tiro nº1: miro no pé pra te ver dançar.
toda garota
é imbecil, porque toda garota quer ficar o resto da vida brincando de barbie e
cobrando qualquer coisa madura dos outros, principalmente caras que não montam
cavalos e nem carregam espadas.
mas você
parece a cat power quando ela ainda era cool, então quero falar mais tempo com
você. e quero tudo que você puder me oferecer (e dar). e mesmo querendo vou
fingir desinteresse pra que você não ache que eu sou idiota, pra que você saiba
que você é só mais uma barbie-cat-power, igual à barbie-acensorista e à
barbie-professora.
CARALHO!
falei demais
de novo.
perdi o
controle de novo.
agora você
fala com algum babaca, um bêbado exibido, que, por acaso, sou eu.
e aí
você diz que eu pareço uma garota usando as palavras do david bowie, e isso é
legal de se ouvir.
e aí eu
digo alguma coisa enquanto vomito nas palavras do david bowie
foi mal,
barbie-vomitada.
barbie-indignada,
barbie-irritada, barbie-rancorosa, barbie-puta,
barbie-escrota-do-caralho-que-não-aguenta-um-almoço-semi-digerido-no-vestido.
e você
nem tava de vestido.
tiro nº2 : (parte I) mira no ombro e gira em
torno de si mesmo.
eu sou descendente
direto do mais vil dos homens, do tipo que usa camisa azul e canetas douradas
no bolso.
venho de
uma linhagem pura do subproduto mais cruel da sociedade, o crack das C. e das LTDAS. que usa sapatos de bico
quadrado e chora até dormir.
eu sou o
filho do cidadão-modelo-padrão.
eu sou rimbaud
num dia ruim, em uma época confusa, num país de merda.
eu sou
um pequeno-burguês-operário, filho das massas.
eu sou o filho de cada estuprador de boneca.
eu me
amo, no do I.
e quando
os portões se abrem vocês correm e se acumulam na saída, e vocês tropeçam um
nos outros e engolem e cospem fragmentos de seus dentes.
eu prefiro
ver TV.
tiro nº2: (parte II) atiro na rótula pra não fugir do assunto.
transição:
luzes de neon, e david lynch acendendo cigarros e os engolindo, depois soltando
fumaça pelo nariz. (regurgita as bitucas em pacotes de batata-fritas)
-você acredita em anjo?
pergunta
minha musa cat power, que cansou de reclamar.
-sério?
-ah, não
do tipo bebês obesos com asas de galinha nas costas, mas daqueles que carregam
espadas e são a vingança de deus contra os erros da humanidade... soldados de
um megalomaníaco que nos odeia por sermos imagem e semelhança.
-é isso
que tá rolando?
-é uma
das versões.
-...
-e aí?
-prefiro
os bebês alados.
-eu
também...
silêncio.
três
ônibus param de forma sincronizada. linha reta, freios uníssonos.
dois tocam
a buzina. c. power sobe no da frente, d. lynch no de trás.
o que
sobra é o meu, e quando ele buzina percebo que já estou dentro dele.
cada
ônibus vai pra um sentido, nos separamos.
o sol
nasce
mas o
céu continua sendo vermelho escuro
meus
ossos doem,
meus
olhos ardem,
meus
pulsos sangram,
eu nunca
estive tão bem.
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