Te tiro daqui que nem o Dante tirou aquela putinha do além.
Drump, prometendo e não cumprindo.
Logo na entrada encontrei Virgílio, amigo meu, metido a poeta beatink, o que ele fazia naquele lugar? Não fazia idéia. Mas talvez ele soubesse alguma informação sobre onde estava Beatriz.
- Porra maninho. Acabei de ver tua garota por aí. Ela entrou.
Merda! Tudo que temia. Tenho que enfrentar esse inferno agora. V. me contou que estava trampando no shopping. Tava descansando. Só voltava pro batente mais tarde. Veio pra fora pra fumar.
- Que merda heim.
- A vida é dura maninho, Tô juntando grana pra me mandar de novo. Pegar a estrada... Mas aí, te guio nessa aventura. To conhecendo esse caralho melhor que muito rico. A gente acha tua menina.
Na porta o letreiro. “sejam bem vindos”. Ao entrar abandonei todas minhas esperanças. Odeio esse lugar desde uns oito anos. Poucas vezes gostei dessa merda. Só entro se não tiver opção e no mais fuleiro possível. Não esse. Esse shopping é enorme. Do tamanho do inferno. Não sei como deixei que minha namorada fugisse pra lá.
Estávamos num piquenique. Coisa clichê eu sei. Mas é divertido agora que ninguém mais faz. Num bosque lá perto. Aí de papos à toa caímos numa briga selvagem. Desencadeamos numa cadeia de mágoas guardadas. Vi todas as feras de uma garota. Xingamentos, comidas, garrafas tudo voou contra mim.
Xinguei pra caralho. E a vi correndo, com olhos encharcados, pra longe em direção até aquele inferno. Onde acabei de entrar. Preciso salvar nossa relação. Se não duvido que agüentarei.
V. me diz que talvez Bia esteja na praça de alimentação. Pra chegar lá é preciso enfrentar muitos corredores cheios de almas perdidas que vagam sem motivação real e obrigadas a consumir sem parar. Essas pessoas andam em círculos e mal conseguem enxergar o que acontece ao redor.
Eu: Vamos rápido, acelera o passo que se não vou acabar vomitando em todos esses caras.
Ele me guiou entre a multidão abrindo caminho com sua ginga carioca. Não sei porque ele se acha carioca. Sempre morou por aqui. Só foi umas vezes pro rio. Viaja pra caralho na verdade. Quer ser o Kerouac do brasil.
V: Voschê ta meio bêbado né? Essass tuass pernass trançadas.. Meio afetado.. Assim que tu anda quando chapa..
É eu tava, se não provavelmente teria tocado o foda-se e não correria atrás daquele putinha que foge prum shopping. Meio bêbado, coisas sem importância se tornam essenciais pra mim. Parecia que encontrá-la me salvaria de um perigo, de um inferno onde ela mesma me botou.
Esbarro numa mulher que fazia compras e carregava sacolas enormes. As compras se espalham pelo chão. Vejo a puta de shopping começar a enfiar milhares de coisas de volta nas sacolas, que estão rasgadas e transformam o trabalho dela em inútil. Mesmo assim ela não parava. Põe coisa na sacola, a coisa cai ela guarda de novo. Louca.
Já estava meio longe e ainda a via agachada recolhendo e derrubando tudo que comprara.
- Você viu isso? Mulher louca...
Virgilio ignorou, seguia em frente. Passos rápidos como eu pedi. Viramos pra mais um corredor no inferno.
Chegamos na praça. O lugar mais lotado de qualquer shopping. Não interessa o horário, data, ou evento. O lugar é o inferno dentro do inferno. Faz parecer o limbo os corredores malditos. Todos comem seus hambúrgueres sem parar, não respiram, não conversam, não se observam, apenas enfiam as caras em seus lanches, tão variados e iguais, neles aumentam sua adiposidade.
Porra de lugar. Nem sinal da minha guria. Só o Papai Noel espalhado por todos os lugares. Velho onipresente durante o fim do ano. Porra de natal.
Roubei umas batatas dum moleque que estava entretido demais com seu Big Mac. Tinha fome. Minha comida virou munição pra pantera. Eu e V. sentamos num chafariz e comemos as batatas
Ele me ofereceu um LSD. Aceitei. Já não tinha chances de encontrar minha amada. Tinha que aproveitar de algum jeito. Meti o selo na língua e ouvi ele declamar uns versos. Não eram de todos ruins. Um sobre fósforos era realmente um bom poema. V.é um bom rapaz. Um cara com certa moral. Age bastante, é inteligente. Sempre vai pra outros lugares. Não sedentário como eu. Se não quisesse ser o Allen Ginsberg conseguiria ser um cara foda.
As pessoas circulavam perto de nós, esfomeadas por suas inutilidades tão necessárias, comidas inúteis, produtos inúteis, entretenimento inútil. Faziam filas pra assistir blockbusters. Todos loucos por alguma coisa, nem sabem o que é.
- Concerteza cara.
- Falei em voz alta?
- Você fala mais quando ta chapado. O resto do tempo é mais fechado. Ou fala merda.
- Sempre que falo, falo demais, falo merda. Me arrependo de quase todos meus diálogos. Fico remoendo depois. Criando versões melhores. Tipo quando falei alguma coisa e ela quis fugir.
-Que tu falou?
Não fazia idéia. Rimos disso. A anfetamina bate mais rápido que o doce. Quando bate alguma coisa que me agita, fico muito agitado. Não quero ficar parado. Ainda mais sabendo que o mundo vai melhorar em breve. Vi, ou achei que vi, minha garota passar. Voei pra cima dela.
Entro numa sala de cinema. O filme deve estar pela metade, por que o mocinho quase come a mocinha em um prédio em chamas. Eles sobrevivem a explosão. Caem numa piscina. Se beijam e se separam. Isso indica metade dum filme desses.
Explosões por todos os lados. O doce começa a mexer com minha percepção. Tenho certeza que Bia está por aqui. Vasculho todos os casais e encaro todas garotas. Com certeza pareço um lunático. Mas preciso me salvar.
Virgilio provavelmente me abandonou. Ou voltou pro trabalho. Sei que ele não está comigo. Aí tropeço em alguma coisa e caio no meio de um monte de pipocas. Fico lá. Acho que ninguém reparou.
Quando se usa algum lisérgico você perde ainda mais noção de tempo. Um minuto pode durar um segundo ou duas horas. Depende da beleza desse minuto. Acho que fiquei horas deitado no chão vendo uma pipoca que tinha maior cara de um cogumelo atômico. Nunca vou saber o tempo que fiquei mesmo. Ouvindo as explosões tão baixinho.
O Papai Noel me acordou. Era o V. Esse trampo? Que merda. Ou estava tendo alguma grande alucinação. Belo guia me saiu.
- Foi mal. Meu chefe me encontrou. Vou te tirar daqui antes que os seguranças apareçam.
A trás de nós. Demoniozinhos engravatados e falando no rádio. Falavam latim por que sabem que eu não entendo. Queriam me afastar da minha garota. Sei que os deuses raptaram-na. Sei também que não posso vencer esses caras. Se tentar lutar acabarei virando uma dessas almas que vagam pelo shopping em busca de algo pra preencher suas sacolas vazias. Comida, produtos, filmes, qualquer coisa que caiba na sacola furada.
Não quero ser um deles. Não quero trabalhar de Papai Noel. Só quero sair do inferno. Não voltar mais. Ignorar que conheci. Ignorar os demônios que tentam nos pegar. Mas estamos fugindo por corredores diferentes vazios.
Tenho a impressão de que todas pessoas viraram manequins ou hambúrgueres.
Corremos. Escapamos. Ilesos talvez. Ou para sempre traumatizados por termos enfrentado um inferno. Um pior que o de Dante, do Blake, do Rimbaud. Um inferno real. Sem labaredas. Que agora se desmancha ao fundo e me faz questionar o tão real que é um shopping Center.
Perdi meu coração. E a placa ainda disse: “Obrigado pela preferência. Volte sempre”
Minha pica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário