“pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza”
Vinicius de Moraes
Aquele cara que dizem que enlouqueceu voltou a aparecer por aqui. Sempre mal trajado, sempre com uma mochila nas costas, sempre sorridente. Apareceu de novo desse mesmo jeito. É aquele que se diz nômade, cosmopolita, coça o saco e cospe. Você já o viu, é aquele que você evita de olhar, que os poodles desviam de caminho. Mas ele não se importa, e agora está de volta.
Dizem por aí que ele é um demônio, que veio do centro da terra e que sua música é maldita. Uns contam que ele é um macumbeiro, que existia desde antes de antes de antes dos meus avós, eles contam que o cara que enlouqueceu anda por aí, vagando, vadiando, desde a guerra do Paraguai, quando ele morreu. Outros, afirmam que ele é só um louco, alguns floreiam dizendo que era um empresário que enlouqueceu. Eu sei que empresários loucos não são tão sorridentes, e nem tocam tão belos sambas quanto demônios imortais.
Um dia um amigo me mostrou uma foto do cara que enlouqueceu, a foto é de mil e novecentos, ou perto disso, a mesma cara. Disse que preto envelhece devagar, meu amigo tentou argumentar, mas eu dei fui embora, eu já sei de toda a verdade.
A verdade é que ele andava sumido e resolveu voltar, pela mesma estrada que deixou a cidade, com o mesmo sorriso, assobiando a mesma melodia. Voltou faz uma semana, me disse. Veio se despedir, se tudo der certo morre logo. Paguei uma garrafa de cachaça. Lembrei da primeira vez que vi aquele cara, tinha uns seis anos, ele apareceu quando eu corria a trás da bola. Era inverno, ele usava uma manta que o deixava enorme, apesar do sorriso tinha os lábios secos e rachados.
-Você tem água?
Depois disso nossa amizade cresceu, me ensinou milhares de coisa sobre a vida, de bocetas a Noel Rosa. Não existia nada que aquele louco não soubesse falar. Tocava um samba com a alma, um dia enquanto a gente bebia ele resolveu me contar sua história. Aí sim soube de tudo, e os boatos não eram tão longe da realidade.
Na verdade ele foi voluntário da pátria, contra a própria vontade, durante a guerra do Paraguai. Ao perceber que estava no pantanal, que podia morrer, ou que podia matar alguém, entoou um cântico antigo, aprendido com os ancestrais, invocou um orixá, penhorou sua alma para escapar da guerra e da morte.
Escapou, mas com a condição de só morrer quando compusesse o mais belo samba de todos, o mais lindo, um que chorasse por todas as mortes, por todos os amores, por toda dor da vida. Aceitou a vida eterna e nos primeiros anos viveu sem medo. Bebeu, fumou, transou sem nenhum dinheiro. Chegou a fazer alguma grana, comprou alguns escravos, alforriou, foi herói, foi vilão. Um dia se viu sozinho, rico empresário do século XX, solitário, triste, sem poder morrer. Tentou, de saltos de prédios a tiros na cabeça. Resolveu cruzar o mundo a pé, ou pelo menos o Brasil.
-Acho que já vi tanto sofrimento, que finalmente entendi o motivo de fazer esse samba. Só sofrendo tanto, vendo tanto sofrimento, que se pode compor o mais belo samba de todos, não adianta sofrimento de uma vida só. Tem que ser várias, várias dores.
Depois disso chamei ele pra dormir no meu apartamento, pode ficar na cama. Rejeitou, sorriu daquele jeito e disse que não tinha frio que o assustasse. Deixei pra lá, te vejo amanhã. Fui embora ouvindo o assobio, cambaleando bêbado. Até mais cara que enlouqueceu.
Cachaça sempre me deixa mal, fiquei abraçado à privada. Foi aí que ouvi uma melodia, algo forte, vindo do centro da terra, do coração do mundo, a dor transformada em música. Um samba que cobria toda a cidade enquanto ela dormia, ignorando cada som. Uma música tão bela, tão intensa, que atingia qualquer homem no mundo, que arrancava lágrimas dos mortos. Um som que ouvi abraçado na privada. Uma letra que me fez chorar e que foi apagada pra sempre, pois no outro dia aquele cara que enlouqueceu foi embora, por outra estrada, com um sorriso sincero, com alegria por ter musicado o sofrimento do mundo. Agora ele toca pros orixás, que choram sentindo toda a dor do mundo.
Só me incomoda ver um poodle e saber que ele vai continuar sua linha reta, que ele nunca mais vai desviar daquele cara que enlouqueceu e que não volta mais.
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