Ele entra casa, diversos objetos que não deviam estar lá atrapalham o caminho. Coisas velhas, roubadas, encontradas na rua, objetos sem donos, dejetos dos outros. Anda meio sufocado, respira com dificuldade. Tropeça numa cabeça de manequim encontrada numa loja demolida. A cabeça tem olhos tristes e vazios, a cabeça tem uma rachadura na testa.
Ele pega uma caneta, sempre anda com uma caneta no bolso, desenha um sorriso na cabeça. Um sorriso forçado, riscado no rosto pela mão de outro. Um rosto triste e industrial com um sorriso falso. A cabeça não parece mais feliz agora que sorri.
Solta a cabeça, precisa ir pro quarto, precisa dormir. O dia está estranho, o dia está errado. Que dia é? Já é outro dia porque a meia-noite já passou. Não consegue mais andar. Não vai chegar ao quarto. Desmaia.
- filho, acorda...
-...
-filho? Você bebeu?
-não...
-você dormiu aqui?
-até agora...
-você tá bem?
Ele se levanta, encara o pai, sente uma dor na cabeça, tem algo errado com a pele. Sangue seco. Rasgou a cabeça quando desmaiou, bateu numa escultura de bronze roubada da casa de uma senhora com mania de deixar o portão aberto.
Tem sangue na escultura, tem sangue no chão, tem sangue na testa. O pai vai para a cozinha.
- quer um café?
Ele se olha no espelho e percebe que seu novo machucado faz ele parecer o manequim. O manequim é real? Sim tá lá sorrindo.
- valeu...
- tem pão, quer na chapa?
-só vou dormir, na cama...
- vou levar essas coisas pro quartinho amanhã, elas te atrapalharam?
-um pouco...
Antes de entrar no quarto pega a cabeça sorridente de olhos tristes.
-trouxe o café!
- eu não queria... na chapa..
-come, tá bacana... fiz agora...
-só queria dormir...
- gostou da cabeça?
- é... posso?
- claro... desabou uma loja, tem um monte de pedaços de manequins no entulho, alguns ainda presos...
- HA HA HA
- que foi?
- me lembrou aqueles prédios, em que as pessoas morrem quando desaba... aí ficam bombeiros atrás de sobreviventes..
- HA HA HA... entendi... então, resgatei a cabeça, mas é aqui perto, se você quiser depois a gente da uma olhada pra ver se tem alguma coisa que você queira..
-agora queria dormir...
-tá certo, vou por seu café na mesa... aproveita que tá quente.
Na verdade tem fome, só não queria dar trabalho. Morde o pão frio, bebe o café gelado. Nada parece ter sido feito agora, nada parece ter dado trabalho. Acende um cigarro. A fumaça se espalha pelo quarto. Desenhos velhos e novos, mais espalhados que a fumaça, manchados de café ainda mais frio que o café do copo.
O celular toca. não quer atender. Toca de novo. Abre a janela. Toca de novo. Encara o pão mordido e rejeitado. Toca de novo. Último trago queima um pouco os dedos. O telefone para.
Tenta associar o toque às tragadas, mas o telefone volta a tocar.
-alô?
-porque você foi embora?
-tava chato...
-você foi pra onde?
-embora...
-com quem?
-sozinho...
-porque não me avisou?
-tinha que ir..
-posso te ver hoje?
Ele desliga. Ela provavelmente deve ter ficado um tempo esperando resposta. Não há resposta. O manequim sorri forçosamente e também não dá respostas. Ele sorri de volta e não faz perguntas.
Dois sorrisos forçados e calados.
Mais um cigarro. Pela janela as ruas ganham movimento. Hoje é domingo, até a meia noite, agora deve ser meio dia, meio dia a rua cheira a bife e feijão. Meia noite a rua cheira a frio e xingamentos. Da janela dá pra assistir o dia passar.
O pai aparece na porta.
- que você quer almoçar?
-nem comi ainda o pão.
-mas tá aí há muito tempo...
- quanto?
- umas quatro horas já...
O tempo passou rápido. Estranhamente rápido. A cabeça ri disso. Ele só estranha. As horas passam até quando o tempo não passa.
- vou descongelar uma lasanha..
- tô sem fome...
- você tem que comer...
É o melhor para poder crescer. O manequim diz. Mas é impossível uma cabeça de sobrevivente a desabamentos falar. Mesmo assim aquela cabeça canta músicas infantis e sorri porque foi forçada.
Ele pensa no Pinóquio. Desenha uma espécie de Pinóquio e gepeto numa folha. Ele não usa perspectiva. Desenhos sem perspectivas são o melhor para poder crescer. Ele desenha uma baleia agora, a baleia tem o tamanho da cabeça do Pinóquio e um sorriso na cara.
Em uma espécie de transe os desenhos vão se multiplicando. Uma coisa puxa outra e o Pinóquio tem uma cabeça de grilo e com um matelo monta o próprio joelho. A fada dança com Gepeto no meio da rua, a rua é a língua da baleia, a cauda da baleia termina no nariz do Pinóquio. Não há perspectiva.
- tá pronto?
O que?
- o que?
-lasanha, você queria outra coisa?
-serve.
Pai e filho sentados na mesa. A cabeça acompanhou. O filho não quer ela longe, mesmo ela sendo Pinóquio, portanto uma mentirosa.
- agitou ontem heim?
-um pouco...
- HA HA HA HA
- HA HA HA HA
- bons tempos essa idade.
O pai quer explicar a tristeza e o silêncio com a diversão anterior, ressaca. O filho come e observa as coisas ainda na sala, amanhã continuarão, e depois, até acabar a sala e só sobrar coisas. O espirito está na cabeça, a cabeça sorri, mas não foi feita pra isso, qualquer um pode ver.
-da hora esse seu desenho na cabeça.
- valeu, vou ver se termino..
- sabe, tem um amigo meu que queria alguém pra desenhar alguma coisa pro bar dele... falei que ia ver com você.
-é?
- ahã, o alberto sabe?
- sei..
- então?
- o que?
- o logo pro bar?
- a, posso ver, mas nem curto muito...
- é, mas podia rolar um dinheiro.
- é podia rolar...
O pai recolhe coisas encontradas na rua desde que o filho se conhece como filho, e continuou até depois do filho se conhecer como gente. O filho desenha desde que se conhece como desenhista, e desenha porque não sabe fazer outra coisa além de fumar. Às vezes ele pega coisas que encontram na rua.
As coisas não valem pros outros, e não rola dinheiro juntar elas, mas mesmo assim é uma tradição a ser mantida, e agora que a cabeça ganhou vida quem sabe ela não começa também.
Afinal, o que deu vida foi o sorriso, e o sorriso transformou o filho em pai e o pai em avô.
É esse o raciocínio que ele tem enquanto enfia o ultimo garfo de lasanha na boca.
- vou sair.
-oquei, juízo heim?
-sim..
-HA HA HA
- HA HA
Ele anda pela rua, ouviu notícias do desmoronamento da loja, nenhum ferido, nenhum bombeiro tentando recolher sobreviventes. É perto. Umas ruas pra lá. O sol tá forte. Ele anda rápido com a cabeça embaixo do braço. Ouve um choro.
- não tenho nada, pai... porque você me deu vida? Não posso comer, não posso fazer nada.
-vou te ajudar Pinóquio... vou te ajudar...
Gepeto e Pinóquio já enxergam os escombros. Não foi tudo desmoronado, só uma parte, a parte da frente.
- você vai resolver minha cabeça? Ela tá rachada...
- vou, filho, vou sim.
- você vai me dar corpo e braços?
- vou filho, vou sim.
- pai, como posso te agradecer?
-só tirar esses olhos tristes da cara.
- sim pai.. com cabeça e braços vou ter motivo pra sorrir.
Tem braços espalhados pela parte mais destruída, mas nenhum é o certo, lá no fundo, talvez lá tenha alguma coisa que sirva, algo pra deixar completa a cabeça pra ela sorrir com motivo.
Os dois entram, ainda tem cartazes de promoções, ainda tem tudo, só que coberto pelo pó, pó de cimento, que nem as pessoas que saem dos escombros. Ali
- é esse.
Um corpo forte e inteiro de manequim. Sem cabeça. Perfeito. É lá que a cabeça tem que estar. A obra completa finalmente. Industrial e sobrevivente. Essa sim é uma obra com perspectiva. O filho vai virar pai completo. Começa a tentar tirar o corpo, ele está meio esmagado por uma parede caída. Força a cabeça posta no chão torce pelo seu novo corpo.
O óbvio acontece. Assim que o corpo sai, um novo desmoronamento. Mais leve que o anterior e também mais fatal. O desenhista fica preso pela perna. Dentro da loja ninguém vai ver. A loja é a baleia da história, o Pinóquio mentiu, ia ficar feliz com o corpo, e a sua voz era só alucinação.
O Gepeto está lá. Esperando que os bombeiros comecem a resgatar os sobreviventes.
A cabeça canta: dentro da baleia a vida é tão mais fácil...
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