Oh sim, sou um detetive. É estou de vestido como você pode ver. Não, não sou um travesti, nem estou disfarçado. Uso um vestido preto em noites que preciso de um porre. Sou a porra dum detetive crossdresser. Me monto só quando deixo uma barba por fazer. Só quando preciso de um porre. Trancando em meu escritório/apartamento. Me masturbando na cadeira da minha secretária. Como você pode ver, é o que estou fazendo agora.
Oh, sim. Venha mais perto. Quer saber por que estou enchendo a cara como um gambá e ouvindo David Bowie no último? (David Bowie? Sou um veado mesmo!). Ela me deixou. Minha mulher? Não! A secretária. Mulher não tenho. Sempre fui diretamente contra matrimônios. Só por ela que eu choro? Não! É que ela me veio na cabeça. A bunda dela pra ser exato. Mas a partida daquela bunda é um sinal que estou sem grana.
Meu último caso foi há um mês. Uma mulher que desconfiava do marido. Grampeei o telefone e tudo. Não consegui provar nada, ela não me pagou. Não era gostosa. A vida de detetive particular não é um filme noir. De sombrio só tenho minha vida. Um crossdresser, alcoólatra, barrigudo, de trinta e oito anos, que chora ouvindo David Bowie.
Gostou? Não era o que você esperava certo? Queria mulheres sedutoras & desesperadas? Um anti-herói com um bom coração? Porrada com capangas mal encarados? Clubes de strip tease com informantes que role um clima sexual? Eu também queria. Puta que pariu como queria. Mas nada. Só casos de adultério.
Agora nem isso. Graças a internet, com essa superexposição das vidas pessoais, as pessoas, hoje, sabem da traição antes do ato consumar. Não há mistérios. Minha profissão virou banal, todos com celular que tire foto querem ser um detetive. E eu como fico? Eu que quando aprendi mandar e-mail tive a internet cortada por falta de pagamento. Eu que uso o mesmo celular desde os anos noventa. Eu que finjo estar no século xx. Eu fico pra trás. Eu fico fodido & mal pago.
Lógico que arrumei outros bicos. Precisava pagar meus vestidos. Trabalhei de tudo; pintor, vendedor, motorista, garçom, animador de festa infantil. Também fiz investigação pra uns policiais, coisa arriscada, já fechei biqueira que não pagou propina e tudo mais. Esses foram meus momentos de ação. Uma merda. Quase tomei tiro pra PM covarde.
É apesar do vestido sou durão cara. Se não como ia entrar nessa? No Brasil ainda, onde a gente acha que esse trabalho é coisa de gringo... Deixa eu aumentar, gosto de life on mars... Até uns três anos rolava uma grana boa. A crise veio agora. Desde 2006, sei lá porque.
Mesmo com esse monte de merda que eu contei acho que continuo soando como um clichê. Tudo bem. Eu sou mesmo. Qualquer um dessa profissão é. É uma vida em marte.
Espera aí. Bateram na porta.
Troco de roupa. Uma loira entra. Nada mal. Um baita decote. Agora sim isso está clichê! Porra, mas ela entrou, cara de casada. Eu quis saber que horas eram. Comecei beber ao meio dia. Dependendo da hora conseguiria conversar com ela. 16h. Não vai dar certo.
Ela: Me disseram que você é o tipo de cara que eu preciso.
Eu (bêbado): Sem dúvida.
Me sento na cadeira onde agora pouco me masturbava. Ela se senta de frente pra mim. Ligo o computador que não sei mexer. Tiro o vinil do Bowie. (Merda! Sou um museu cara!).
-Qual é caso baby? Adultério? Golpe na empresa? Sequestro? Desconfia de alguma merda? Quer trocar o pneu? Comprar minha alma? Precisa que eu siga alguém? Descubra assassinos no seu porão? Quer que eu pare de falar?
- Isso por favor, sorriu um sorriso diabólico, que loira terrível. É um pouco de tudo, mas principalmente quero comprar sua alma.
Ótimo. Alguém ia pagar uma grana. Pedi as informações sobre o caso. Assassinatos! A puta queria que eu matasse uns caras. O marido, o sócio e o irmão dele. Três caras. Vinte mil por cabeça. O marido era ex-delegado, dono de uma empresa de segurança. O sócio o mesmo tipo de bosta humana. O Cunhado da vadia mandante é um deputado meio conhecido. Os típicos coronéis pós-modernos. Força e burocracia se unindo por dinheiro. A putinha nem sabe que mataria esses tipos de graça.
A trato assim porque olha ela lá. Rebolando o rabo enquanto sai. Como se não tivesse acabado de mandar matar uma porrada de gente da própria família. Não que eu me importe, já disse sou durão. Já fiz merdas do tipo antes, mas as pessoas não são tão naturais após me pedirem pra matar.
Ok, mil de adiantamento. Tudo foi acertado. Eles morreriam em uma semana. Agora como fazer isso? Sou um detetive certo? Só mato gente quando estou desesperado por grana. Preciso de um bom plano. Morte pode sair no jornal, mas melhor não ser manchete. A polícia investiga menos. O cara é ex-delegado, talvez investiguem de qualquer jeito. E se for um máster escândalo? Se tiver drogas, prostitutas, coisas do tipo, ninguém vai querer se afundar. Só bastante alarde. Vou dar um jeito. Ligo o Bowie. Volto a encher a cara.
Acordo de ressaca. Dormi de vestido preto sentado na cadeira da minha secretária. Tem alguém tocando a campanhia. Abro, devo estar acabado. É a rabuda dona da cadeira.
- Gerson! ( Meu nome) Tá bem? Vim pegar o que sobrou...
Ela se dirige à mesa. Eu sou mais rápido e pego meus papéis. Olho minhas anotações e vejo uma listas:
-MATAR SERES HUMANOS.
-COMER ALGUMA COISA
-RECONTRATAR A RABUDA
- TENTAR ALGUMA COISA COM A ESPOSA DO DELEGADO
- ASSISTIR CHINATOWN NOVAMENTE
- LIGAR PARA 32523049
- COMEÇAR OUVIR MUSICA DE MACHO ( BOWIE NÃO!)
Não lembro dessa lista. Que número é aquele? Como pus o vestido novamente? Por quê ela está levando meus clipes?
Rabuda: Que foi?
Gérson: Acho que pensei alto...
Rabuda: Quer que eu deixe meus clipes?
Eu: Deixa pra lá...
Ela solta os clipes na mesa e senta sem ânimo. Fala num suspiro:
- Olha Gérson, eu gosto de você, te respeito e tudo. Mas tenho que sair. Você não me paga. Você parece cada dia mais lunático. Fica falando sozinho. Como se narrasse sua história. Procura um médico.
Enfio a mão no bolso. O dinheiro! Arranco duzentos e jogo pra ela.
- Pintou um caso novo. Uma ricaça que acha que é corna.... Vai pagar adiantado. Dá pra enrrolar pra mais de um mês. Mil por dia mais despesas.... Eu te preciso.... Quer dizer... De você eu preciso... De ajuda...
Às vezes eu me embolo pra falar com ela. Não sei o nome dela até hoje. Há seis anos trabalha comigo. Mas ela me atrapalha toda a fala. Aqueles olhinhos... Aquela bunda...
Concordou com minha prosposta. Deixou os clipes lá mesmo e sentou.
- Essa roupa é pra investigação?
- .... Sim... Acho... Que... Vou me disfarçar de travesti... O tal homem... Dizem que gosta..., era verdade segundo um papel que encontrei no meu bolso. Estou seguindo as pistas.
- Com essa pança...
Viro de costas e desço a escada correndo. Hora de usar o bom e velho orelhão. Vou seguir a lista, mas fora de ordem...
Continua... Quem sabe?
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