Porra, país quente é uma bosta... No verão além de ficar derretendo tem que enfrentar os insetos... Porra, inseto é uma bosta... Se Deus existe ele é uma barata, bem grande, bem Kafkaniana.... Porra, kafikiano é uma expressão de bosta... Parece que ele só escreveu a metamorfose, quem usa essa expressão é metido a Cult, pedante... Falar pedante é uma bosta... Soa pedante...
Mato mais um mosquito.... A parede está cheia deles.... Eles se alimentam do meu sangue.... Eu os esmago contra a parede branca... Parede branca é uma bosta... Esse calor também...
Falar em país quente me lembra do Kafka, não por causa dos insetos, mas por que sempre tive vontade de chegar pra um militar e fala “uniforme meio quente para os trópicos não?”. Que nem naquele conto do K. sabe?.
Hoje estou cheio de dúvidas, por isso escrevo e mato mosquitos.... Pois escrevendo crio personagens e acontecimentos.. Crio, de certa forma, vida... Cheia de dúvida, mas vida... Matando mosquito me sinto com o poder da escolha... Você vive, você não, você morre. Mancha na parede, meu sangue e do mosquito... Sou deus dos mosquitos... Sou o deus humano dos insetos... O Deus dos humanos é um inseto...
Não criei nenhum personagem neste texto, hoje sou o deus da punição, o deus de Sodoma, de Jó, o deus que criou o homem pecador a sua imagem e semelhança.... Estou soando metafísico demais... Mato um mosquito...
As teclas, assim como minhas mãos estão cheias de sangue e patinhas de artrópodes, com exoesqueleto de quitina, respiração traqueal... Grande bosta... Grandes parasitas de país tropical... Será que existe deus no pólo norte?...Acho que não, insetos são exotérmicos....
Mais uma morte contabilizada... Sou o deus EUA, o deus da guerra. Marte do novo milênio, comedor de criancinhas árabes... Sou assim para os mosquitos... Eu tenho coragem de matar uma mosca, e outra, e outra...
Um mosquito olha pra mim e diz:
- Porra, você é uma bosta... Covarde arrogante...
Espremo-o contra a parede. Meu sangue espalhado. Preciso comprar SBP, ou é SBT? Nunca sei... Terrível contra os insetos... Contra os insetos...
Meu pensamento está desconexo... Pelo menos é o que me diz um inseto que mato batendo palma... Aplausos para a morte...
Uso uma brochura do Kafka para matar moscas, “o processo” que é meu favorito.... Na capa tem a foto dele, magro, orelhas pontudas, parece um gnomo... “Kafikiano” ele fala e gargalha... “Sua experiência de loucura, está ficando KAFIKIANA”. Mato um mosquito gordo com o livro e a cara dele fica cheia de sangue meu...
Meu sangue é O positivo. Os mosquitos podem doar pra qualquer um que tenha RH+.... O que não passa de uma grande merda... O Kafka ficou quietinho com o sangue na cara...
As professoras de gramática diriam que meu texto repete as palavras demais... Acho que é verdade, mas não achei um bom substituto pra mosquitos, insetos, artrópodes, fica forçado... E ´pra Kafka então? Imagina se eu dissesse “o escritor me mandou a merda enquanto eu engolia páginas de seu livro”? Não fica nojento, o escritor, tratar alguém pela profissão é meio nojento... Prefiro ser repetitivo... Sem leitura fluída, leia quem quiser...
Mato mais vinte mosquitos... Mal consigo enxergar as letras do teclado tamanha a sujeira deixada pelos cadáveres... Imagino a sujeira dos campos de concentração, das ruas do Iraque, dos becos da favela, gente é mais suja que inseto... Por isso deus prefere os insetos...
“Também não existe outra palavra pra deus” Me lembra uma barata que entra pela porta, sem nem bater. Piso nela pela falta de educação e agradeço por ela me lembrar de acrescentar isso ao relato.
“Dizem que o inseto do Kafka era uma barata” Diz outra desses seres tão odiados pelas mulheres (vê como é estranho achar sinônimos? Não há sinônimos verdadeiros)... Mato essa...
- Era um inseto, não uma barata, em nenhum momento ele cita baratas... era um inseto gigante, um deus-inseto...- Acho que eu disse isso, ou foi um mosquito, já não sei...
Porra, calor que vai aumentando é uma bosta... Parece que você vai derreter a cada minuto... Os bichos que não param de entrar dizem que o calor que está me enlouquecendo... Outros dizem que estão se rebelando contra mim, contra o deus-homem, o deus-destruição...
Tento matar o máximo, mas meus esforços são em vão... Já tem vário mosquitos roubando meu sangue O+, várias baratas subindo nas minhas pernas... Pela janela nuvens e nuvens de artrópodes entram e começam a cantarolar em sua própria língua... A língua do deus-inseto...
Mato quarenta, cem, treze mil, mas não posso fazer nada... esse mundo é dos insetos... Pra cada morto levantam-se cem que se vingarão cem mil vezes pela morte do irmão... São insetos-hidra... Eu não sou Hércules... Estou perdendo: a batalha, a superioridade perante os artrópodes de três pares de patas, o poder de decidir quem vive quem morre, estou perdendo até a lucidez....
Meus dedos já não conseguem ser tão ágeis, há patas por todos os lados.. Vi algumas formigas e umas libélulas... Eles se uniram... Finalmente perceberam de quem é esse planeta... Tem alguns no meu nariz... Acho que meu sangue tipo O vai servir de alimento pra mais exoesqueleto de quitina.. Dos insetos, aos insetos... Assim que é caro K.
Porra. País quente é uma bosta.
Tinha que ser O+! Gentinha mais comum, viu...
ResponderExcluirArtistinha da fome você.