segunda-feira, março 29

Ponto final.

Sentado no banco do ônibus ele vomitava. O motorista não podia perceber. Vomitava escondido, com a cabeça abaixada entre os bancos. Se esforçava para não fazer barulho. Seu lado direito, braço e perna, estavam sujos com o vômito. Como chegou ali? Pra onde ia ônibus? Que bebedeira do caralho. Mais vômito.
O ônibus chacoalhava. Mais enjôo. Os outros passageiros não eram muitos. Rostos cansados. Não entendia nada. Vômito. Tosse. Quem tossiu? Um velho, bigode grosso. Já vira aquele velho antes. O ônibus chacoalhava. Não tinha nada em seus bolsos. Para onde o ônibus ia? A ressaca já batia.
Resolveu falar com o velho. Saber qual era o próximo ponto. O velho tossiu de novo. O enjôo diminuía.
- Que linha é essa?
- Se você não sabe, ta bem fodido garoto. - Riu por debaixo do bigode.
Braço e perna vomitados. Não lembrava de ter pegado o ônibus. O velho sentado, braços cruzados. Uma mulher do lado. Uma puta. Não parecia, mas ele sabia que era. No fundo todas são.Olhou para o velho.
- Onde você desce?
- Na minha parada.- Gargalhou.
Que merda! Já não tinha motivo pra se esconder do motorista. Vomitou no meio do corredor. Ninguém se virou. Ignoraram. Não seria expulso. O ônibus era tão esquisito quanto a sensação que sentia. O velho sorria sem mostrar os dentes. A puta sorria com lábios vermelhos. Ônibus branco. Ônibus chacoalhava. Bancos brancos. Tudo limpo demais, menos a parte vomitada.
Ele queria descer. Deu sinal. O ônibus ainda chacoalhava. Não parou. Braço e perna vomitados, agora os tênis também. Falar com o motorista. Que se foda ser expulso. Queria descer. O ônibus chacoalhava. Andar pelo corredor. Todas as pessoas eram conhecidas. Gente que trocara duas palavras. Dentre eles tinha um Junkie em crise de abstinência. Chorava, chorava. O velho tossia no fundo do ônibus.
A bebedeira passara. Agora tinha consciência plena. Só não entendia nada.
- Que linha é essa?
O motorista se virou. Não tinha rosto. Nem olhos. Nem boca. Um buraco onde seria o nariz. Caiu de susto ao ver o motorista. Em caso de emergência use o martelo para romper a janela. Não quebra. Não quebra. Que merda de busão é esse? Ninguém se importava com ele. Ninguém falava nada. Tosse. Choro. A puta ria. O martelo não arranhava o vidro. Merda de sistema de segurança.
Ele começou a chutar a porta. Tentava abrir. A puta o abraçou por trás, sua boca vermelha cochichou “ não adianta tentar, sua parada é o ponto final”. A mão massageando o pau. O cheiro forte do vômito. “Você só desce no ponto final”.
Atirou a puta para longe. Quem são vocês? Ninguém disse nada. Tosse. Choro. Abstinência. Gargalhada da boca vermelha. A cabeça dela sangrava. A dele também. Cheiro do vômito. Desmaiou.
Acordou. O ônibus cheio. Quente. Muito quente. Todos lugares ocupados. Tosse. Choro. Ele sentado em cima do vômito. Pra onde vai? Que merda de confusão! Lugar estranho. Estranho e móvel. Mas a paisagem não mudava. Agora ele percebeu que a paisagem não mudava, era tudo branco. Ônibus branco, cenário branco. Que dia mais esquisito. Viagem mais estranha.
Levantou. Sujo de vômito, fedia. Ônibus quente. O junkie chorava. O velho tossia. A puta ria. Um gordo comia. O ônibus rodava. Paisagem não mudava. Nunca parava. Ele queria falar com o motorista. Uma resposta logo.
- Pra onde a gente vai?
Aquela falta de rosto. Só um buraco no nariz. Uma respiração alta que vinha do centro da terra. O motorista puxou catarro. Um jato de catarro saído do buraco o acertou no rosto. Gritou. Aquilo grudou. O enjôo voltou. Precisava fugir dali. Agora nem enxergava. Corria tropeçando pelos bancos. Ninguém se importava.
Conseguiu se livrar de um pouco do catarro. Estava caído. Os pés da puta na sua cara. Estava sendo esmagado pelo salto alto. O salto entrou na boca. A puta pisava com força. Cortava o rosto. Diminuiu a pressão. Tirou o pé de cima. Abaixou, ela se aproximou do rosto cortado, o beijou. Deitados no corredor se beijavam. Ninguém se importava.
- Quando você desce?- ele perguntou se levantando.
- No meu ponto.
- Qual é?
- O ponto final.
O ônibus chacoalhava. O velho tossia. O rosto sangrava. Ele fedia. A puta riu e foi se sentar ao lado do velho. Ele sentou de volta em cima do vômito. Ao seu lado tinha um gordo comendo salgadinho. Comia desesperado. Rápido. Nojento. Engordurado. O velho tosse. O ônibus chacoalha. O junkie chora. A puta ri. O gordo come. Os outros passageiros já deviam estar mortos.
Sentado no banco do ônibus ele vomitava. Não tinha mais nada pra fazer.

Um comentário:

  1. Qual personagem nós somos nesta viagem? Hoje estou mais pro vomitado...

    ResponderExcluir