quinta-feira, agosto 5

Cotidiano

19:45
Ela sentou. Ele assentiu. Já não se falavam havia anos. Sempre na mesa do jantar era aquele silêncio espesso. Só barulhos de garfo raspando o prato. Dessa vez, ela prometeu, seria diferente.
- Quero divórcio.
Arregalou os olhos, não esperava isso de sua esposa, tão fiel e tão companheira a tantos anos. Limpou o molho do bigode. Disse que não ia dar porra de divórcio nenhum. Disse que só tiravam ele daquela casa a força. Ajoelhou, disse que a amava. E o silêncio? O silêncio é prova do amor. Quem suportaria uma mulher quase muda se não fosse por amor?
- Mas eu adoro falar, você que não diz nada, nunca diz nada. Chega do trabalho e fica quieto, sentado na mesa, esperando pela janta. Você que é quase mudo.
Quando o silêncio começou? Nenhum sabe, um dia de repente eles perceberam que não se falavam. Um sempre quis perguntar pro outro mas melhor seria evitar uma discussão. Tipo aquela que teve na lua-de-mel, onde foi mesmo? Pirapora? Tanto faz, ela já está fazendo as malas mesmo.
Ela disse que vai pra casa da mãe, disse que vai pensar. Ele sabe que ela jamais vai voltar. Mas não tenta segurá-la, vai. Tava fazendo barulho demais.
No dia seguinte chega do trabalho, senta na mesa, de frente do prato, espera. Só começa a chorar quinze pras oito, se lamenta:
-Justo hoje que era pra ser dobradinha.

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