco no nariz. Uma respiração alta que vinha do centro da terra. O motorista puxou catarro. Um jato de catarro saído do buraco o acertou no rosto. Gritou. Aquilo grudou. O enjôo voltou. Precisava fugir dali. Agora nem enxergava. Corria tropeçando pelos bancos. Ninguém se importava.
Conseguiu se livrar de um pouco do catarro. Estava caído. Os pés da puta na sua cara. Estava sendo esmagado pelo salto alto. O salto entrou na boca. A puta pisava com força. Cortava o rosto. Diminuiu a pressão. Tirou o pé de cima. Abaixou, ela se aproximou do rosto cortado, o beijou. Deitados no corredor se beijavam. Ninguém se importava.
- Quando você desce?- ele perguntou se levantando.
- No meu ponto.
- Qual é?
- O ponto final.
O ônibus chacoalhava. O velho tossia. O rosto sangrava. Ele fedia. A puta riu e foi se sentar ao lado do velho. Ele sentou de volta em cima do vômito. Ao seu lado tinha um gordo comendo salgadinho. Comia desesperado. Rápido. Nojento. Engordurado. O velho tosse. O ônibus chacoalha. O junkie chora. A puta ri. O gordo come. Os outros passageiros já deviam estar mortos.
Sentado no banco do ônibus ele vomitava. Não tinha mais nada pra fazer.