segunda-feira, fevereiro 4

SETE TIROS NO ESCURO ANTES QUE OS PORTÕES SE FECHEM. (tiros 1 e 2)



tiro nº1: miro no pé pra te ver dançar.
toda garota é imbecil, porque toda garota quer ficar o resto da vida brincando de barbie e cobrando qualquer coisa madura dos outros, principalmente caras que não montam cavalos e nem carregam espadas.
mas você parece a cat power quando ela ainda era cool, então quero falar mais tempo com você. e quero tudo que você puder me oferecer (e dar). e mesmo querendo vou fingir desinteresse pra que você não ache que eu sou idiota, pra que você saiba que você é só mais uma barbie-cat-power, igual à barbie-acensorista e à barbie-professora.
CARALHO!
falei demais de novo.
perdi o controle de novo.
agora você fala com algum babaca, um bêbado exibido, que, por acaso, sou eu.
e aí você diz que eu pareço uma garota usando as palavras do david bowie, e isso é legal de se ouvir.
e aí eu digo alguma coisa enquanto vomito nas palavras do david bowie
foi mal, barbie-vomitada.
barbie-indignada, barbie-irritada, barbie-rancorosa, barbie-puta, barbie-escrota-do-caralho-que-não-aguenta-um-almoço-semi-digerido-no-vestido.
e você nem tava de vestido.

tiro nº2 : (parte I) mira no ombro e gira em torno de si mesmo.
eu sou descendente direto do mais vil dos homens, do tipo que usa camisa azul e canetas douradas no bolso.
venho de uma linhagem pura do subproduto mais cruel da sociedade, o crack das  C. e das LTDAS. que usa sapatos de bico quadrado e chora até dormir.
eu sou o filho do cidadão-modelo-padrão.
eu sou rimbaud num dia ruim, em uma época confusa, num país de merda.
eu sou um pequeno-burguês-operário, filho das massas.
eu sou  o filho de cada estuprador de boneca.
eu me amo, no do I.
e quando os portões se abrem vocês correm e se acumulam na saída, e vocês tropeçam um nos outros e engolem e cospem fragmentos de seus dentes.
eu prefiro ver TV.

tiro nº2: (parte II) atiro na rótula pra não fugir do assunto.
transição: luzes de neon, e david lynch acendendo cigarros e os engolindo, depois soltando fumaça pelo nariz. (regurgita as bitucas em pacotes de batata-fritas)
 -você acredita em anjo?
pergunta minha musa cat power, que cansou de reclamar.
-sério?
-ah, não do tipo bebês obesos com asas de galinha nas costas, mas daqueles que carregam espadas e são a vingança de deus contra os erros da humanidade... soldados de um megalomaníaco que nos odeia por sermos imagem e semelhança.
-é isso que tá rolando?
-é uma das versões.
-...
-e aí?
-prefiro os bebês alados.
-eu também...
silêncio.
três ônibus param de forma sincronizada. linha reta, freios uníssonos.
dois tocam a buzina. c. power sobe no da frente, d. lynch no de trás.
o que sobra é o meu, e quando ele buzina percebo que já estou dentro dele.
cada ônibus vai pra um sentido, nos separamos.
o sol nasce
mas o céu continua sendo vermelho escuro
meus ossos doem,
meus olhos ardem,
meus pulsos sangram,
eu nunca estive tão bem.

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