terça-feira, novembro 16

A love song...

-para de cantar


- não posso... Vi na Tv que faz viver mais...

- para caralho! To com dor de cabeça...

- sou canhoto...morro antes de vocês.. Preciso viver mais.
Saem da casa. Ele cantando. Ela com lágrimas nos olhos.

Vemos um túmulo. Na cruz uma teia. Uma mosca se agita. Big Close up. A mosca se debate. Uma bota detona tanto a teia quanto a mosca. Talvez a aranha escondida.
É ele. O canhoto. Assobia a mesma música. Carrega um saco que enche de flores. É mais alto que a maioria. Meio forte. Parrudo, boa palavra. Rouba as flores dos túmulos.

Ela faz ponto na avenida. Uns carros buzinam. Uns playboys param pra conversar, mas não querem nada. Acham engraçado/erótico falar com putas. No banho, ou com suas namoradinhas, vão pensar naquela puta de rua, meio gorda, meio gostosa. Vão gozar pensando nela. Eu sei que vão.
A dor em sua cabeça não passou.
Pra outra puta: É verdade que canhoto morre cedo?
A outra ignora.

Ele faz o jantar. Sozinho. Arroz com pedaços de alguma carne. Tudo numa panela. Ela sempre brinca que é ótimo quando ele cozinha. Só uma loca pra lavar. Ele se senta no ao lado das flores. Come direto na panela. Não quer dar mais trabalho para a esposa. Uma louça mesmo.
O Arroz é oleooso. Plano conjunto. Ele no sofá, as flores ao lado, meio murchas. A parede é laranja. Um laranja forte. Um laranja sujo.

Ela compra cocaína com um travesti. Deu pouca grana a noite. Cada dia pior. Ela continua no pó. Não vai cair na pedra. Não agora. Que nem as outras. As outras são otárias. Nunca vão sair da merda
Pro traveco: Verdade que cantar faz viver mais?
- Quem canta os mares espanca meu bem...
A frase é sem sentido. Mas parece profunda. Rima. Ela sobe em direção a casa. Mora num prédio velho no centro mesmo.
Ele dorme quando chega. As luzes vermelhas mostram 05:00. As luzes vem do prédio de fora. Um prédio dum banco. Big ben da Cidade. Ela deita ao lado dele e das flores. Dormem abraçados. Ela canta baixinho e de vez em quando diz
- Não morre antes de mim...
E o aperta.
Em um travelling lento a câmera se afasta. Vemos eles se encolhendo. A parede laranja ainda é ocupa todos os lugares.

Cada vez mais longe. Agora já fora do apartamento. Vemos apenas pela janela. A cabeça dos dois. As flores espalhadas. Cada vez mais distantes. Luzes apenas. O sol nascendo bem ao fundo. Os prédios cortando a paisagem. Um avião cruzando o céu. Urubus voando por toda cidade.
De fundo ele canta.
Fade out

Um comentário: