segunda-feira, julho 12

O soldado no bar dos Cupins.

O soldado entrou no bar. Puta bar estranho. Homenzinhos de corpo redondo e membros finos e compridos jogavam sinuca. São homenzinhos que sempre se vê em desenhos animados, mas poucas vezes no mundo, num bar, em grupo, jogando sinuca. Uma velha de rosto muito enrugado bebia uma cerveja e xingava o garçom depois de cada gole. Em cima de uma mesa e andando em círculos um cara discursava sobre o sofrimento dos explorados. Ninguém dava bola pra nada. Que lugar bizarro!
Sentou alinhado, tentando lembrar seus motivos. Pediu uma cerveja para o garçom coreano, ou chinês, ou brasileiro. A velha batia na mesa, xingando.
-Seu coreano veado! Essa merda ta cheia de cupim! Você tem que dedetizar.
Do lado do cara que discursa sobre a ascensão dos oprimidos no poder, subiu um outro, melhor vestido, defendendo o livre comércio, a geração de renda e o mérito pessoal. Os dois olham para os próprios pés e andam em círculos falando alto, sem respirar e ninguém ligando, ninguém nem prestando atenção. Só os homenzinhos jogando, a velha xingando, e o soldado percebendo que seu copo tava furado. A cerveja vazava por todos os buraquinhos.
-É cupim esses cupim vão devorar o mundo. - gritou a velha do balcão.
Um barulho. A bola branca voa pelo bar e entra no banheiro, porta naipe faroeste. Um grito de mulher, um berro masculino. Um velho saí do banheiro com o pau pra fora e sangrando
- A puta arrancou meu pinto! Caraaaalhoo! Caralhooo! A puta tá desmaiada! Porra alguém chama um médico! Caralho! Meu caralho! Ela mordeu essa porra! Quem jogou a bola?
O velho cai no chão, espasmos. Ninguém se importou. Um dos homenzinhos entrou no banheiro e agora saía com a bola branca ensangüentada na mão, sorriso na cara. Disse pro chinês que alguém derrubou uma puta no banheiro. O coreano, desanimado, foi varrer a sujeira.
O soldado ficou paralisado com a cena, aquele bar o metia medo. Não era assim antes de.. Antes.. Já veio aqui? Que lugar é esse afinal? Só se lembrava da última missão na Amazônia, tudo pela Amazônia. Soldado raso encontrou uns traficantes por acaso. Era suicídio tentar alguma coisa.
O japonês varreu a puta e o velho jogando-os escada abaixo. Sangue pelo bar, ninguém se importando, bola encapada. Risos dos homenzinhos.
O soldado ficou pensando no exército, enquanto tentava beber no copo furado, pensando no amor armado à pátria. A arma na cintura, a chance de acabar com esses demoniozinhos que mataram dois. Porque ninguém faz nada? A velha sobe no balcão, e fica apontando o copo pro coreano gritando que os copos tão furados. Os homens na mesa dobram a cada segundo, sempre discursando, cada vez mais discursos, são a trilha sonora do bar.
- Cheio de cupim essa merda! Vão tudo comer a gente vivo! -Grita a velha mais alto que os discursos
Porra quinze traficantes colombianos cercando, tiros de todos os lados. Soldado mal treinado, às vezes mal-criado, fugiu. Tiros cortando o ar, bolas cortando a divagação. A velha está sendo metralhada pelos homenzinhos que riem e atiram bolas nela, a oito acerta a cabeça, perfura o crânio, a velha morre. Isso é possível? Caí em cima do balcão, o soldado ainda ouve ela dizer que tem cupins no bar.
O chinês varreu a velha pra escada, lavou o sangue do copo e ficou olhando os furos feitos pelos cupins.
- Malditos insetos!
O soldado percebeu agora que os homenzinhos sempre fungavam algo no meio da mesa. Pó Alguma coisa. Eles riam bastante. Os palestrantes aumentaram o volume, já não se ouvia o pensamento. O soldado pôs a mão na arma. Hora de acabar com a loucura. Alguns discursavam só números. Levou um tiro do colombiano, culpa do tenente metido a herói. Foi o tenente fodeu com tudo. Tudo pela Amazônia.
Foi pro balcão, pediu uma cana. Arma apontada pros jogadores de sinuca. A mão militar tremia.
- Escuta aqui seus filhos da puta! Eu sou militar! Cês Mataram três! Caralho que merda é essa? - Os caras em cima das mesas falavam sem parar- CALA A BOCA PORRA!
Os homenzinhos gargalhavam. Um se aproximou do soldado. Sorria muito. Tapou uma narina, soprou cupins pela outra.
Os insetos entraram na arma enferrujada. Apertou o gatilho. Medo. Demônios! Gatilho mole. Da cabeça escorria o sangue, o buraco da bala, na farda três buracos eram rios vermelhos, malditos cupins.O inferno é um bar? Merda! Tinha morrido.
Caiu no chão, só ouvia os discursos, agora mais altos, num mesmo tom, uma mesma nota repetida. Foi varrido. Sentia os insetos devorarem sua carne. Eram três esqueletos, já, já quatro. Tudo bem, ninguém tá ligando.

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