Lembrou da encomenda daquele velho. Tinha que desenhar. Deixou pra depois. Não tinha ânimo.
Ah! Não queria ser tão clichê. Levantou. Cansou daquela merda melancólica.
Encontrou uma camisa xadrez, colete, estrela, chapéu. Jhon Wayne morreu por aqui?
Vestiua fantasia de caubói, resolveu sair. Queria que aquela loucura em sua mente se espalhasse. Malucos tem todo direito de fazer sua última loucura. A dele será vestido de caubói.
Daniel, CPF: 353.108.420-59, Entrou na padaria. Cigarro no canto da boca. Marlboro-man. Precisava arrumar um cavalo. Pediu um leite. Se é pra ser clichê melhor apelar. Depois uísque! Ouviu uma voz: “Dan!? Quê cê faz aqui meu velho? Sumiu ontem. O Pedro disse que você quebrou o nariz dele? Uma galera falou que você enlouqueceu.... Porra... Haha.. Não posso mijar um segundo, que você me apronta.”
Marcos, RG: 40.303.322-x, cara egoísta, ciumento, sente ódio mortal por qualquer um que olhe sua namorada, admira Danilo, admira qualquer um que aja com segurança. Nosso herói o despreza.
Daniel bebeu o leite. Disse que tudo era verdade.
-Por que?
-Oras, me deu vontade.
-Não pode cara..
-Não? Cansei daquilo. Resolvi vazar. O Pedro queria conversar. Quebrei uma garrafa na cara dele.
-Mas o pessoal vai ficar maior puto contigo. A jú ta te procurando adoidada. E essas roupas? Vou ligar pra ela.
O caubói saca uma arma. Mais rápido que a sinapse do balofo. Na padaria ficam em silêncio. Olhando uma arma que não sabem ser verdadeira ou não. Testa suando. Com o cigarro no canto da boca o caubói diz: “vamos lá fora peregrino. Vamos resolver o quê eu posso ou não eu sou seu amigo cara. Só quero te ajudar."
- vai ajudar a sua alma não apodrecer! Me dá sua carteira.
A padaria paralisada. O gordinho cumprindo as ordens. O caubói põe fogo no RG, no CPF. Deixa a fogueira no balcão, arrasta o ex-amigo pra fora. Corre! Quando Marcos está longe, 39.400.191.-4 grita: “ Comi sua namorada otário!” Depois vê o amigo tropeçando rolando rua abaixo. Menos um, pensa.
Daniel, o incendiário de carteiras- talvez viu isso num filme, não sabe- quando criança brincava de homem da marlboro no braço do sofá.
Daniel, nascido em quatro de julho de 1989 acha que sua vida é um emaranhado de clichês.
Daniel, fugiu de uma festa ontem e comprou uma fantasia de cabói. Não sabe onde arrumou a arma.
Foi até um parque e ficou sentado num balanço. Chapéu abaixado fazendo sombra nos olhos. Ouve as crianças brincando. Ouve os adultos fofocando. Hoje é domingo? Esses caras não trabalham?
Daniel não trabalhava. Não dum jeito comum. Ele trabalhava prum site de desenhos pornôs. Fazia animações dos Simpsons transando, ou os jetsons participando duma suruba, qualquer coisa que um punheteiro tenha visto quando criança Daniel desenhou. Nada daqueles japoneses. Não era seu estilo. Maldita concorrência.
Betty e Vilma se pegando depois o Dino participando. Todos o Smurffs numa poli-penetration (existe isso?) na smurfete. Ele era o responsável por acabar com a infância de alguns. Talvez alguns desses pais já tenham visto. Um tem cara de que adorou ver a Margarida dar pro Pateta. O Pateta era bem dotado.
Se Daniel continuar no ramo estragará a infância do menino que balança ao seu lado.
Mais cedo ou mais tarde a infância acaba fodida.
- O quê?- Diz o guri, Daniel pensou alto.
- Nada.
- Cê falô palavra feia.
- E você é um merdinha.
O garoto abre uma boca do tamanho de uma vala, uma grande vala. Que criança covarde. Outras teriam-lhe chutado a canela. Mostrado o dedo proibido. Esse guri loirinho com cara de viado vai chorar pra mãe
- MANHÊÊ... O xerife ta falando palavra feia!!!
Daniel sente um clima de duelo. Esse playground é grande demais pra nós dois. O bandido chamou reforços. Covarde!
O caubói bate em retirada. É preciso saber quando fugir. Talvez voltasse e reconquistasse o parquinho.
Daniel, RG: Inexistente, prefere ser chamado de Will Kid, o gatilho mais rápido do subcontinente.
Daniel, CPF: Perdido, está bêbado novamente. Continua de chapéu, mas perdeu sua estrela.
Will Kid entra em casa. Pela TV descobre que são duas horas. Ouve os recados (alguém tem isso) sem interesse. Ju está preocupada. Deveachar que os Índios pegaram sua diligência.
Daniel olha seu celular. 53 ligações perdidas. Um dia serão achadas. O celular voa pela janela, a secretária em seguida.
A Ju é um pé no saco. Grudenta, melosa, carente, problemas com pai, metida a intelectual, acha que Daniel trabalha em escritório. Daniel tem milhões de desenhos dela dando para o Picachu, e pra as tartarugas ninjas. Tocam a campanhia
- Dani!! Dani!... A luz está acesa. To te vendo... Dani abre amoor.
Ju fala arrastado. Will não atende. Ela chama pelo nome errado, Daniel está morto, não tem mais RG. Ele acende um cigarro. Ela ameaça chorar. Ele abre. Ela o abraça.
- Aiiiii queriido. Achei que você tava doenteee. Que você tem amoooor? Saiu da festaaa Daanii.
Como ele odeia aquelas vogais alongadas, ela era gostosa, ok. Mas não valia a pena. Não mesmo.
- Eu não sou o Daniel, sou Will, o gatilho mais rápido do submundo.
- Por que você não me atendeuu? E essa fantasiaaa? Amooor, você tá bééem?
Will pensa que com um tiro acabava com a namorada. Mas ela deve ter trazido reforços. Ju o beija insistentemente apesar das poucas reações do caubói. Ele senta no sofá e liga a TV. O mesmo pornô japonês. Ela ao seu lado lambe a orelha e diz que está se excitando. Põe a mão no pau dele. Beijinhos no pescoço. O caubói monta a noite inteira.
Juliana Gonçalves Speer, RG 35.044.393-2, descendente de alemães nazistas fugidos da guerra. nasceu primeiro em santa Catarina, viveu dois anos na Austrália, perdeu a virgindade prum americano que filmou e pôs num site pornô. Gemia muito. Voltou pro Brasil.
Juliana G. Speer, loira, ariana, se não fosse o Gonçalves seria da juventude hitlerista, patricinha histérica. Acordou no sofá casa vazia. Um bilhete na TV- que passava mais um anime pornô.
Ju.
Quero que você se foda. Sou um caubói solitário. Você é uma fresca e seu cu muito largo. Minha cabeça está em parafuso. Só fugi porque não posso ver choro. Minha cabeça está muito confusa. As idéias vem voando e não sei onde vai dar. Preciso livrar o playground da ditadura do garoto chorão. Preciso de um marlboro vermelho. Se quiser dar pra mim não arraste as vogais. Ou volte a dar pros cangurus surfistas. Ah, comi a namorada do gordinho e quebrei o nariz do Pedro.
Foda-se.
Will the Kid
Desenhado no bilhete um cartum dum canguru metendo no cu da “ju”Will the Kid
Juliana G. SS, Conta corrente: 43 4333. 903 Ag: 88, fã de Paris Hilton, Britney e Lady Gaga, neta favorita do vovô - primo distante do “bom nazista”- filha favorita de papai, abandonada pelo namorado excêntrico. Chora vendo anime pornô. Não consegue ficar com raiva. Se sente humilhada, rejeitada, um pouco de orgulho ferido. Percebe as cinzas de seus documentos voando pela sala.
Tocam a campanhia.
Will volta ao parque. Se ontem era domingo, hoje é um dia depois. O garoto chorão não estava lá. O homem marlboro sentou em seu lugar. Acendeu um cigarro. Sorriu pela vitória. Sua alegria dura pouco. Ouve uma moto parar depois escuta a voz de Pedro.
- Filho da puta!!
Pedro, Orkut profile: 103705042809336891838, teve o nariz quebrado por uma garrafa que ficou inteira, sofre de gases, torce pra um time do Rio e nunca foi pro Rio. É um cara sentimental, ou que leva seus sentimentos muito a sério. Tentou ser amigo de Daniel, agora só tem raiva daquele lunático.
Desce da moto. Pega uma chave, daquelas que se usa pra matar zumbis. Avança xingando a mãe do caubói.
A arma sacada paralisa o inimigo. Esse veio sem reforços. Pedro, com o nariz quebrado se ajoelha. Clama por perdão. Não quer morrer. Will the kid pede a chave do cavalo.
- Cavalo?
- É cavalo. Você sabe. Ele relincha quando para.
- A... moto?
Chacoalha agressivamente a arma.
- Me dá a porra da rédea!
Entrega. Will pede a carteira. Mais uma fogueira. Menos uma vida. Pedro não reage, apenas chora e balbucia “não atira...”
Will, o gatilho mais rápido dos subterrâneos, monta no cavalo que finalmente arrumou.
Will, nosso herói, acende um cigarro como o cara do comercial.
Will, a criança, grita:
- A arma é falsa.
Na verdade não sabe, pode ser de verdade ou ser falas de verdade. Pelo retrovisor vê o chorão correndo a trás da moto e tropeçando na guia do parquinho. Pedro peida no chão, talvez se caga.
Aprendeu que pode enfrentar um chorão. Talvez não consiga uma com uma chorona, ou com uma criança, mas um babaca chorando não amolece o coração do caubói.
Cow-boy?
Garoto vaca?
Vaqueiro?
Sabe que tem um cavalo de aço. Galopa pela cidade. Dentro da lei. Não quer cartazes de procurado por aí.
Tem também uma fantasia, e uma pistola.
Tinha um bom emprego, fácil e rentável. Pornô sempre faz sucesso. Desenhos também. Os dois então... Mas um dia resolveu largar. Estava numa festa. O papo chato, cheio de gente fingindo ser mais do que é. A namorada dando prum cara num banheiro. Um cara escroto, metido a hooligan inglês, umas costeletas enormes na bochecha. Sobrancelhas bem feitas. Cabelo bem cortado. Roupas limpas.
Todos eram assim. Ou metidos a gringos, ou a qualquer outra coisa. Daniel sabia que não se encaixava com eles, que era a piada daquela turma. O namorado esquisito. Daniel tinha que entregar uma animação de dois cowboys gays. Um pornô barra pesada, encomenda de um velho esquisito.
Os caubóis lembraram a infância de Daniel. Na festa resolveu roubar uma garrafa de alguma coisa. Ia embora. Pedro tentou impedir. Não se impede um cara de bode a curtir um bode. Pedro quebrou o nariz. Daniel morreu. Nasceu Will.
Will acelera o cavalo para longe.
O Gordo que tocou a campanhia, tem os joelhos ralados. Ju não atende, mas ele entra.
Gordo. RG: Em cinzas. Ciumento, irritante, arrogante. Já chamara marcos, Hoje não sabe. Ju olha a cara rechonchuda, sempre foi com a cara dele.“ o Dani enoouqueceuuu” diz chorando. “ E aacho que ta mee deixando louucaa”. Mostra o bilhete pra ele.
Silêncio. Só soluços vão e voltam, como ondas. O gordo lê, está sentado. Na TV uma animação ocidental, personagens do mundo infantil se comem mutuamente. Sooby doo mete na Vilma, Leroy é chupado pela Dafne, o Mickey chupa a Mônica, o Zé colméia caga no Pernalonga. A Betty Boop é fodida por Fred, Speed Racer, Squartle, Bulbassauro e gato Félix. Uma foda de toda infância. Diferentes traços tendo orgasmos em conjunto.
Gordo: Isso me deu um tesão da porra.
Ju, cai de boca.
Na TV os créditos são:
“Will, cartoons porn corporation”
“desenhos de: Daniel Santos”
“Will, cartoons porn corporation”
“desenhos de: Daniel Santos”
A moto o leva até o deserto. Se tornará invencível, se tornará criança. É o que espera Will, the Kid.
sim.
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