quarta-feira, fevereiro 20

SETE TIROS NO ESCURO ANTES QUE OS PORTÕES FECHEM (full album)

 TIRO Nº1: ATIRO NO PÉ PRA TE FAZER DANÇAR.

toda garota é imbecil, porque toda garota quer ficar o resto da vida brincando de barbie e cobrando qualquer coisa madura dos outros, principalmente caras que não montam cavalos e nem carregam espadas.
mas você parece a cat power quando ela ainda era cool, então quero falar mais tempo com você. e quero tudo que você puder me oferecer (e dar). e mesmo querendo vou fingir desinteresse pra que você não ache que eu sou idiota, pra que você saiba que você é só mais uma barbie-cat-power, igual à barbie-acensorista e à barbie-professora.
CARALHO!
falei demais de novo.
perdi o controle de novo.
agora você fala com algum babaca, um bêbado exibido, que, por acaso, sou eu.
e aí você diz que eu pareço uma garota usando as palavras do david bowie, e isso é legal de se ouvir.
e aí eu digo alguma coisa enquanto vomito nas palavras do david bowie
foi mal, barbie-vomitada.
barbie-indignada, barbie-irritada, barbie-rancorosa, barbie-puta, barbie-escrota-do-caralho-que-não-aguenta-um-almoço-semi-digerido-no-vestido.
e você nem tava de vestido.



TIRO Nº2:(parte I) MIRA NO OMBRO E GIRA EM TORNO DE SI MESMO.

eu sou descendente direto do mais vil dos homens, do tipo que usa camisa azul e canetas douradas no bolso.
venho de uma linhagem pura do subproduto mais cruel da sociedade, o crack das  C. e das LTDAS. que usa sapatos de bico quadrado e chora até dormir.
eu sou o filho do cidadão-modelo-padrão.
eu sou rimbaud num dia ruim, em uma época confusa, num país de merda.
eu sou um pequeno-burguês-operário, filho das massas.
eu sou  o filho de cada estuprador de boneca.
eu me amo, no do I.
e quando os portões se abrem vocês correm e se acumulam na saída, e vocês tropeçam um nos outros e engolem e cospem fragmentos de seus dentes.
eu prefiro ver TV.


TIRO Nº2:(parte II) ATIRO NA RÓTULA PRA NÂO FUGIR DO ASSUNTO.

transição: luzes de neon, e david lynch acendendo cigarros e os engolindo, depois soltando fumaça pelo nariz. (regurgita as bitucas em pacotes de batata-fritas)
-você acredita em anjo?
pergunta minha musa cat power, que cansou de reclamar.
-sério?
-ah, não do tipo bebês obesos com asas de galinha nas costas, mas daqueles que carregam espadas e são a vingança de deus contra os erros da humanidade... soldados de um megalomaníaco que nos odeia por sermos imagem e semelhança.
-é isso que tá rolando?
-é uma das versões.
-...
-e aí?
-prefiro os bebês alados.
-eu também...
silêncio.
três ônibus param de forma sincronizada. linha reta, freios uníssonos.
dois tocam a buzina. c. power sobe no da frente, d. lynch no de trás.
o que sobra é o meu, e quando ele buzina percebo que já estou dentro dele.
cada ônibus vai pra um sentido, nos separamos.
o sol nasce
mas o céu continua sendo vermelho escuro,
com anjos-crianças-famintas-africanas voando e atirando com suas aks,
meus ossos doem,
meus olhos ardem,
meus pulsos sangram,
eu nunca estive tão bem.


TIRO Nº3: ALVO: DOIS DEDOS ACIMA DO UMBIGO, SEM MOTIVO APARENTE.

tem esse(a) travesti dançando um mutantes chiado em cima da mesa, o som sai de uma jukebox eletrônica.
buteco típico,
travestípico,
dia-noite-avermelhadamente-típicos.
não chega a ser um drink o copo que encaro no balcão. o inferno não aqui. e não é preciso dizer nada.
a barbie cat-power desapareceu faz cinco minutos, dias, ou semanas. ninguém sabe as horas pelo céu vermelho.
a barbie-com-caralho vai entrar no balconista.
viro o copo e depois as costas para o casal, enquanto o refrigerador não funciona.
não.
não.
isso explica o cheiro de plástico queimado. o céu parado no mesmo tom sem sentido. as pessoas correndo  para qualquer canto.
black flag tocando na minha cabeça, em cada pedaço de mim.
you let me down.
outro vômito sobe e não consigo me lembrar quando comi pela última vez, viro um chafariz no meio da rua e concluo que fui envenenado.
passagem na mão para o inferno. os pedestres formam um círculo ao meu redor, um poodle late freneticamente,  em uma TV um bebê é posto no congelador.
DE ONDE VEIO A TV?
(transição: imagem da tv aproximando e depois se distanciando, novo cenário: banheiro público.)
DE ONDE VEIO A TV?
O DEUS TV, O DEUS TE VÊ.
deus-entreterimento, travelling  para trás o revela lentamente.
um velho sentado na privada, calça nos tornozelos, o cu soltando merda e peidos, as mãos espremendo os joelhos.
atrás da cabeça a tv ligada.
uma coroa sacra.
a face de deus.
e fala(voz sintentizada):
- só posso te mostrar dor à direita e à esquerda, e nos lados que sobram. só dor no mundo todo em cada canto. ... um tipo de...
pensa. reflete. volta empolgado, estalando os dedos.
- abatedouro! isso que essa porra é... um enorme e azul abatedouro. e vocês todos em fila se debatendo de medo por causa dos gritos dos que já foram;
deus se aplaude, e ri sozinho. seus olhos vidram sua própria linha de raciocínio. as imagens explodem em muitas cores.
limpo meu vômito.
não sei onde estou desde que cheguei, não sei como cheguei desde que estou.
tento pensar em algo além da cat power.
deus sorri para mim insanamente.
- se você manda na casa, como veio parar no inferno? (pergunto)
sua risada e movimentos beiram à histeria e desespero... perde o fôlego... volta a rir e aplaudir...pausa dramática... enfia a mão na privada, pega uma bosta do tamanho de um antebraço de bebê.. acende com o dedo e traga um charuto de merda.
fumaça no meu rosto.
- garoto, eu perdi o controle disso aqui faz muito tempo...
big close-up da face de deus.



TIRO Nº 4-PULMÃODIREITO, O AR SE ESVAI, TE ABANDONA.

te deixa sozinho, na frente de um convento, numa sexta de piquenique, de cinzas.
...
...
...
...
...
sem palavras.
sem cenário.
você decorou o abecedário?
a queda sempre é confusa e sem esperança, tudo é vazio enquanto o chão não chega.
O IMPACTO.
tudo é desespero enquanto a dor não vem.
os ossos rachando.
o sangue fluindo para longe.
as lembranças espalhadas  ao redor e depois esquecidas (propositalmente), destruídas pela queda (propositalmente).
quem quer lembrar daquilo que já esqueceu?
pergunta o policial que me levanta, me espanca, me manda entrar na fila.
e amigavelmente diz:
nada pessoal, é que preciso pagar as contas.
policial bom e policial mal num só. duas cabeças de porco sobre um corpo, uma chorando a outra rindo. nenhuma parece o espancador, mas ele continua cumprindo o serviço.
fila inexpressiva, boto fones de ouvido.
track 1: gang of four-we live as we dream alone.
track 2: libertines-horrorshow.
uma crise de espirros em um velho faz a fila chacoalhar mais que devia.
track 3: sonics-strychnine
track 4: breeders-doe
uma possivel mãe enfia a mão na boca de uma criança com o punho fechado e em movimentos acelerados. o menino engole os dentes e o choro depois de cinco socos.
track 5: artistadesconhecido-música012
escada rolante.
o quão baixo você consegue descer?
cenário: praça de alimentação.
cada um que desce apaticamente da escada rolante corre para pegar um lugar e começa a enfiar comida na garganta, aos punhados cada vez maiores.
não entro nessa.
só fico por aqui.
não como porque cansei de vomitar, porque meu estomago dói, e meus ossos, e respiro com dificuldade.
existe cigarro no infern..?
plano detalhe: um fósforo riscado, um cigarro ofertado.
d. lynch me entrega.
sem dizer nada ele diz:
-é estupidez ficar seguindo todos os ciclos. é inútil. e tem uma saída de emergência logo ali. Não precisamos ser um deles.
as pessoas enfiam o máximo de batatas nas bocas e nas bolsas e nas bucetas.
pela rota de fuga sinalizada com luzes automáticas em caso de falta de luz vamos embora.
sem pressa atravessamos portas corta-fogo com barras anti-pânico.
o exército de porcos não nota ou ignora.
sem o peso da obrigação fumamos em corredores antincêndio.
você não precisa fazer nada disso.



TIRO Nº5-MIRO NO SEU CORAÇÃO E A BALA RICOCHETEIA.

então você diz que não entende como fiquei tão obcecado e que a gente mal se conhece e esse papo de cat power é loucura minha.
e estamos em qualquer lugar onde passa pornô sueco na tv, e um monte de gente dorme espalhada no chão.
e eu tento te explicar sobre deus, sobre os anjos, sobre tudo que vi.
que eu acho que o mundo já era, que eu não quero brincar de casinha, mas tenho um monte de coisa que quero te dizer só não sei sobre o quê estou falando.
e você se esforça para parecer assustada.
ou realmente está.
e você ameaça se vingar da minha vomitada.
e o céu-vermelho parece chiar.
a sueca está sendo estrangulada de quatro.
um cara pelado atravessa o apartamento e pula da sacada. desce todos os andares em queda-livra e é impossível saber se ele chegou no chão.
e não sabemos em que andar estamos, nem onde estamos.
e você saiu do meu lado,
e eu cai num sofá.
você não entendeu nada,
nunca vai entender.
...
a sueca parece sem ar.
então você aparece com dois copos me oferece um e senta do meu lado e fala pra eu calar a boca por um tempo.
e eu sempre te amei, barbie cat power
e nada disso faz sentido, mas é bom ter você por perto.
a sueca morre...snuff.



TIRO Nº6–NO QUEIXO PRA TE DEFORMAR PELA ETERNIDADE.

int/quartopreto/dia/noite/luzvermelhaatravessaajanela.
meus olhos se afundam dentro do meu rosto, minha cabeça cresce e fica rosa.
eu esqueci quem eu sou.
solto fluídos por todos os poros possíveis enquanto pelos crescem e engrossam por todo meu corpo e tudo cheira a merda.
eu preciso procurar um emprego ou impedir o apocalipse.
fileiras de dentes crescem atrás e na frente das fileiras já existentes. eu provavelmente não tenho salvação.
eu queria ser outra pessoa.
nenhuma música acompanha,
nenhuma saída à direita ou à esquerda,
é hora de traficar armas, foder o joelho, ver um outro hemisfério e desistir de tudo.
é hora de pagar almoços e dirigir carros com bonecas amarradas no cinto de segurança.
quem destruiu todos seus sonhos?
meus braços encolhem até as mãos chegarem no ombro, eu sou um bebêfoca sendo dilacerado por tubarões enquanto as paredes escorrem.
eu queria saber o que fazer.
minha garganta é estrangulada por cada palavra já dita, cada silêncio quebrado com ou sem motivo.
sempre sem motivo.
eu não tinha nada pra dizer e continuei falando, me debatendo inutilmente, desesperadamente, estupidamente.
eu não sei porque ainda estou em pé.
respirando pela boca
masturbando pra tirar porra
da cabeça do meu pau
sem admitir que tô me dando mal.
é uma merda ser tragado pela própria consciência, pelo tempo, pela vida, pelo mundo.
o corpo caído no chão, inconsciente, nada para se pensar.



TIRO Nº7 – NA TESTA, O CÉREBRO ESPALHA.

espólios do apocalipse camuflado.
imagens de circuitos de segurança mostram espancamentos generalizados, a plasticidade da violência se espalha pelo inconsciente coletivo, eletricamente.
FODA-ME
o caos se derruba e se espalha por todos os cantos, como leite, sem motivos pra chorar ou pra se vingar.
é bonito de se ver.
ext/dia/noite/ruínas
deus tv de smoking e sem rir, fumando merdas pequenas.
diz pra si mesmo em voz baixa: eu avisei... eu sabia...
d. lynch tem dois maços acesos na boca e olhos desesperados (lágrimas saindo deles).
barbie-cat-power foi estuprada por anjos negros e espancada por porcos-policiais-duas-caras ela diz que agora acredita em anjos. e nunca mais trouxe bebidas pra ninguém.
o quê fazer?
porcostrágicos
porcômicos
deustevê
anjostupradores
o que fazer?
as pessoas na fila aplaudem em pé.
nada mais acontece
nada.
nada...
e eu?
eu já estou morto,
te esperando na esquina.
os portões fecham.



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