quinta-feira, outubro 7

Os malditos assassinos do deserto.

-Que merda, tem um duende mijando no banheiro e eu não sei se é real.- disse pro garçom, que o ignorou.
Era fim de um som, as vidas todas sumindo na madrugada. O cara do bar (garçom é exagero) falou pra ele mijar logo e vazar de lá. A banda já tava recolhendo os instrumentos, mais gente sumindo na madrugada. Nada sóbrio, tinha medo de sair agora. Ainda mais se o duende o seguisse. Sabe como são os duendes.
Agarrou o balconista, o encarou com suas pupilas de um preto alucinado.
-Você não ta entendendo. Tem a porra dum demoniozinho lá. Um leprechal, sei lá. Só mijo quando ele sair.
O cara do bar resolveu não armar a confusão. Entrou no banheiro pra satisfazer o maluco. Uns segundos e um grito cortou o bar. Tudo deserto. Todos sumiram na escuridão. E o garçom provavelmente morto, ou o duende, mas balconista não parecia ser bom de briga e meio covarde.Queria fugir daquele lugar. Mas já tava tudo fechado. É a porra duma bad trip! Daqui a pouco vem o anãozinho assassino, sedento de sangue.
Passos vindo do banheiro. Lentos. Assustadores. Desespero tomava conta daquele junki (palavra com mais classe que drogado). Um maldito duende assassino! Um desgraçado de um anão de jardim!
Logo apareceu o baixinho. Só a luz do banheiro iluminando o salão. O duende saiu de lá. Andou, chaves tilintando, abriu fácil a porta. Um barulho lento e amargo. Sumiu na madrugada.Que leprechau maldito!
Ele com a certeza de estar alucinado desistiu de mijare se mandoi, já nem lembrava do caradobar sumido.
Andando pela rua ele passou por um casal. Choro agudo. Chegou ao lado deles. Sentou. Ponto de ônibus. Era um casal, mas não casal, eram amigos, uma gorda e um veadinho. O bichinha que chorava. Nosso herói arrancou uma flor do esgoto. Entregou pro cara que chorava.
Esse é todo o lirismo do mundo. É só isso, é tudo isso.... É toda a poesia que o submundo pode criar.... É toda a beleza que seu país pode te dar... Uma flor que nasce do esgoto.... É isso que é... E esses cinco segundos são especiais e você não deve esquecê-los... É só esse tempo e todo esse tempo lírico dessa noite.... Dessa madrugada em que as pessoas somem e são assassinadas por duendes... Essa madrugada desse mundo doente... São só cinco segundos baby...
Eu não entendi....
Então enfia uma garrafa pet no cu e sai pulando por aí.....
Ele está andando numa rua bem mal iluminada, para pra esvaziar a beixga num muro. Quantas alucinações. Demonios, anjos chorões enfiando garrafas no cu. Esse mundo só tem piorado. Vê o duende virando a esquina. Desespero. Merda de gnomo! Passos sempre lentos, medidos. A urina não para de sair. Foda-se, a calça que molhe. Fecha o zíper. Calça molhada.
-Peraí!- grita o curupira( duende, leprechau, sei lá).
Voz grossa, sombria. Nada que combine com o demoniozinho.
O sol nasce ao fundo, derrama vermelho sob os prédios, é aquela hora em que você entende por que viemos ao mundo. Se você não entender, enfia uma garrafa pet no cu e saí pulando por aí.
-Que você quer?- pergunta pro leprechau.
-Sua alma, um pote de ouro, entender o sentido da vida.
-E de mim?
A noite parece brigar para não abandonar o céu, por mais avermelhada que fique, ela insiste em manter alguma treva. O céu pintado de sangue. Assim como o banheiro deve ter ficado.
-Você já sabe.- o baixinho saca um trinta-e-oito. Aponta pro cara alucinado.
-Putaqueopariu!- Finalmente entende o sentido da vida. Não é o céu vermelho, ou a flor tosca que nasce do lugar pior. Não é todo lirismo do mundo. O único sentido que a vida faz (tem) é xingar a mãe do cara que espalha seu cérebro na calçada.- Filho da puta!
Mais uma vida sumiu na madrugada. Assim como todas as outras. E algumas que nem conseguiram xingar o filho da puta que deu o tiro. Calçada tingida de sangue, assim como no céu.

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