quinta-feira, outubro 7

Um tipo duma gomorra, só que sem coração.


Um gole de pinga pura. O rosto vermelho. Já está louco pra sair do bar. Aquela atmosfera que sempre fora uma merda naquele dia parecia pior. Só não posso ver um conhecido- pensou.
- Ei cara! É você velho?
Marcos, ou Barata, freqüentador tradicional do centro da cidade. Típico beberrão sem noção, faz jus ao nome, pois passa dias enfiado em qualquer canto, à noite saí para beber pela conta dos outros. Ele o odiava, mas sempre agia com simpatia. Já mandou uma saudação bem sorridente.
 
- E aí seu desgraçado. Achei que tava morto.
- Eu também cara... Eu também...-puxou uma cadeira- Senta aí, te pago uma cerva. Raridade, pensou, e como o bebum que estava se tornando resolveu trocar um pouco de paciência por cerveja. A pinga já subia, o sol se punha, mas ainda fazia calor.
Ele: Não vai chover nunca mais.- olhava para a avenida enquanto dizia.
Barata: Por que você é sempre tão pessimista?
Ele: A vida não é boa cara... Ou pelo menos não tanto quanto podia...
Barata pediu um cigarro e fósforos.
Levantou-se. Puto. Sem dar explicações foi andando pra longe daquele bar. Um
ônibus vermelho quase o atropelou quando atravessava a rua. Viu uma estátua de uma mulher sem coração. Símbolo da cidade. Gritou:
- É assim que vocês são! Você mulher! Você estátua! Você cidade! SEM CORAÇÃO!!
Que merda está dando em mim? Pensou. Só queria sair de lá. Se livrar da vida anterior. Continuou a quase correr pelas ruas. Esbarrou com um mendigo. Duas freiras. Uma passeata de crentes. Uma greve de fucionários da prefeitura. Tropa de choque. A cada passo que dava mais gente aparecia para dificultar o caminho que nem ele sabia qual era.
Já corria desesperado. Tinha lágrimas nos olhos. Algo causava aquela angústia, aquele nojo por todos os outros. Chegou longe. O centro era só um ponto distante. Uma massa disforme formada por prédios.
Um avião rasgou o céu. Viu bombas saírem dele e explodirem na cidade. O céu, azul e sem nuvens, ficou vermelho e depois preto. Palitos lançados ao vento eram os prédios se espalhando para o longe. Um vento forte e depois uma onda de calor e destroços bateu em seu rosto. Caiu sentado no chão em pânico por causa da destruição. Deus vai nos matar de novo!
Mas tudo continuou no lugar. O céu ainda era do azul. Ainda estava sentado ao lado do Barata, que falava sem parar sobre um enquadro que tomara da polícia. Enfiou a mão no bolso, alcançou um cigarro pro outro. Acendeu.
- Agora pode chover. Mas ainda não tem coração nenhum nisso daqui.
Barata: Por que você sempre fala essas merdas que ninguém entende?
Só ficou em silêncio. Se sentia bem no boteco, de algum jeito se sentia bem. Dessa vez Deus deixou passar. Na próxima pode vir com tudo.

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