terça-feira, março 13

a merda óbvia

Ponto de ônibus, duas pessoas sentadas, uma mais cabisbaixa que a outra, o sexo não importa. Uma pomba comendo resto de cachorro-quente do outro lado da avenida, os carros passam e não se importam.
-é uma merda né?
- o que?
- quando a gente tem alguma coisa e depois perde, dá vontade de não ter nada, nunca mais...
- aconteceu contigo?
-não. com você.
- como cê sabe?
- seus olhos, suas mão.
-ah...
Silêncio. Sempre o mesmo silêncio, antes da pergunta que faz eles se conhecerem melhor.
- e aí, que tu perdeu?
- você não quer saber.
- não... mas tenho curiosidade.
- eu não quero te contar.
- não... mas tem necessidade, a gente gosta de exibir a dor, é uma forma de compensar a perda.
- é... tem razão.
- e então?
- então não... não posso contar porque não quero que você me conheça, não quero você perto de mim, preciso manter tudo meio distante...
- você não quer perder de novo né?
- óbvio assim?
- é tudo muito clichê na real.
Uma TV é jogada do vigésimo andar de algum prédio. A pomba leva na cabeça, deve ter morrido. Como se fosse um desenho animado a pomba aparece na tela, diferente de um desenho animado a pomba sangra bastante, é algo bem real e ela não se mexe, por enquanto.
- isso foi clichê?
- um pouco... mas não importa... não foge do assunto.
- você reclamou do meu clichê, mas você é também. porra! reparar nos olhos e na mão, queria ver se você conseguia descobrir como to pela forma que amarrei meu tênis.
- bom, o clichê é clichê porque funciona... mas e aí, que você perdeu?
- não sei..
- fala...
- mas você pode se decepcionar...
-fala...
-mas eu posso conseguir você, e aí vou perder você, de um jeito ou de outro.
-é... mas eu perco você também, e to afim do risco...
-ok..
-fala...
- perdi meu ônibus...
- é foda...
Silêncio. São dois idiotas mesmo. Agora a pomba parece se mexer um pouco, é incrível como algumas coisas sobrevivem as piores merdas.
  

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